Paradise never

A questão dos conflitos étnicos e (supostamente) religiosos entre árabes e israelenses no Oriente Médio é uma das situações mais graves e delicadas do mundo, e não é surpreendente que estejam, cada vez mais, rendendo filmes por todo o Globo Terrestre - do árabe-israelense
Paradise Now (uma produção local, portanto) ao italiano
Violação de Domicílio, para nos atermos somente aos filmes que estrearam no Brasil esse ano. Mas há algo surpreendente nessas realizações, sim, e esse
fator-surpresa é a inacreditável má qualidade do resultado final que vem sendo apresentado nas telas nos filmes que abordam a questão.
Parece que seus diretores, por mais interesse e boa vontade que tenham, não encontraram ainda a forma correta para lidar com um tema tão importante e complexo, inclusive do ponto de vista cinematográfico: as disputas entre árabes e israelenses pela Terra Santa envolvem amor à Terra, ódio, devoção religiosa extrema, respeito às tradições, menosprezo à vida e ao próximo, rancor, adoração, inveja... ingredientes que, reunidos no plano da realidade, são difíceis de lidar. E que, transpostos para a tela do cinema e os meandros da produção cinematográfica, nem por isso se tornam mais fáceis. Pelos filmes que se tem visto a respeito do tema, pode-se dizer até que o caldeirão acima, quando levado ao Cinema, acaba por sofrer dificuldades novas.
Um Ato Terrorista, o novo filme a abordar a questão, não é uma exceção entre as realizações que estão enfrentando dificuldades para lidar com o tema. No filme, uma família de origem árabe vive tranquila na América até que recebe a visita de um amigo, proveniente da França e já envolvido em práticas terroristas - fato que a família que o recebe desconhece por completo. O recém-chegado é bem-vindo e rapidamente se integra à comunidade árabe local. E, sendo pessoas absolutamente de paz, seus anfitriões planejam até mesmo promover um romance entre o recém-chegado e a irmã caçula do patriarca. Contudo, o que o visitante planeja, mesmo, é explodir a Central Station. Ou, pelo menos, um outro pedaço de Nova York.
Importante como denúncia - como
Paradise Now e
Violação de Domicílio também o foram -
Um Ato Terrorista incorre nos mesmos erros dos outros dois filmes e, da concepção à prática, escorrega feio na forma como se desenvolve. Sua narrativa é pesada, cansativa, sem leveza, filmada através de uma câmera parada e sem inspiração, que busca apenas imagens escuras. É interessante observar que bons filmes, via de regra, são aqueles que, ao abordarem temas difíceis, demonstram habilidade em contrastar tais temáticas com uma
mise-én-scène suave, a fim de evitar que as tensões apresentadas pela trama se sobrecarreguem e, assim, viabilizar um equilíbrio
entre a força de sua denúncia e a beleza estética de sua condição de obra cinematográfica.
Um Ato Terrorista, porém, é mais uma realização sobre terrorismo que teima em intensificar a falta de cores do tema apresentado, convertendo-se em um filme pesadão e extremamente cansativo. Há esforços do elenco, não se pode negar, mas tais esforços revelam-se incapazes de segurar a narrativa do filme e convertê-la em algo, no mínimo, interessante.
Finalizando, esse resultado final - cansativo, pesado - acaba por afugentar o espectador até mesmo da denúncia que o filme procura transmitir: o cotidiano de um terrorista na elaboração e preparo de seu ato criminoso e, como o encerramento do filme demonstra, a total incapacidade das autoridades em lidar com essa situação.