As duas regras da fantasia no cinema

Por Douglas Donin — Segunda, 29 de dezembro de 2003

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Quando esta coluna entrar no ar, O Retorno do Rei já terá sido visto por muitos de vocês. Aos que viram, não tenho dúvidas de que, na sua enorme maioria, ainda estão de boca aberta como eu. Mas, em respeito aos que ainda não viram, procurarei nos próximos parágrafos não estragar muito a surpresa.

Como prometido na última semana, retomaremos o tema "espada e magia" no cinema – erroneamente chamado de "fantasia medieval" por alguns. Na verdade, utilizaremos dois exemplos famosos para definir o que fazer – e o que NÃO fazer – para produzir um bom filme de fantasia. O primeiro exemplo é Dungeons & Dragons – o filme, uma das piores decepções de todos os tempos, e o segundo... bem, qual outro senão O Retorno do Rei?

Dungeons & Dragons – o filme, ao contrário do que muita gente pensa, não é baseado no desenho animado de mesmo nome, que passava na Globo de manhã lá pelos anos 80. Na verdade, tanto o filme quanto o desenho foram baseados no popular jogo de RPG, criado nos anos 70, e que virou mania nos EUA. O lançamento do filme fez parte da estratégia de lançamento da nova edição do jogo, que viria a revitalizar a marca. No entanto, ao contrário da terceira edição do jogo Dungeons & Dragons, um sucesso absoluto, o filme foi espinafrado pela crítica, público em geral e fãs.

Ora, o universo de Dungeons & Dragons foi clara e inteiramente baseado na obra de Tolkien. Logo, essencialmente, O Senhor dos Anéis e Dungeons & Dragons – o filme tratam do mesmo assunto. Como podem ser tão diferentes assim? Seria a diferença no tamanho do orçamento?

Não mesmo. Há apenas duas grandes diferenças entre os dois filmes. Aliás, essas duas diferenças nada mais são do que os dois mandamentos fundamentais dos filmes de fantasia – os dois seguidos à risca por Peter Jackson e que tornaram O Senhor dos Anéis o sucesso que é, e totalmente negligenciados por Dungeons & Dragons. Vamos a essas sagradas obrigações.

Primeiro Mandamento – Respeitai a inteligência dos espectadores acima de todas as coisas. Até agora, a mentalidade dominante no mundo do cinema dizia que somente crianças e imbecis assistiriam a filmes de fantasia. Qualquer um com mais de 20 anos já teria passado dessa fase, e, ao invés de procurar filmes com duendes, anões e dragões, procuraria filmes de gângster com o Robert de Niro ou dramas com a Meryl Streep. Poucas fantasias até hoje trataram o espectador como adulto – como fizeram o violento Conan, O Bárbaro e O Senhor dos Anéis.

Tolkien pensou: "Bem, a minha história tem dragões, águias gigantes, fantasmas, elfos, anões, aranhas inteligentes... mas vou tratá-la como uma história séria e verossímil". E, ao ler O Senhor dos Anéis, é essa a sensação que temos: a de que tudo aquilo aconteceu mesmo, tamanho o empenho de Tolkien em fazer com que as coisas pareçam reais. Peter Jackson soube como ninguém reconhecer esta virtude de Tolkien e transportá-la para o cinema. O resultado é que você se importa com o que está ocorrendo na tela, por mais fantástica que seja a situação. Você chora com Sam, quase levanta da cadeira com a carga da cavalaria de Rohan e orgulha-se dos hobbits vitoriosos, como se fossem seus próprios irmãos ou amigos de infância sendo homenageados.

Nesse ponto, Dungeons & Dragons – e quase todos os outros filmes de fantasia - passou batido. Temos personagens estereotipados, rasos (alguns, de tão rasos, nem nome possuem, como o anão), sem motivação pessoal, interpretados de maneira exagerada (como o mago de Jeremy Irons, totalmente histérico, mau pelo prazer de ser mau), piadas a toda hora, situações inverossímeis e tudo o mais. O espectador tem a impressão de estar assistindo a uma peça infantil, tamanha a caricatura. Só faltou um mascote engraçadinho, do tipo Jar-Jar Binks.

Que fique a primeira lição: "fantasia" não é sinônimo de "tolice"! Ouviu bem, George Lucas?

Segundo Mandamento – Antes de qualquer coisa, preocupai-vos em contar uma história. Efeitos especiais são legais. Milhares de figurantes a cavalo são legais. Explosões são legais. Mas, convenhamos, se não existir uma história boa costurando tudo, os milhões de dólares do seu orçamento não vão salvar o seu filme do fracasso.

O Senhor dos Anéis possui uma história geral até bem simples, mas que engloba uma série de histórias secundárias fascinantes. Essas histórias servem como alegorias e metáforas e geram identificação instantânea com os espectadores. São pura mitologia. Metade das situações de O Senhor dos Anéis foi testada e aprovada por séculos de uso, dos mitos e epopéias gregas às tradições medievais. O Retorno do Rei já é um tema clássico, e, antes de Aragorn, existiram Ulisses e Arthur. Todos encontram lugar no nosso imaginário como uma espécie de saudade da infância, onde uma figura paterna poderosa e bondosa poderia nos conduzir em segurança por qualquer adversidade e perigo. Modernamente, representam um alívio ficcional, uma utopia, que nos alivia da decepção com nossas próprias lideranças. Em nosso íntimo, todos queremos um herói para nos salvar, seja ele um rei, um pai ou um messias. É um tema clássico.

O Um Anel, por outro lado, é essencialmente uma recriação da caixa de Pandora, do poder que corrompe, do desejo que controla a razão, e muitos o consideram uma alegoria moderna para o poder nuclear. Talvez por essa universalidade essas histórias sempre se manterão atuais. Nesse ponto, Tolkien e Jackson já começaram a corrida em vantagem: eles possuíam nas mãos pura mitologia.

Dungeons & Dragons simplesmente não possui história. Assisti no cinema na época do seu lançamento, e há bem pouco tempo em vídeo, e sinceramente, não lembro da história. Sei que tinha alguma coisa a ver com dragões, mas isso pouco importa. Assim como todos os espectadores deste filme – e talvez como o roteirista e o diretor, também –, já esqueci do que se trata, e todas as minhas memórias do filme são puramente visuais.

Essa é a segunda lição: se queremos um bom filme de fantasia – aliás, um bom filme de qualquer gênero – é bom que tenhamos uma história por trás de tudo. Uma história boa, de preferência, que signifique algo. Ao contrário do que se pensa, as pessoas gostam muito de boas histórias, e efeito especial não enche barriga. Ouviu bem, George Lucas?

Na próxima coluna: entre vergonhas e decepções, o pior de 2003.




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