Realismo Fantástico em grande estilo

O Realismo Fantástico sempre foi, ao lado do melodrama e das comédias com personagens ingênuos (
Cantinflas,
Mazzaroppi), um dos grandes expoentes cinematográficos do cinema latino-americano. E é interessante observar que o estilo sempre esteve muito mais associado ao cinema mexicano que ao oriundo dos demais países do continente (não sem motivos, pois os grandes filmes ligados ao gênero são, via de regra, realmente mexicanos; o Brasil, na verdade, não chega a ter uma grande tradição no realismo fantástico). Agora, mais uma vez o México confirma ser o grande celeiro do estilo no mundo: em mais uma realização cinematográfica daquele país,
O Labirinto do Fauno, o Realismo Fantástico Latino-Americano chega às telas - e, dessa vez, pode-se dizer que o gênero abriu mão de todas as sutilezas para praticamente oficializar-se como tal. Fazendo-o, acrescente-se, de forma brilhante.
No filme, que apesar de ser uma produção mexicana situa sua ação na Espanha, Carmen (
Ariadna Gil) e sua filha Ofélia estão indo viver com o segundo marido daquela, Vidal (
Sergí Lopez). A ação se passa em 1944, durante a 2a Guerra Mundial e em plena Espanha de Franco, e Vidal é ninguém menos que um capitão do exército franquista, tão assassino e sanguinário quanto o seu líder.

Grávida e doente, Carmen passa a maior parte de seu tempo acamada, abandonando involuntariamente Ofélia (sob a ótica de quem o filme é narrado), que tem apenas a companhia dos livros de contos de fada para ler.
Em excepcional desempenho de
Ivana Baquero, Ofélia funciona como os olhos e ouvidos do espectador, pois é com a sua chegada à fazenda do capitão Vidal que o público logo descobre tudo o que se passa naquela casa. A menina não nutre simpatia alguma pelo padrasto, mas logo trava amizade com Mercedes (
Maribel Verdu), governanta da residência do capitão e que (obviamente sem o conhecimento deste) auxilia e abastece os opositores ao regime de Franco. Mercedes não é a única amizade que Ofélia traça na fazenda: a menina logo conhece um fauno, que a transporta para um universo mágico, no qual Ofélia, aparentemente confundida com uma princesa, pode conseguir remédios para cuidar de sua mãe. É exatamente esse o
turning point do filme, no qual, através de um excelente roteiro, a ação de
O Labirinto do Fauno - sem abandonar o registro realista - começa a incursionar pela fantasia.
Funcionando como extensão e metáfora dos contos de fada que Ofélia tão avidamente lê, o universo paralelo revelado a partir daí fascina a menina e o espectador, e
O Labirinto do Fauno demonstra uma habilidade admirável em transitar tanto pela narrativa política da perseguição aos opositores do franquismo quanto pela estrutura de um filme de fantasia com rasgos de
O Jardim Secreto e
O Mágico de Oz, que em nada fica a dever a grandes produções de Hollywood.
Roteirista e diretor de
O Labirinto do Fauno,
Guillermo del Toro já demonstrara toda a sua qualidade como cineasta em
A Espinha do Diabo - onde, em uma pequena cidade, a ambição humana e a intervenção da natureza, representada através de um meteoro que caíra do céu, expunham o medo e os (bons e maus) sentimentos de seus personagens, através de um roteiro brilhante e repleto de ação e suspense.
O Labirinto do Fauno confirma a habilidade de seu realizador em incursionar por universos atemporais, aonde a realidade e a fantasia convivam com uma normalidade tamanha que tornem, para o espectador, o onírico algo absolutamente natural - e, por isso mesmo, ainda mais fascinante. Merece especial menção a cena em que Ofélia tenta fugir da
criatura com olhos nas mãos: trata-se de um momento extraordinário do cinema, que tira o fôlego do espectador e permanece em nossos corações e mentes muito tempo após o término da projeção. Outra menção especial cabe à direção de arte, a cargo de
Caballero: essencial para o bom resultado de um filme desse porte, a cenografia do filme é de uma felicidade gratificante, e uma das grandes responsáveis pela concretização, em imagens, do clima mítico e místico que del Toro intentou - e conseguiu - criar.
Unindo realidade e fantasia, e misturando com tamanha qualidade todos os ítens que fizeram do Realismo Fantástico o forte gênero latino-americano que é,
Guillermo del Toro realizou uma obra extremamente bem-escrita e dirigida, envolvente, sedutora, absolutamente intrigante e que ficará um bom tempo gravada na memória do espectador.¤