Estréia Rio
Um filme para ser abandonado

Olga (
Margherita Buy) é uma mulher que vive feliz com o seu marido, em uma casa abastada e tendo a seu redor tudo o que o dinheiro pode comprar. Em sua vida, não existem preocupações maiores que não seja a de cuidar para que seus filhos não se atrasem na escola ou que a camisa do marido esteja bem passada.
Na verdade, talvez a única preocupção maior de Olga seja o estranho músico estrangeiro que é o seu novo vizinho (interpretado, por sinal, pelo compositor bósnio
Goran Bregovic, autor de várias trilhas sonoras de filmes europeus e, aqui, em excelente desempenho).
Apesar da presença desse
estranho músico, a vida de Olga continua seguindo a mesma rotina, até que um dia seu marido se cansa dela e decide ir embora. Uma atitude covarde, claro: abandonar a companheira de toda uma vida é algo que não merece defesa. E, com a atitude covarde do marido, quem sofre é Olga, cujo mundo começa a desmoronar: desamparada e sem saber como reagir perante a nova situação, a dona-de-casa encontra apoio apenas em seu vizinho, o músico estrangeiro e esquisito que se torna seu amigo e, em seguida, seu novo namorado.

A estória acima, sinopse de
Dias de Abandono, não é inédita, detalhe que em momento algum constitui um demérito; para mencionar outro filme italiano, pode-se lembrar o maravilhoso
Pão e Tulipas, de
Silvio Soldini, que também tem uma trama semelhante e um resultado final magnifico. O problema de
Dias de Abandono - e que, para mim, o impede de merecer ser definido como um bom filme - reside na forma como a estória foi contada:
Roberto Faenza, seu diretor, optou por uma narrativa crua demais, sem ternura, sem desenvolver características que tornassem seus personagens mais próximos de seus espectadores.
Um exemplo crucial a respeito disso pode ser observado logo no início do filme: Olga tem uma visão preconceituosa em relação a seu vizinho. Poderia-se criar, no músico, um personagem que estimulasse a solidariedade do público com aquele artista incompreendido; porém, a forma como o personagem foi construído - um homem desgrenhado, de aparência suja, ar sinistro - não apenas justifica parcialmente as preocupações daquela mãe de família como afugenta, logo nos momentos iniciais da película, toda a simpatia que o espectador poderia ter, mas não tem, pelo personagem, que deixa de ser um homem discriminado para se converter em, realmente, uma pessoa assustadora.
E, de quebra, as suspeitas de Olga em relação a ele afugentam, também, eventuais simpatias do espectador em relação a ela, pois também a personagem da dona-de-casa é enfocada muito mais como um dondoca cheia de preconceitos do que como uma mãe de adolescentes preocupada com seus filhos em formação.
Essa total falta de sintonia entre personagens e espectador já seria suficiente para comprometer
Dias de Abandono: como se não bastasse, porém, o filme sofre agravantes, como o desnecessário uso de cenas de sexo (mostrando muito os corpos e sugerindo pouco os sentimentos) e as tintas exageradamente carregadas em relação à situação vivida pela personagem (Olga, ao menos a princípio, não é nenhuma débil mental para se deixar abater com tanta facilidade por uma separação), que fazem com que o filme descambe fácil para o (mau) dramalhão. Com todos esses defeitos,
Dias de Abandono torna-se um filme artificial, vulgar e cansativo, e se converte, sem dificuldades, em forte candidato às listas de piores do ano.