Especial: Desvendando Battle Royale

Por Ricardo Chacur — Segunda, 11 de dezembro de 2006

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Todo grande sucesso esconde os seus segredos. Battle Royale foi um fenômeno no Japão mas só agora os brasileiros estão conhecendo essa polêmica obra através do mangá. Battle Royale é um livro que chocou o Japão pela sua ousadia e crítica dos valores japoneses. O livro foi escrito por Koushun Takami e publicado no Japão em 1999. Rapidamente tornou-se um dos mais vendidos e polêmicos romances do país.



Em dezembro de 2000, foi adaptado ao cinema pelo diretor Kinji Fukasaku. O filme gerou intensos debates sobre os valores japoneses na juventude. O sucesso foi tanto que meses depois lançaram uma série de quinze volumes em mangá com o mesmo título.

A sinopse é simples, mas envolvente: Num futuro próximo, o governo japonês vive uma crise econômica depois de ter entrado numa guerra. Já os estudantes japoneses tornaram-se rebeldes por causa das cobranças da escola, dos pais e principalmente da sociedade que exigem profissionais perfeitos. Na cultura japonesa, o fracasso é proibido. Para controlar toda essa rebeldia, o governo japonês criou uma lei conhecida como a "Lei BR" que autoriza o governo japonês a seqüestrar os jovens mais indisciplinados do país. Através dessa lei foi criado um programa de televisão chamado Battle Royale (BR), onde os estudantes seqüestrados vão se matar uns aos outros até restar apenas um. Os alunos selecionados têm três dias para realizar essa difícil missão, e são levados para uma ilha do governo.

Cada estudante recebe uma arma diferente ou um objeto que poderá ajudar na guerra da sobrevivência. São escolhidos jovens do terceiro colegial para serem levados a uma ilha, onde o sangrento jogo se iniciará, e só haverá um vencedor.

Tocando nas Feridas

O universo desta obra pode ser interpretado das mais variadas formas. Alguns críticos asiáticos conhecedores do livro, filme ou mangá acreditam que Battle Royale é uma crítica bem dirigida ao mundo dos realitys shows, onde tudo é permitido em nome da audiência e da mediocridade humana; no entanto, outros críticos ou fãs da série afirmam que Battle Royale é muito mais que uma crítica ao modismo da televisão atual, já que é uma crítica dos valores da sociedade e cultura japonesa.

O ponto é que toda temática desse universo criado pelo autor Koushun Takami - não é só uma cutucada nas feridas do Japão. Nos dias atuais, não importa à nacionalidade de um povo: Os jovens são cobrados pelos pais, que por sua vez estão preocupados com o futuro das suas crias. Os pais fazem cobranças e ensinam táticas de sobrevivência aos seus
filhos. É como se fosse uma regra do DNA do reino animal, onde os pais fazem cobranças para que os filhos possam viver numa selva mais conhecida como sociedade.

Para qualquer nação do mundo, educação é prioridade e até mesmo estratégico, no entanto, não garante que seja um diferencial que possa garantir uma sobrevivência profissional de cada jovem. A angústia pelo futuro incerto persegue os jovens desde o começo da humanidade. Sem medo de tocar nessas feridas, Battle Royale não é só uma obra visando o Japão atual ou do futuro; mas sim, um contexto crítico sem fronteiras do atual mundo globalizado.

É uma história principalmente sobre escolhas que vão além do bem ou do mal. Essas cobranças da obra reacendem o debate sobre o tipo de sociedade que estamos construindo no planeta. Uma sociedade atual que infelizmente valoriza o canibalismo desenfreado em nome do sucesso ou da sobrevivência profissional, onde todos nós estamos presos e jogados numa mesma ilha, e onde cada um tem sua arma, fé e princípios morais que acabam dilacerados em nome da vitória que nunca chega.

Polêmicas e Censura

O entretenimento das massas em Battle Royale é um simples detalhe na obra. O ponto forte da obra é sua mensagem social, política e até mesmo crítica da violência usando uma violência extrema e com humor; o que nem sempre é fácil trabalhar na linguagem do cinema.

Alguns espectadores no Japão perceberam a ideologia da obra e tentaram censura-la. Tal preocupação só serviu para atiçar a curiosidade do público, e acabou gerando uma arrecadação milionária tanto no mercado cinematográfico como editorial. Aproveitando todas as polêmicas e ameaças de censura, os produtores do filme lançaram uma nova montagem e mais cenas para o deleite dos fãs da série. Outro fator determinante no sucesso da série é o roteiro que consegue trabalhar com comédia, drama e suspense. Como se tivesse uma pequena linha separando os gêneros, e procurando levar o humor negro até às ultimas conseqüências para alegria de qualquer semiótico. Por exemplo, nos primeiros quinze minutos do filme quando os estudantes estão presos numa sala de aula, aparece um vídeo de uma menina com uma voz de personagem dos animes japoneses.

Nesse mesmo vídeo, a personagem que mais parece uma comediante caricata, explica as regras do cruel jogo onde os estudantes selecionados vão enfrentar o dilema dos valores da vida, conflito das amizades numa situação irreversível e agonizante.

