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Nós Vimos: Incuráveis
Por Carlos Dunham — Quarta, 8 de novembro de 2006
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Cinema independente, livre e bem resolvido 
Em uma cinematografia forte e de qualidade como a cinematografia americana, existem os grandes filmes, produzidos e realizados pelos grandes estúdios, e também os famosos filmes independentes - aqueles feitos com pouco orçamento e custos reduzidos (poucos cenários, elenco pequeno), geralmente realizados por cineastas em início de carreira e cujos projetos, até mesmo pelo currículo ainda incipiente dos realizadores, dificilmente consegue aprovação pelas majors cinematográficas.
É interessantíssimo observar como, em um período em que o cinema brasileiro cada vez mais se desenvolve e a indústria cinematográfica nacional fica cada vez mais forte, já se começa, também, a se desenvolver o que poderia ser definido como cinema independente brasileiro. E Incuráveis, o longa de estréia de Gustavo Acioli, é um belo exemplo disso - belo, também, pelo encanto que suas imagens proporcionam; e não apenas as imagens em si e por si, mas sim todo o contexto do filme, pois, em Incuráveis, observa-se que tudo está muito bem relacionado entre si - fotografia, roteiro, elenco, música, todos os ingredientes cinematográficos foram bem trabalhados pelo cineasta para que fosse alcançado um resultado final de qualidade.
Incuráveis é um filme de forte apelo sexual, e um de seus grande acertos é o fato de assumir tal condição, acreditar nisso e seguir sempre o caminho idealizado pelo diretor e pelos roteiristas (Acioli e Marcelo Pedreira, adaptando uma peça deste), sem dissimulações mas também sem baixarias. Lembrando e muito os filmes que Arnaldo Jabor realizou nos anos 80, Eu Te Amo e Eu Sei Que Vou Te Amar, e também as peças de Plínio Marcos, Incuráveis conta a estória de um homem e uma mulher que se conhecem em uma noite nitidamente fria e escura. Ele, solitário em uma mesa de bar, contrata ela, prostituta, para passar a noite inteira com ele.
Seu objetivo inicial: ter alguém para o escutar. No decorrer da noite, os personagens irão fazer muitas coisas além de meramente conversar - embora falem, dialoguem e digam (e essas três palavras têm significados diferentes) o tempo inteiro. É provável que, nas mãos de outro cineasta, Incuráveis se tornasse um filme vulgar e concentrado apenas em explorar os corpos de seus dois atores - Fernando Eiras e Dira Paes que são, por sinal, praticamente os únicos intérpretes em cena. Mas Acioli não se permite tal equívoco, não banaliza a nudez nem o erotismo e sabe que, mesmo em filmes de alto teor erótico, há coisas muito mais importantes para se falar do que nudez e sexo. Principalmente nesse tipo de filme, que requer necessariamente ingredientes extras em sua construção cinematográfica para não decair para a vulgaridade.
Ciente do que precisa fazer para realizar um filme, Gustavo Acioli demonstra ser um diretor seguro, e realizou um filme intenso, elegante, forte e refinado, rejeitando todas as possibilidades que tornassem Incuráveis uma obra suja - e, com uma direção precisa e delicada, fez de seu filme um belo exemplar do cinema independente brasileiro, um filme livre e bem resolvido enquanto Cinema.
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