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Não se pode viver sem eles
Por Alexandre Maron — Segunda, 29 de dezembro de 2003
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Ah, os fãs. O que seria do mundo e da indústria do entretenimento sem eles? São eles que dão sustentação a pequenas obras de nicho e que as tornam grandes com o passar do tempo. Foram os responsáveis (ou os culpados) pela eternização de franquias como Jornada nas Estrelas, Guerra nas Estrelas e Perdidos no Espaço, por exemplo.
Mas nem tudo é um mar de rosas nesse relacionamento entre os criadores das grandes sagas e os fãs. Que o diga George Lucas, por exemplo. O cara criou Star Wars vinte e tantos anos atrás e viu sua criação sair totalmente de seu controle. Ao expandir sua franquia para jogos, livros, quadrinhos e seriados de animação, Lucas foi tornando sua obra maior do que ele mesmo e, quando resolveu voltar à mitologia que o tornara famoso e poderoso, descobriu que não podia mais se comunicar com os fãs da série, porque agora eles tinham idéias muito bem definidas sobre o que queriam da história. E essas idéias eram bem diferentes do que o diretor roteirista estava querendo fazer nos três filmes que lançaria a seguir.
Se você pensar bem, é uma maluquice. Quem criou o diabo do universo ficcional foi George Lucas, oras. Quem devia dar o rumo seria ele. Mas os fãs tomaram tal controle da obra que o pobre miliardário não consegue dar um passo sem desagradar sua audiência mais fiel. Está em uma sinuca de bico, com milhões de seguidores da força dizendo que a nova trilogia foi um erro e que ele traiu o que criou duas décadas atrás. Durma-se com um barulho desses.
Outro exemplo interessantíssimo aconteceu com “Matrix”. Os irmãos Wachowski foram chingados pelas próximas três gerações porque os fãs tinham imaginado 16 outras formas de continuar as aventuras de Neo e seus companheiros. Só que quem tinha que decidir os rumos eram os irmãos reclusos e malucões. Eles seguiram sua visão e se mantiveram íntegros. Foram chingados de vendidos mesmo concluindo sua saga com a morte do principal casal de heróis, mostrando que todo o belicismo humano não resolveria o conflito com as máquinas e que a única esperança de paz se resumia em acabar com a guerra sem escolher vencedores.
Nas séries, Joss Whedon, o criador de Buffy e Angel, parece ser um dos poucos que soube lidar com habilidade com os fãs. Ainda assim, sofreu duras críticas pelas escolhas que fez nos dois últimos anos de Buffy. Primeiro porque fez a série ficar sombria demais e depois porque arrastou seu último ano com uma premissa que parecia nunca se resolver. Eram os fãs, de novo, reclamando, reclamando e reclamando.
Mesmo “Jornada nas Estrelas”, uma franquia que parecia imune ao peso do tempo -e que foi capaz de gerar quatro seriados subseqüentes na TV e mais dez filmes nos cinemas- já demonstra sinais de cansaço. E justo agora os fãs ficaram irritadíssimos porque a boa nova série “Enterprise” (que depois de apanhar um pouco nos índices de audiência virou “Star Trek: Enterprise”) tentou sair do esquemão dos outros seriados da franquia. Para se ter uma idéia do que é mexer com os fãs, o produtor mudou o tipo de música de abertura, colocando uma baladinha melosa, e já aí sofreu um ataque maciço dos fãs. Pior ainda, é que a série mexe com o passado dos persomnagens criados por Gene Roddenberry. Pronto. Conquistou o ódio dos entusiastas que não se conformam com nenhuma inconsistência na linha de tempo do universo de “Jornada”.
Agora veja você. Eu não criei “Jornada” ou “Star Wars” (sou um desqualificado mesmo...), mas fiz algo mais grave: resolvi dizer que vi defeitos em “O Retorno do Rei” e comecei a receber o chamado “hate mail”. Veio tanto pelo SoBReCarGa quanto pelo meu site. Ou seja, os caras descobriram quem eu sou, o que faço e me mandaram ameaças. É um padrão de máfia!!!!
No meu artigo, critiquei as inconsistências narrativas o excessivo melodrama da relação entre Sam e Frodo e o posterior esforço do diretor em remediar isso mostrando o casamento de Sam e Rosinha e terminando o filme em uma cena na qual Sam e a esposa, com dois filhos pequenos, entram em casa apaixonados.
Cutuquei um vespeiro. Recebi e-mails nos quais diziam que sou um ignorante que não lê livros, só porque eu não coloquei meus pobres olhos sobre as páginas com as santas palavras escritas por Tolkien. Pior. Ao dizer que Peter Jackson fez questão de mostrar o casamento de Sam e Rosinha um leitor assumiu que eu estava dizendo que o tal casamento não aconteceu nos livros. Como se ao não ler os livros eu nunca tivesse conversado com os meus amigos que leram ou mesmo dado uma olhada no ótimo material especial daqui do SoBReCarGa que, entre outras coisas, relata as diferenças entre os livros e os filmes.
A principal característica do fã é essa mesma. Esse olhar apaixonado sobre a obra pela qual é obcecado (fã, no fim das contas, vem de fanático...). E ver uma pessoa, qualquer pessoa que não seja ele, dizer que sua obra adorada tem algum defeito é insuportável.
Com fãs não se discute de forma lógica, embora eles achem que seus argumentos são absolutamente palpáveis. É como uma religião.
E mais importante que tudo. Um obra literária, ao virar filme, cai no domínio de um grupo muito maior do que o dos leitores originais da obra. Pense que, em uma semana de exibição em cinemas do mundo todo, "O Senhor dos Anéis" teve mais espectadores do que leitores em toda a sua história. O mesmo com Homem-Aranha, Batman, Super-Homem, X-Men. É a magia da comunicação de massa. Muitas dessas pessoas nunca leram e nem querem ler os livros. Vão gostar (ou não) da experiência proporcionada pela obra de Peter Jackson, mas seguirão em frente sem jamais pensar no assunto novamente. É melhor saber lidar com isso, ou ir fazer terapia.
Mas não pense que esse artigo é uma espécie de manifesto anti-fã. Muito pelo contrário. Não há nenhuma dúvida da importância dessas figuras apaixonadas. Seria muito saudável, isso sim, que essas pessoas revissem sua relação com os objetos de suas obsessões. Isso diminuiria o preconceito contra elas e tornaria o trabalho dos produtores e roteiristas de dar continuidade às grandes sagas e franquias algo mais natural, que sofreria menos pressão. Então entenderam, né? Já para os Fanáticos Anônimos.
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Enquanto isso, no mundo dos seriados...
David Boreanaz não escondeu sua irritação quando soube que Sarah Michelle Gellar, a estrela da extinta “Buffy – A Caça Vampiros”, não aceitou o convite de Joss Whedon para fazer uma participação especial em “Angel”. Boreanaz e Whedon botaram a boca no trombone e mandaram a imprensa ir perguntar à atriz o motivo de seu desprezo. Ambos sabem que essa pode ser a última temporada da série e que os fãs estão sedentos por um último encontro entre a caçadora e seus queridos vampiros Spike e Angel.
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FELIZ ANO NOVO!!! :)
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