Nós vimos: O Ilusionista

Por Carlos Dunham — Sexta, 1 de dezembro de 2006

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Norton e Giamatti também têm seus grandes truques

Depois do extraordinário O Grande Truque, de Christopher Nolan, chega mais um filme ambientado nos bastidores dos shows de mágica - e tão bom quanto o protagonizado por Christian Bale e Hugh Jackman: O Ilusionista, de Neil Burger, cujos papéis principais são defendidos por Edward Norton (como o personagem-título) e Paul Giamatti (como o investigador que não acredita nos dons do mágico e tenta avidamente desmascará-lo).

Apesar das semelhanças iniciais - que passam, também, pelo duelo de interpretação de dois grandes atores da novíssima geração que ambos os filmes oferecem - O Ilusionista é um filme inteiramente diferente de O Grande Truque, embora uma grande semelhança entre ambos se destaque - a elevadíssima qualidade dos dois filmes. Aqui, nessa produção entre os EUA e a República Tcheca, a ação se passa na Viena do final do Século XIX, início do Século XX - época de grandes transformações para a humanidade, subliminarmente defendida pelo filme como um período em que mágicos e seus shows deixavam de ser vistos como criaturas quase paranormais para serem compreendidos (ou não) como profissionais do entretenimento cujos truques sempre têm uma explicação racional por trás - uma definição correta, mas a qual não se chegou sem um certo rebuliço.

Eisenheim, personagem de Norton, porém, não é - ou não demonstra ser - um mágico tão normal assim, e o sucesso profissional que alcança traz também muitos questionamentos sobre se ele teria realmente um dom especial ou não. Para dirimir tais dúvidas, o investigador Uhl (Giamatti) faz da investigação a respeito do trabalho de Eisenheim a missão de sua vida.

É curioso observar como, de forma sutil e quase subliminar, O Ilusionista transforma a época na qual se situa como um personagem a mais de sua trama. A virada do Século XIX para o seguinte foi um período de grandes alterações no mundo: a Revolução Industrial e seus frutos desenvolviam-se a pleno vapor, Allan Kardec já havia há décadas divulgado novas informações sobre a verdade da existência e os relacionamentos entre vivos e mortos através do pentateuco literário que psicografara e lançara, os reinados e principados europeus começavam a conhecer o seu ocaso. Todo esse panorama social e religioso está presente no filme, com uma força tão grande quanto os bastidores da mágica, mas curiosamente sem serem abordados diretamente pelo brilhante roteiro assinado pelo diretor Neil Burger.

E, embora a solução final (que obviamente não revelaremos aqui) dê inicialmente a entender o contrário, e apesar de os truques criadores racionalmente pelos profissionais do ilusionismo serem desmitificados e estarem presentes no filme, este, de certa forma, defende a tese de que Eisenheim seria realmente alguém com um dom especial: o de comunicar-se com desencarnados. Mais uma das sutilezas de O Ilusionista é o fato de demonstrar que, num mundo racional ou não (e mais ainda em mundos assim) a presença espiritual está sempre ao lado do homem - e apoiando as pessoas de bem.

Outro grande fator que comprova a altíssima qualidade do filme é a excelência dos setores técnicos da película - particularmente, do desenho de produção: por ser um filme de época, é evidente que O Ilusionista tem que - e deve - colocar seus personagens em roupas e cenários correspondentes ao período no qual se passa a ação. Mas Neil Burger, diretor que se encontra em seu segundo filme, não se permitiu filmar um mero desfile de figurinos bonitos: O Ilusionista não é uma super-produção no sentido grandilouquente da palavra e, de certa forma, lembra e muito o cinema de Max Ophuls. Ophuls era um cineasta cujos filmes eram dotados de grande beleza visual, paradoxalmente contrastada por tanta discrição estética ao redor - planos fechados, poucos atores e figurantes em cada cena, sentimentos amargos que soavam belos na tela por serem verdadeiros, mas sem adocicar a narrativa - que, em seus filmes, a ação dramática (geralmente intensa) defendida pelos personagens principais tendia a ficar ainda mais vigorosa, exatamente pelo contraste entre a opulência das ambientações e figurinos da burguesia européia do passado e a forma como esta era exposta (em todos os sentidos da palavra) na tela. E, exatamente por não super-intensificar a beleza de seus cenários e figurinos, Ophuls conseguia torná-los ainda mais fascinantes e mais belos.

Bebendo na fonte do extraordinário cineasta alemão, Burger revela ser um diretor que não esqueceu que a maior (e mais bela) de todas as ilusões é o Cinema, e fez de O Ilusionista um filme que, além da força de seu elenco e do envolvente poder de sua trama, respira qualidade em todos os setores técnicos que permitiram que a Primeira das Artes (que se convencionou chamar de Sétima) fosse dotada de tanto beleza, e que tornaram o Cinema a mais bela e mágica ilusão que o ser humano criou.




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09/11 > "E agora, Mister M?”
03/11 > Nós vimos II: O Grande Truque
01/11 > Nós vimos I: O Grande Truque
03/10 > Bale e Jackman em The Prestige
18/01 > Edward Norton é O Ilusionista

 

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