O lançamento do recente Overman – o Álbum, o Mito, pela editora Devir, sinaliza claramente que, se a ração periódica de Laerte não seca tão cedo, ela também não germinará em mais do que doses homeopáticas. Afinal, já são dez anos sem histórias longas inéditas de Laerte. As raríssimas exceções, note-se bem, não foram para publicações impressas, porém, para o excelente site Cybercomix, que por curto período chegou a ter uma revista homônima nas bancas.
O álbum reúne as primeiras tiras de Overman, personagem surgido em meio ao turbilhão de idéias rápidas que deve ser a prancheta de Laerte no vencimento de um prazo, e que deu o maior samba. No livro A História da História em Quadrinhos, Álvaro de Moya comenta que os autores de tiras norte-americanos nunca deixaram a obrigação dos prazos e a periodicidade diária burocratizarem seu trabalho, reinventando enredos e formas narrativas no espaço exíguo dos quatro quadros. No Brasil, talvez quem melhor tenha entendido esse comentário seja o próprio Laerte, com longo período de publicação contínua sem se fixar num conjunto limitado de personagens. Esse é um dos segredos de Overman, um super-herói que também veste os mantos de morador de quarto de pensão, tarado de sexta à noite ou garoto propaganda.


Mais do que satirizar à perfeição, com o conhecimento de quem bebeu naquela fonte, as características e valores que constituem o mito de um super-herói - a origem turbulenta e o passado misterioso (quem quer saber deles?), o uniforme galante ornado por uma capa ridícula (não fale isso perto dele...), o fiel assistente (
Ésquilo, com quem divide o aluguel de um quarto de pensão no Ipiranga, ou
Pâmela, a Mulher-Cachorro; não é cadela, é cachorro, mesmo), a coleção de super-vilões risíveis (o
Maníaco Flatulento, o
Capitalista Imundo ou
Pane, a mulher cujo olhar causa distúrbios no funcionamento de qualquer máquina, páreos duros até mesmo para os enfrentados pelo
Homem-Borracha ou pelo
Capitão Marvel) - Laerte vai além, colocando na roda as idiossincrasias que alimentaram e corroeram o mito dos super-heróis nos últimos 60 anos.
Assim, há toda uma série de tiras dedicada ao que seria a primeira aparição do Overman, aos primitivos esboços de seu criador, mostrando sua “evolução em traço e estilo”, no fundo, uma grande molecagem com os clichês de colecionadores, críticos e leitores de quadrinhos. Inclusive os desta coluna.


O filé mignon está nas situações em que Laerte põe seu personagem para rebolar, fazendo coisas impensáveis para um super-herói, digamos assim, sério. Quando
John Byrne foi contratado para redefinir o
Super-Homem, em meados dos anos 80, ele deixou claro que, envolvimentos românticos à parte, não haveria a menor condição do homem de aço se envolver num relacionamento com
Lois Lane, porque aquilo seria impossível para uma pessoa comum.
Laerte rasga ao fazer Overman imune ao sexo, exceto nas sextas-feiras – e dá-lhe Overman encharcado de perfume à cata de um par, passando o rodo. Apesar dos super-poderes, Overman tem graves problemas de auto-estima e vai ao analista, onde se recusa a responder, porque ele já avisou que quer “deixar em paz os assuntos pessoais”. Overman vai ao alfaiate e considera a substituição de sua ridícula capa amarela por outro modelo, mas é Ésquilo quem faz o remendo nos fundilhos do uniforme.
É quando Laerte entra na onda e deixa rolar que os momentos mais engraçados pintam: Overman vai ao médico e acaba virando cobaia de remédios experimentais, que o transformam temporariamente numa barata (“as noites de sexta-feira são muito agitadas entre as baratas”). Overman se vicia em fliperama - a capa do álbum não utilizada, que faz as vezes de folha de rosto, é uma hilariante ilustração do herói em meio a uma série de máquinas destruídas -, mergulha em dívidas para pagar as fichas e, como última solução, tem que rodar bolsinha na pista. É de escangalhar de rir vê-lo na vida de casado com um milionário, dono de um salão de fliperama em cada uma das cinco mansões.
Sobre o traço, uma única nota: esse álbum desfez a má impressão que eu estava formando. Laerte não está “simplificando em função da velocidade” ou ficando “mais estilizado”; está sendo sintético ao nível do minimalismo, limando qualquer chance de redundância, sobretudo no número de quadros em cada tira, questão primordial onde o espaço é restrito. Nesse sentido, é o melhor candidato para ocupar a vaga do
Veríssimo em
As Cobras. E, se não temos mais histórias longas, nos empaturremos de Laerte minimalista.


