Correto, mas distanciado do público

Asterix, o herói gaulês, e seu auxiliar e fiel amigo Obelix, são
personagens muito populares em sua França natal e na maior parte da Europa. Do lado de cá do Atlântico, contudo, os personagens criados por
René Goscinny e
Albert Uderzo jamais conseguiram repetir o mesmo sucesso obtido em seu continente de origem. E não é difícil entender o porquê: seus personagens, como boa parte das criações (mesmo as, teoricamente, mais populares) européias, são eruditos demais, e para compreender bem o universo de Asterix e seus amigos, é preciso um conhecimento bem razoável da cultura européia e da História da França.
Isso, aliado ao fato de que os personagens não são de todo agradáveis - trata-se de um grupo de guerreiros de traço rude, sempre envolvidos em guerras e conflitos, e muito sem modos em seu comportamento - criou um distanciamento mais do que compreensível para
o espectador a Oeste do Oceano Atlântico.
Asterix e os Vikings é mais um desenho animado feito com os personagens (depois de dois filmes em longa-metragem com
Gerard Depardieu,

cuja produção não tem relação direta com esse filme aqui), dessa vez envolvidos em um atrito político (tema tão destinado às crianças...) com um grupo de vikings. Na trama, um erro de interpretação do chefe viking faz este achar que os gauleses seriam medrosos, e que a posse do medo tornaria seus detentores imbatíveis. Pode parecer estranho, mas é isso mesmo: os vikings tencionam aprisionar alguém cheio de medo para, a partir daí, tornarem-se realmente imbatíveis, através do domínio desse sentimento.
Apesar do que possa parecer, contudo, até que o roteiro de
Asterix e os Vikings define bem as confusões do chefe viking e é feliz na elucidação desse
plot.
Asterix e os Vikings não chega a ser um filme confuso - é apenas arrastado, chatinho e repleto de personagens que nunca tiveram carisma. Curiosamente, é o malcriado Calhambix, novo personagem do grupo e criado diretamente para esse desenho, a mais interessante criação do filme: um rapazinho fanfarrão, oriundo da cidade grande, que se julga o espertalhão da turma mas só se mete em confusão.
Apesar de ser magrinho e ágil, Calhambix não tem o molejo dos rudes gauleses, e depende da força destes e da destreza da guerreira Abba (outra criação nova, porém insípida) para ser salvo das confusões em que se envolve. Bagunceiro e trabalhão, Calhambix tem um
humor que levanta o filme, impedindo
Asterix e os Vikings de tornar-se mais cansativo do que já é e fazendo com que ainda possa ser encontrada alguma vivacidade e alegria no desenho (teoricamente) animado.
Infelizmente, embora sua presença deva atrair os adolescentes, é provável que as crianças, a quem em tese o filme deveria procurar agradar, não consigam se envolver nem mesmo com um personagem como ele: por melhor que seja, Calhambix não deixa de ser
teen demais e infantil de menos. Como o próprio
Asterix e os Vikings, que, na verdade, não é nem mesmo
teen nesse lado do Atlântico: para quem não domina bem a História da Europa, o filme é apenas mais um espetáculo descartável. Não de todo ruim, mas muito sem graça.