A decepção do ano
Pedro Almodóvar é atualmente, sem sombra de dúvida, um dos melhores cineastas em atividade no mundo - e não vai ser um passo atrás em sua filmografia que irá comprometer a brilhante carreira do diretor. Contudo, não há como ignorar que esses passos atrás existem no currículo do cineasta - e seu mais recente filme,
Volver, é um caso típico. Muito provavelmente, temos aqui o pior filme do cineasta.
Logo na primeira cena de
Volver, vemos um grupo de mulheres em um cemitério, limpando os túmulos de seus entes queridos - homens, de modo geral, a exceção das duas protagonistas, as irmãs Raimunda (
Penélope Cruz) e Sole (
Lola Dueñas), que se dedicam a limpar o túmulo de seus pais, mortos simultaneamente em um incêndio. Casada e mãe de uma adolescente, Raimunda, particularmente, se vê em posião diferente da maioria das mulheres a seu redor, pois não consegue se imaginar, ainda, na condição de viúva.
Porém, é exatamente o que acontece - antes da primeira meia-hora de filme, o único personagem masculino de peso morre, deixando Raimunda em uma situação complicadíssima;

e, se a morte de um vivo complica a vida de Raimunda, o que dizer quando uma pseudo-morta é descoberta como viva? E se essa pseudo-morta for ninguém menos que a mãe de Raimunda?
A situação acima certamente remete a pérolas de humor negro, do tipo que, a princípio, um cineasta como Almodóvar sabe lidar com o mais absoluto domínio narrativo. É por isso que se torna ainda mais estarrecedora a má qualidade que se presencia no filme. E, infelizmente, são muitos os defeitos de
Volver: Protagonista,
Penélope Cruz não segura o filme e, apesar dos prêmios de melhor atriz que vem conquistando, apanha com facilidade da maravilhosa
Carmen Maura, no papel de sua mãe. A veterana atriz é o que há de melhor no filme, e seu extraordinário desempenho chega ao nível do brilhante.
Mas, infelizmente, o trabalho de Maura (e, ligeiramente abaixo, da maior parte do elenco de coadjuvantes), é uma exceção na película. Outros defeitos de
Volver, mais graves até que o mau desempenho da protagonista, incluem um - gratuito, torpe, desnecessário - apoio implícito às drogas, defendidas pela personagem Agustina (
Blanca Portillo, fraca - uma exceção entre as coadjuvantes); e também uma desnecessária cena escatológica no qual a personagem de Carmen Maura, escondida de Raimunda (que a julga morta) quase é descoberta pela filha devido ao odor dos gases que solta. Cenas como essas já são, via de regra, ruins em filmes despretensiosos. Mas chegam a ser constrangedoras quando utilizadas por um cineasta do nível de Almodóvar.
O pior é que ainda não acabou a enumeração dos defeitos de
Volver: Almodóvar sempre foi conhecido pelo carinho todo especial que dedica às mulheres e ao sexo feminino - atrizes e personagens. Só que
Volver parece ter sido criado com a finalidade subliminar de apresentar um mundo exclusivamente feminino, inteiramente sem homens. Até mesmo pela intensidade do vermelho, que para muitos simboliza metaforicamente a mulher (é a cor do sangue, e, por extensão, da menstruação), e que se encontra presente em todo o filme, de forma exageradamente excessiva. Na utopia de um mundo sem homens, Almodóvar parece ter se esquecido que um homem como ele próprio, com o seu dom para dirigir, não pode ser descartado: e
Volver nem é digno de ser chamado de um filme de Almodóvar.