 |
Liberdade na Internet - Parte 2
Por Douglas Donin — Terça, 21 de novembro de 2006
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Na semana passada falamos sobre como a atividade de manter um blog está se tornando perigosa no Brasil: chegamos ao ponto onde um blogueiro, mesmo tomando o cuidado para não ofender ou abusar de ninguém, pode se surpreender de uma hora para outra sendo arrastado para o banco dos réus por causa de um comentário anônimo que pipocou em seu blog – tudo isso, por causa de um recente antecedente jurisprudencial absurdo e muito, muito perigoso, que recentemente condenou o blog Imprensa Marrom pela conduta de um comentarista anônimo.
Naquela coluna recorremos a uma analogia caricatural: uma pessoa, no meio da rua, em público e de surpresa, xinga uma outra. De quem seria a culpa, de quem cometeu a ofensa ou da prefeitura, responsável pela rua, que permitiu que em seu domínio fosse feito o xingamento? Poderíamos utilizar outras analogias ainda mais esdrúxulas: culpar a companhia telefônica por uma ofensa dita ao telefone, ou os Correios por uma ofensa enviada por carta. Estas metáforas forçadas, apesar de absurdas, infelizmente também servem para análise do assunto de hoje: a perseguição à Google, patrocinada por certas autoridades, como resposta aos “crimes” praticados no Orkut.
O Orkut, como todos vocês devem saber, é um serviço disponibilizado gratuitamente pela Google, onde você pode entrar em contato com milhares de pessoas, encontrar velhos amigos, participar de comunidades de interesses afins, receber recados em uma página específica e outras facilidades que só a tecnologia moderna pode oferecer. Eu, por exemplo, praticamente dobrei meu número de amigos depois que entrei no Orkut, principalmente por ele me permitir recuperar o contato com velhos conhecidos que eu achava que nunca mais veria.
Mas, obviamente, há o lado negro do mecanismo. Existem comunidades que pregam o racismo. Existem comunidades de troca de fotos de pedofilia. Existem usuários falsos. Existem estelionatários. Existem spammers – ah, se existem!. Existem idiotas de todos os tipos, cores, sabores e texturas, abusando da liberdade e do conforto que a Google proporcionou aos seus usuários para promover crenças idiotas como nazismo, intolerância religiosa, racismo e outras disfunções sociais. Existe gente xingando, existe gente sendo xingada, existe pessoal trocando material protegido sem autorização, e por aí vai. Não passa um Fantástico sequer sem que uma reportagem aterrorizante mostre "os perigos do Orkut", tudo com um ar muito misterioso, vítimas no escuro com rostos quadriculados, musiquinha de filme de terror no fundo e tudo mais para convencer a população em geral de que o Orkut - e a Internet, por extensão - é um território selvagem, perigoso e habitado quase exclusivamente por pedófilos, pederastas e fugitivos de Nuremberg. Não é raro encontrar pais que, amedrontados por tais reportagens, cortam o acesso dos filhos à rede.
Mas o Orkut é, realmente, este território tão demoníaco e perigoso que as reportagens de TV querem fazer parecer?
Existem “predadores” no Orkut, certamente, mas a atividade criminosa na rede da Google não ocorre senão como manifestação de uma situação social externa à Internet. Já diziam há tempo, e muito sabiamente, que a “Internet é a porta da rua”. E o Orkut, então, é a expressão máxima disso. Ele não é uma rede de nazistas pedófilos, como pode imaginar um leigo apenas vendo as reportagens do Fantástico, mas uma rede de pessoas. E uma rede bastante democrática: não é necessária muita coisa para participar, apenas um computador e um telefone - ou então, alguns trocados em uma lan house. Assim, é natural que uma parcela dos participantes do Orkut não esteja lá para boa coisa, exatamente porque uma parcela da população em geral, em qualquer lugar que seja, na Internet ou fora dela, possui má indole.
E esta minoria sequer é representativa: é difícil topar, sem que se esteja procurando especificamente por isso, com material ofensivo (com exceção, claro, do spam - a prática mais danosa da Internet, e, coincidentemente, a única para qual que as autoridades não mexem um dedo sequer para acabar). Retratar o Orkut como uma rede exclusiva de pedófilos e nazistas é, certamente, um grande exagero. Supor isso é mistificar negativamente a imagem dos internautas, nivelar por baixo uma grande e variada comunidade e ser muito, muito injusto com os milhões de pessoas boas que frequentam a rede, bem como com a enorme quantidade de material legal que pode ser encontrada lá.
