Final feliz, mas podia ser mais feliz...

Agora que o Rei já retornou oficialmente aos cinemas de todo o Brasil e os meus amigos voltaram a falar comigo, podemos sentar, pedir uns chopps, uma pizza e jogar agora algumas laudas de prosa fora, discutindo o final da saga que ocupou nossos Natais nos últimos três anos.
Para começo de conversa, vou dizendo de cara que não gostei do filme tanto assim. O que não significa que achei ruim, muito pelo contrário: o filme é ótimo! Emocionante, empolgante e estonteante...
Mas é de longe o mais mal-resolvido dos três.
A impressão que se têm é que o filme foi editado com muita pressa. Com certeza, se Peter Jackson tivesse uma semana a mais para a edição, tudo seria bem melhor. Se em algumas sequências a gente fica com a sensação de que estão faltando alguns takes importantes, que levem a ação de um ponto para o seguinte e que expliquem melhor determinadas passagens fundamentais da trama, em outras partes a coisa toda é meio flácida, sobrando umas gordurinhas que ficariam muito melhor no chão da sala de corte.

O filme tem um começo ruim, com a desnecessária sequência introdutória que explica a “origem” de Gollum, que metade da platéia já conhece e a outra metade não quer ver. Em compensação, por causa disso perdemos o embate final entre Gandalf e Saruman, que além de dar outra cena antológica entre os dois veteranos atores seria um grande contraponto ao duelo de magia visto no primeiro filme. É como se a gene tivesse chegado atrasado em Isengard, perdendo o melhor da festa.
Daí para frente, o filme engrena, a competência de Jackson, dos atores, dos efeitos especiais e principalmente da trama de Tolkien vai deixando a gente sem fôlego, na beiradinha da cadeira, com a tensão crescendo cada vez mais, em preparação para a gigantesca batalha diante das muralhas de Minas Tirith.
Novamente, em troca de cenas desnorteantes de CGI com as câmeras passeando entre as patas dos olifantes, em repetitivos mergulhos de gruas e correrias de steadycam, ficamos sem entender exatamente porque lorde Denethor agia como louco, porque Faramir era mais honrado, íntegro e valoroso que seu irmão Boromir e outros detalhes que, mesmo sendo detalhes, fariam a história fazer mais sentido.
Mas o maior pecado do filme é o final, ou melhor, os FINAIS.

Peter Jackson tinha um grande abacaxi para resolver, que era como transformar a narrativa anti-climática de Tolkien (onde o principal conflito se resolve no meio do livro) em um roteiro de cinemão para as massas, onde o conflito final e o happy-ending são ingredientes essenciais que garantem uma gorda receita nas bilheterias.
E até que ele faz isso muito bem, mas infelizmente depois se agarra demais à história e aos personagens, fazendo várias e repetitivas despedidas entre eles. Até o ponto em que a última delas chega a ser constrangedora, pois naquela altura da sessão, o público não compartilha a mesma emoção que os personagens demonstram na tela.
Quer dizer então o filme é uma droga? Claro que não.
O Retorno do Rei leva todos os acertos acumulados pelos antecessores a um ponto de máxima eficiência. A química entre o elenco nunca esteve tão forte, com cada ator dando o melhor de si em cada fala, mostrando que acima de tudo, Peter Jackson é um grande diretor de atores. E que atores! Até mesmo os papéis “pequenos” são interpretados com muita garra, em atuações intensas, cheias de verdade e emoção, trazendo literalmente lágrimas aos olhos em vários momentos.

A direção de arte, que materializa na tela tudo o que os maiores artistas e ilustradores da obra de Tolkien produziram em décadas, tem seus momentos de ápice nos cenários de Minas Tirith, absolutamente fascinantes.
E as mudanças que Jackson e os demais roteiristas imprimiram à história, em sua maior parte jogam a favor do filme, tornando mais ágil, compreensível e cinematográfica a trama densa e complexa criada por Tolkien.
Fazendo a contabilidade do filme e da trilogia, enquanto os créditos sobem e O Senhor dos Anéis entra para a História da sétima arte, o saldo é bastante positivo. O Retorno do Rei não é o melhor filme do ano, não merece o Oscar de melhor filme e não é nem de longe o melhor dos três (o primeiro ainda é imbatível). Mas é verdadeiramente IM-PER-DÍ-VEL. É um grande filme, um grande final para uma grande saga, dentro e fora das telas.
Mas eu ainda acho que podia ter sido muito, mas muito melhor.