Identificação dos Protagonistas

Outro fator positivo do universo de Battle Royale é a relação entre os protagonistas. Os personagens são introduzidos na história, mas não com muito destaque. É como se o autor fugisse dos manuais de roteiros e obras de êxito. O rompimento das regras de não exibir os protagonistas logo no começo é uma qualidade ousada e importante. Existe até uma dificuldade de entender quem, de fato, são os protagonistas no começo da obra. Essa fuga das regras e dos manuais típicos de roteiros acabou sendo um diferencial importante na trama.

O que fica bem claro desde o começo é a introdução do professor Kitano, que tenta incentivar os seus alunos horrorizados, na participação do jogo. O vilão é o professor frustrado do passado remoto, que se sente importante e valorizado ao ditar todas as regras do jogo. Dessa forma, o professor da obra acaba sendo respeitado não pelo seu conhecimento, mas pelo medo dos estudantes que vão se confrontar para viver. Com o tempo, o publico ou leitor do universo de Battle Royale percebe quem são os dois principais protagonistas que vão se revelar não só pela luta para viver, mas pela moral que eles vão conservar no ambiente conflitante e macabro.

Os protagonistas em questão são Shuya (Fujiwara) e Noriko (Maeda). Os dois formam um belo casal inocente que vai lutar não pela sobrevivência, mas para sair daquela situação extrema. No andamento do roteiro, o espectador percebe que é uma injustiça os dois estarem convivendo numa situação tão cruel naquela ilha, onde os valores já foram destruídos e apagados. O casal tenta sobreviver no caos, mas não pensa, em nenhum momento, em eliminar algum colega. O medo reina em cada estudante que foi jogado na ilha, mas o casal permanece com os valores sólidos, porque ambos permanecem fiéis um ao outro.

Shuya que é o homem do casal, por sua vez é mais emotivo pela personalidade e o trauma da morte do pai que se suicidou. O jovem é o típico sujeito com valores intocáveis que apesar do medo e toda sua insegurança permanece lutando com dignidade, no entanto, a jovem Noriko é uma mulher que vai se revelar forte no decorrer da trama. Com valores sólidos apesar da fragilidade física, Noriko e mais forte do que muitos que os homens naquela ilha do terror. Uma mulher que se destaca numa sociedade conservadora e masculina como a japonesa.

Dilema da Amizade

O tema amizade ainda é muito debatido na mídia mundial. A série Friends alcançou incríveis recordes de audiência com o tema. O universo de Battle Royale debate o mesmo tema da amizade sobre um enfoque mais cruel e levado até às últimas conseqüências. No roteiro inicial, os alunos de uma escola são levados para uma ilha deserta contra a vontade, e só poderão sair de lá quando matar todos os outros jovens. Não existe escapatória, porque um dispositivo explosivo foi colocado em volta do pescoço de cada estudante.

Para uma grande maioria dos personagens, o medo da morte prevalece e acaba sendo uma ameaça aos valores da amizade. Não importa o passado, os personagens vão lutar pela vida, e vão se revelar e assumir suas frustrações, inseguranças e desejos ocultos. O medo de morrer faz despertar o desejo de paixões, necessidades sexuais e o ódio adormecido em cada jogador da ilha. Ética e liberdade serão esquecidas em nome da luta para viver no ambiente hostil. É como se fossem cobaias de um laboratório que conseguem prever o futuro trágico. Numa luta amoral, os estudantes vão amadurecer e falecer no jogo sádico, onde o governo e o público se divertem como se fosse uma arena romana.

Uma temática interessante, Battle Royale inspirou os produtores da série Lost na construção do roteiro que mais parece um quebra cabeça. Resta lembrar que o livro japonês saiu muito antes da série americana. Não é um plágio, mas certamente os produtores norte-americanos beberam dessa fonte.

Legado da Obra

O livro, filme ou mangá de Battle Royale não provocam apenas o debate sobre o valor da vida, amizade, moral e os limites da ética. À obra de Koushun Takami é muito mais que um soco no estômago. É uma crítica da sociedade e da cultura do mundo globalizado. Não importa se o país é primeiro ou terceiro mundo: Battle Royale é uma crítica das cobranças da sociedade, dos conflitos da crise na educação, dos governos hipócritas que resolvem problemas através de leis imorais e guerras sujas, e da própria falta de iniciativa dos jovens que se escondem por trás de suas máscaras de inseguranças - e das necessidades consumistas. Battle Royale é uma triste revelação de que com tantos avanços tecnológicos, nós não conhecemos as pessoas que estão do nosso lado.

Apesar do mundo conectado tecnologicamente, os indivíduos e famílias vivem numa eterna insegurança. É como se todas as nações vivessem o mesmo medo, uma mesma insegurança e o mesmo dilema. Nos quais as frustrações são visíveis, e todos lutam para sobreviver – não importa à classe social. Em pleno século XXI todos querem liberdade, mesmo que seja necessário fugir para qualquer lugar.




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