A arte inusitada de contar boas histórias
Pedro Almodóvar é talvez um dos diretores de cinema mais ousados e supreendentes nos dias de hoje. Especialmente porque é quase impossível encontrar nas obras "almodovarianas" uma fórmula ou um padrão estético de realização únicos. A única constante nos filmes de Almodóvar é o olhar multifacetado e imprevisível do diretor, acompanhando de uma nada sutil perturbação da realidade, de emoções inquietantes (aquelas que fazem a gente se remexer na poltrona, literalmente), de conflitos e tensões pelo inesperado (que sabemos existir e que está mais presente do que imaginamos).
Volver é talvez um dos filmes em que o diretor consegue melhor imprimir essas marcas. Apesar disso, nos encontramos, nessa história, com um Almodóvar menos denso, mas não menos profundo. Segundo o próprio cineasta, Volver é uma comédia dramática. Com toda a genialidade que lhe é peculiar, ele realmente consegue realizar um
thriller em que a comédia é permeada por doses bem equilibradas de drama, com muita leveza. E o contrário também poderia ser verdade.
Afinal, quase toda comédia só faz sentido quando acompanhada dos dramas a ela correspondentes. Comédias só funcionam porque nos permitem rir da nossa realidade e dos absurdos que fazem parte dela.

Situações reais e corriqueiras que, na maior parte do tempo, não soam engraçadas porque não as encaramos assim. As três principais personagens femininas de Volver nos permitem fazer exatamente isso.
A divertida história em que Raimunda (
Penélope Cruz), vovó Irene (
Carmem Maura) e Sole (
Lola Dueñas) se envolvem marca a volta do olhar apurado que Almodóvar costuma lançar sobre o universo feminino em seus filmes. Seja nas paisagens interioranas da aldeia de La Mancha ou na paisagem urbana da conturbada Madri, as personagens lutam pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, enfrentam os conflitos e fantasmas originários de um passado que não está assim tão distante.
Em
Volver, Almodóvar lança também uma curiosa perspectiva sobre a morte, sobre os fatos e eventos a ela relacionados e sobre lugar que ela ocupa no nosso imaginário. Há uma linha tênue entre a vida e a morte nessa história, bem como há uma linha tênue entre vida e morte na existência de um ser humano.
De certo modo, o diretor e seus personagens brincam com esse aspecto tão inerente à vida humana em
Volver. Brincam tanto e com uma leveza tão singular que, de fato, a abordagem sobre o tema causa algum estranhamento ao espectador. Almodóvar nos faz rir de algo que, normalmente, tememos. O filme nos mostra uma face da morte que conhecemos, mas que pouco compreendemos: aquela em que a morte é irremediavelmente parte de nossas existências e do nosso cotidiano. Então, por que temê-la e por que não rir dela?
Pode ser que o diretor realmente resgate algumas das suas origens e das características originais da sua obra nesse novo filme. A aldeia de La Mancha, o contato tão íntimo com o universo feminino e a forte co-presença da morte entre os vivos são alguns desses elementos.
Mas o que faz de
Volver um bom filme é o quanto ele confunde e torna estreitos os limites entre realidade e ficção. Afinal, sejam verdadeiras ou não, as histórias baseadas no imaginário popular, como algumas que o diretor resgata do seu passado na pequena aldeia onde nasceu, são e serão importantes para o repertório de quem tem ou teve contato com elas. Sejam contadas em aldeias como La Mancha ou em metrópoles como Madri.
São assim as histórias que fazem parte do nosso cotidiano e do nosso repertório, especialmente aquelas nas quais acreditamos sem muito questionar validade ou veracidade. Volver marca justamente um retorno brilhante de Almodóvar à arte de contar boas histórias como essas. Afinal, para que serve o cinema?