Em férias ou em viagem de negócios?

Em 1985, o então desconhecido cineasta
Emir Kusturica lançou um adorável filme,
Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, sobre o que acontecia no cotidiano de uma família depois que o pai/marido era preso pela polícia política da então Iugoslávia - às crianças, sob cuja ótica o filme era narrado, era dito apenas que ele
saíra em viagem de negócios.
Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios acabaria ganhando a Palma de Ouro em Cannes, a primeira de Kusturica (ele ganharia outra em 1995, exatos dez anos depois, com
Underground - Mentiras de Guerra).
De certa forma, já pelo título, este segundo longa-metragem de
Cao Hamburger,
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias remete e muito o público ao filme de Kusturica. Mas não é apenas o nome do filme que caracteriza essa semelhança: como no
filme de 21 anos atrás, também aqui o protagonista é uma criança enganada (ou, eufemisticamente falando, iludida), com a melhor das intenções, sobre o paradeiro de seus pais - aqui, militantes de esquerda em pleno Brasil da ditadura militar que têm que subitamente
sumir do mapa. E a própria ambientação física de ambas as realizações é similar: em ambos os filmes o espaço ao redor dos protagonistas mirins é sereno, embora revestido de uma tristeza latente - como um vulcão adormecido prestes a explodir -,

que tão bem representa o mundo que há ao redor daquelas crianças e o mundinho no qual os adultos as inseriram: uma realidade politicamente terrível e uma fantasia de inocência e tranquilidade.
Acabam aí, contudo, as semelhanças. E surge uma diferença crucial: enquanto Kusturica criou um filme político aconchegante, repleto de um calor correspondente ao que os que estavam ao redor de suas crianças buscavam transmitir, em
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o cineasta
Cao Hamburger optou, ao narrar o novo cotidiano de seu protagonista Mauro, pela crônica de costumes - e, com isso, há a nítida sensação de que o filme perdeu o rumo inicialmente traçado.
Em
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o menino Mauro é levado por seus pais, ávidos para sair do país, para a casa do avô paterno - e deixado na porta da casa deste, sem que ninguém soubesse que o avô havia enfartado na véspera. Criado a contragosto pelo vizinho, cabe a Mauro passar aquele ano, 1970, em que seus país
saíram de férias, em uma nova realidade, descobrindo aos poucos a amizade de novas pessoas e descobrindo novos valores - a sexualidade, entre estes. Não é uma estória ruim mas o filme foi potencialmente planejado para ter tintas políticas muito mais fortes, e, vendo-se o resultado final, observar-se que essas questões acabaram sendo apenas insinuadas - com raras exceções, como o personagem de
Caio Blat, assumidamente militante de esquerda e amigo dos pais desaparecidos de Mauro.
Com isso, o filme acaba por desviar do curso que seu diretor aparentemente optara a princípio, e o clima triste e denso da realização soa dissonante: afinal, o que se vê na tela é uma crônica de costumes, com as questões políticas tendo sido literalmente
abandonadas. Pode-se afirmar que a política não interessa ao protagonista, pois este foi alijado desta; mas, nesse sentido, o recente
Eu Me Lembro foi muito mais feliz em sua tentativa - bem-sucedida - de se assumir como crônica sentimental e tornar-se um filme alegre em sua abordagem da descoberta da amizade, do sexo, da solidariedade, mas também da dor, da perda e da própria política, empreendida pelo protagonista.
Costuma-se dizer que, à medida que um escritor cria uma trama e desenvolve sua estória, frequentemente, as estórias contadas acabam por falar mais alto que aquilo que o escritor a princípio, pretendia abordar. Aparentemente,
Cao Hamburger planejava um filme, e acabou fazendo outro: no roteiro, foi planejado para ser um filme político, e acabou se tornando uma crônica de costumes. Dividido entre uma coisa e outra, o filme se perdeu.