Merecedor de pelo menos um prêmio. Sugestão? Framboesa de Ouro.

“Não acredite no hype”. Diria o filósofo
Alex Turner, vocalista do
Arctic Monkeys, uma banda acolhida pelo hype, que se tornou um dos maiores fenômenos musicais dos últimos anos. Nem sempre o hype erra tanto. Nem a Internet. É ela, através dos blogs, quem tem descoberto grandes nomes do novo rock. Os próprios Monkeys são testemunha. Ou os americanos do Clap Your Hands Say Yeah, que são conhecidos na rede e pouco conhecidos nas rádios. Hype do bem.
Serpentes a Bordo foi o hype cinematográfico do ano. Não para críticos, nem para aficionados por cinema. Foi o hype da Internet. Blogueiros geeks, descolados ou semi-psicóticos viram no mote do filme algo tão interessante que pegaram para si os diálogos (como em
"Ezequiel 25:17..." apenas com menos charme), criaram cartazes de divulgação, camisetas, chaveiros e todo o tipo de bugiganga vendável que se possa imaginar. Tudo com o aval da distribuidora que não teve que gastar tanto com marketing.
Obviamente (e só se tornou óbvio depois de assistir) o filme não foi lançado previamente para a imprensa. Por dois motivos: Em primeiro lugar, não foi um filme feito para agradar aos críticos. Em segundo, eles não correriam um risco desnecessário de ter sua “obra” arranhada por opiniões que, sejamos francos, vão de total encontro ao hype.

O título não resume apenas o tema central do filme. Ele é todo o filme. Claro que há um motivo para as cobras estarem no avião. Um motivo para
Samuel L. Jackson estar no avião. E até para o cachorro chihuahua estar no avião. Mas, como as explicações não garantem o momento trash, são apenas dadas as informações básicas para que haja algum mínimo sentido.
Informações que são estas: Um surfista (Nathan Phillips) leva sua vidinha tranqüila no Hawaii, ao som de Donovan Frankenreiter, até que presencia um assassinato, cometido por um chefão do crime organizado. Um agente do FBI (precisa dizer quem?) fica encarregado de levar o surfista até Los Angeles, onde deve testemunhar contra o mafioso. O mafioso tem poder suficiente para encher o avião de serpentes de todos os tipos.
Até que as cobras mostrem todo o lado trash do filme, há todo um lado cansativo. Vinte minutos, mais exatamente. Que parecem uma eternidade. Onde somos apresentados aos dois caras citados acima e aos passageiros da primeira classe. Uma patricinha e seu mini-cachorro levado na bagagem de mão. Um bebê e sua mãe. Um homem que odeia cachorros e crianças. Duas crianças. Um homem que tem medo de voar. Um rapper e seus dois seguranças. Um casalzinho cheio de amor. E comissárias de bordo. Em resumo, você torce para que as cobras acabem com todos, menos com as crianças, porque você não é assim tão mal-, só para ver o filme terminar mais cedo.
Mas então vem o lado trash. O casalzinho cheio de amor resolve ir ao banheiro para digamos, você sabe. Algo pode ser mais previsível? Infelizmente sim. Um outro homem vai a um outro banheiro e, veja só que idéia brilhante, uma serpente está na privada, prestes a dar o bote.
Claro que até aqui é apenas a prévia. Cobras vão cair com as máscaras de oxigênio. Vão excitar velhas embriagadas (acredite!). Vão comer seres pequenos e tentar engolir seres absurdamente grandes (um gordo). Sem mencionar aquelas que vão saltar nos olhos, seios, braços, pescoços e traseiros alheios.
E, claro, como os roteiristas são super criativos, puxa vida, um dos pilotos é morto. “Alguém aqui sabe pilotar um avião?” Pergunta Jackson. Como criatividade pouca é bobagem, um dos seguranças do rapper sabe pilotar um avião. Em Playstations e Game Boys. (Sentiu o flerte com a platéia nerd?)
Felizmente nem o diretor (
David R. Ellis) nem os roteiristas (
John Heffernan e
Sebastian Gutierrez) e muito menos a platéia leva o filme a sério. Não teria como. Ao invés de caras assustadas, o que você vê e ouve no cinema são risadinhas, gargalhadas, piadinhas. Talvez eu não tenha sacado a proposta. Talvez seja uma comédia disfarçada de filme trash. Mas é que foi tão absolutamente bem disfarçado...
Mas, para quem ainda acha que vale gastar alguns reais com a película, uma dica: Diga que não foi ao cinema para ver
Serpentes a Bordo. Diga que foi apenas para ver Samuel L Jackson (por favor, sem filmes dublados) dizendo:
"I'm sick of all these motherfucking snakes on this motherfucking plane!" Não é nenhuma frase de efeito, como
"Ezequiel 25:17..." mas, pelo menos, você vai se sentir mais cult e menos frustrado.
Uma última observação. Quando uma trilha sonora é lançada pressupõe-se que você encontrará tais canções no tal filme. Elementar, mas não neste caso. Das dezesseis faixas da trilha sonora, apenas uma faz parte do filme. Acredite se quiser. Então, se você é um fã de
Fall Out Boy ou de outra das bandas que fazem parte do CD, não crie expectativas. Elas não estão no filme.