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Antes looser do que mal acompanhado
Por Pedro Alencastro — Sexta, 27 de outubro de 2006
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E daí que você é um adolescente problemático que odeia todo mundo e não balbucia uma única palavra, comunicando-se através de um bloco de notas, pois fez voto de silêncio para alcançar um sonho impossível de ser realizado?
E daí que você é um veterano do Vietnã que foi expulso do asilo e pretende passar o resto de sues derradeiros dias enchendo a cara de heroína e olhando revistas de pornô hardcore?
E daí que você se julga o maior entendedor de Proust da face da Terra, levou um pé na bunda do namorado, que te deixou pelo segundo maior entendedor de Proust (que, aliás, lançou um livro sobre o assunto recentemente), e por isso, perdeu o emprego e tentou se matar?
E daí que você é um palestrante motivacional, idealizador de um programa para o sucesso em nove passos caça níquel que ninguém agüenta mais ouvir falar, abomina fracassados, mas acaba fracassando miseravelmente?
E daí que você decidiu pagar mico em um concurso de beleza para pirralhas que usam apliques estilo Elke Maravilha, fazem contorcionismo e o diabo a quatro?
Dane-se! O importante é ter alguém para pagar o mico junto com você. Afinal de contas, todos somos perdedores em potencial. Logo, não importa se você é um fracassado. O que importa é estar bem acompanhado, mesmo que seja por parentes amontoados contra a vontade em uma kombi pré-histórica, caindo aos pedaços e que só arranca na base do empurrão.
É justamente sobre isso que trata Pequena Miss Sunshine, em cartaz nos cinemas. Cartaz, diga-se de passagem, muito bem feito, o que evidencia o cuidado da produção desde os mínimos detalhes, até decisões mais importantes, como a escolha do elenco. Mas não esperem muita firula. Como todo filme independente que se preze, o longa em questão preza pela humildade. E o que é melhor. Embora concebido no seio do cinema alternativo, Pequena Miss Sunshine não repete o erro clássico destas produções, ou seja, a insistência em assuntos esdrúxulos, para meia dúzia de gatos pingados assistir.
Como vocês já devem estar carecas de saber, Pequena Miss Sunshine conta a odisséia de uma família que resolve viajar até a Califórnia para inscrever a filha caçula em um concurso. Como o chamado vem de última hora, todos embarcam na empreitada, incluindo os pais (Greg Kinnear e Toni Collette), os dois filhos (Paul Dano e Abigail Breslin), o tio suicida (Steve Carrel) e o vovô hipponga (Alan Arkin) – na minha modesta opinião, o melhor da fita.
Resumindo: trata-se de um roadmovie família, gênero que engloba algumas das saudosas comédias Sessão Tarde protagonizadas por Chevy Chase, só que menos pastelão. Obviamente, não é aconselhável para crianças. Já entre os adultos, fica mais fácil se identificar com a história para quem viveu (ou vive) os percalços do convívio familiar. Ou, então, para quem teve um pai maluco que resolveu fazer uma viagem de Porto Alegre até Salvador, espremendo a prole de quatro filhos no banco de trás de um voyagizinho parecido com este aí do lado.
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