Agora é James Bond que imita Ethan Hunt...

Quando o primeiro filme da série 007,
007 - O Satânico Dr. No foi realizado, em 1962, as aventuras de espionagem viviam um saudável boom através, principalmente, de séries de televisão como
Missão: Impossível e a humorística (e impagável)
Agente 86 (curioso observar que a primeira já virou série de cinema e a segunda já está sendo adaptada para a tela grande, com
Steve Carell no papel principal). James Bond funcionou bem nas telas principalmente pela elevada qualidade de seus primeiros filmes, claro - mas é inegável que o período em que foi lançado, repleto de tele-aventuras de espionagens, ajudou e muito.
Já nos anos 80, algumas trocas de protagonista depois, a qualidade dos filmes protagonizados pelo Agente 007 começou a cair - foi um período em que o personagem definitivamente começou a se tornar maior que os filmes nos quais aparecia (e, não raro, muito, mas muito maior que os atores que o interpretavam). Curiosamente, os anos 80 foram, também, a década em que as séries de televisão viveram sua fase mais crítica desde os anos 60 (
A Feiticeira,
Perdidos no Espaço) até os dias de hoje (
Lost,
Prison Break). Mas, tão acima do bem e do mal quanto o próprio James Bond, residia, e ainda reside, a mítica da série, que jamais deixou de ser referência para o cinema de espionagem - sério ou cômico - feito depois do surgimento de Bond nas telas. Quando foi adaptado para a tela grande, o seriado
Missão: Impossível, produzido e protagonizado por
Tom Cruise, e que já teve três versões para o Cinema, foi frequentemente - e com razão - comparado aos filmes com o espião 007.

Nenhum dos três
Missão: Impossível é grande coisa, e, por mais que
Tom Cruise se esforce, suas limitações artísticas não permitem que Ethan Hunt - protagonista da série em questão - tenha o mesmo carisma de James Bond. O que ninguém poderia imaginar, contudo, é que a criatura engolisse o criador, e o mais recente filme com James Bond parece apenas - e essa palavra tem um sentido de limitação muito forte - um novo filminho de Ethan Hunt.
Por mais fracos que tenham sido os três
Missâo: Impossível, o trabalho dos diretores e principalmente dos produtroes tornou possível que já se identifiquem alguns fatores comuns aos filmes de Ethan Hunt: excesso de violência tentando ser contrabalançado com lugares repletos de sofisticação e beleza arquitetônica - que, aparentemente, para seus realizadores deveriam representar uma vida tranquila e sem stress, na tentativa de se formar um contraste com a violência exposta nos filmes. E uma apresentação coreográfica das próprias cenas de violência, tentando torná-las mais palatáveis e menos realistas, no sentido de que a violência da tela não poderia chegar
do lado de cá. Essa visão, contudo, é equivocada: vivemos num mundo tão violento que a violência coreografada acaba até por assustar ainda mais, porque essa edulcoração toda acaba soando como uma glamourização da mesma; e as ambientações riquíssimas, multi-milionárias de heróis e vilões não tem como não parecerem antipáticas para a imensa legião de espectadores que, ao redor do mundo, vão ao cinema com sacrifício e mal tem o que comer.
Bem, mas assim são os filmes de
Missão: Impossível. Não os de James Bond. Até agora. Porque esse novo filme da série, dirigido por
Martin Campbell, copia exatamente todos os tiques acima e os recria no universo 007. Uma decepção, e quase uma vergonha. E a constatação de que James Bond, no cinema, já deu o que tinha que dar. Estreando como o personagem,
Daniel Craig está bem. Muito bem, até. Mas é constrangedor ver 007 de armas na mão, matando até mesmo prisioneiros desarmados e derrotando um terrorista em um ambiente tão sórdido quanto uma mesa de cassino - embora, paradoxalmente, ao redor desta ele não use armas de fogo. E o plano final, onde o (pseudo) herói aparece empunhando uma arma de grande porte, supostamente destemido - embora não haja valentia alguma em empunhar armas - só faz comprovar que James Bond, definitivamente, não é mais o mesmo. Não é um herói, não é cara bacana, e com certeza, não é mais protagonista de bons filmes.