A Internet – e isso custa a entrar na cabeça das autoridades – nunca vai ser totalmente segura, porque a sociedade não é totalmente segura. Um pai que reclama que seu filho entrou em uma página com conteúdo pornográfico ou racista, colocando a culpa no Orkut, na Google ou no Bill Gates, simplesmente está negando o fato de que ele está deixando de fazer seu trabalho de pai. Da mesma forma que não larga seu filho na rua, permitindo que ele vá onde quiser, é sua responsabilidade, e não da Google, educar seu filho no uso da rede. A Internet exige educação, exige cultura de segurança. O que há no Orkut são pessoas. Quem quiser desfrutar das facilidades – e que facilidades! – de uma rede social, e de tecnologias que facilitem a comunicação direta ainda mais potentes que surgirem daqui para frente, tem que estar preparado para entrar em contato direto com seres humanos, e não com sistemas. E o contato com seres humanos traz, sempre, desprazeres e perigos em potencial. Não é o Orkut que faz o criminoso. Não é a Internet que faz o criminoso. Quem está disposto a praticar fraudes, estelionatos, organizar brigas de torcida, xingar judeus ou protestar contra golpes de empresas de qualificação profissional faz isso com ou sem Orkut, com ou sem blog, com ou sem Internet.
Quantas vezes não vemos pais que se recusam a aprender o mínimo sobre a Internet, ao ver os filhos no computador conversando sabe-se lá com quem sobre assuntos que eles nem suspeitam, se orgulharem que "nem sabem o que os filhos estão fazendo" - como se não fossem pessoas do outro lado da linha, mas personagens de algum tipo de jogo, que desaparecerão quando o computador for desligado? Como se fosse bonito ou engraçadinho um pai, adulto, admitir que prefere a confortável ignorância sobre "estas coisas de jovem" que o filho de dez anos já domina. Um pai não pode se dar o luxo de pensar assim: é dele a tarefa de conversar com seus flhos sobre os perigos a que estão expostos na rede e fora dela. Um pai deve se atualizar. Ao levar a Internet para dentro de casa, deve saber o mínimo sobre ela. Claro que, se acontece o pior, o pai nunca admite seu desleixo: a culpa é da Google, do Orkut e de qualquer outra coisa, mas não de sua própria negligência.
É simplesmente impossível sanitizar 100% da Internet. Temos que compreender que não é imolando a Google e fechando o Orkut vamos ter uma Internet segura. Não há nada lá, nenhum crime, nenhuma ofensa, nenhum conteúdo ilegal que seja obra da Google. No entanto, nossas autoridades decidiram pensar diferente. Decidiram que se alguma criança topar com algum perigo no Orkut, a culpa não é do pai irresponsável, que largou seu filho solto na Internet. É, isso sim, a Google que tem que pagar o pato cada vez que um imbecil resolve escrever bobagem no Orkut, pois ela "deveria desenvolver tecnologia para evitar isso" - como se houvesse antivírus para comportamentos humanos. Chegou ao cúmulo de pedir indenização por danos morais coletivos, da Google, no valor de R$ 130 milhões, e pedir o fechamento da empresa no Brasil. É mais uma prova de que as nossas autoridades não têm a mínima idéia do que seja a Internet.
Ora, se a Google fechar o escritório no Brasil (e eu, se fosse a Google, certamente estaria analisando esta hipótese, frente à imaturidade com que é tratada pelas autoridades brasileiras), vai ser pior para todo mundo. Os brasileiros praticamente não sentirão a diferença: participar do Orkut será tão fácil quanto antes. Por outro lado, sem escritório brasileiro da Google, as autoridades aqui ficarão impotentes para combater o conteúdo impróprio. Terão que reclamar para direto com a matriz americana, que obedece à jurisdição americana. E como vão reclamar do conteúdo nazista ou racista, já que lá a liberdade de expressão, mesmo que para falar besteira, é garantida? É dar um tiro no próprio pé.
Mas parece que está no nosso sangue erguer cruzadas para a destruição irracional de algo, desprezando todos os benefícios que esta coisa possa trazer - mesmo que sejam benefícios enormes - para evitar um punhado de males que existiriam de uma forma ou outra. Semana que vem falaremos melhor deste nosso desagradável hábito, ao tratar de um orwelliano Projeto de Lei que promete acabar com os conteúdos impróprios na Internet criminalizando o uso anônimo, e da forma como esta bizantina lei, que está para ser votada, pode modificar profundamente o modo como usaremos - ou, se depender de seu autor, não usaremos - a rede. Até lá!
|
 |