Não vá ao cinema

Por Márcia Lima — Quinta, 7 de setembro de 2006

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E muita gente pensava que Porto Alegre era Liverpool. Eu sempre quis que fosse Sheffield, ou London. Mas, todos pensavam que era Liverpool. Daí na semana passada rolou o festival GIG Rock, dois dias de festa. Vinte e tantas bandas entre muito bacanas e boazinhas. Ora, Eu, Tu e Todos os que Conhecemos (filme bem bacana, você sabe) sabem que Porto Alegre é uma cidade fria. Que no inverno a coisa complica e o que era apenas frio se torna absolutamente frio. É por isso que a cultura mod sempre foi forte por aqui. Por isso que meninos e meninas podem usar terno durante o verão. Então, por favor, não posso acreditar que as pessoas deixem de ir a um grande festival porque está frio.

Já imaginou se a moda pega? Não teríamos Mando Diao (Suécia), nem Sigur Rós (Finlândia), nem bandas inglesas e de qualquer outro lugar frio que você possa imaginar. Ora, ora somos ingleses na hora de vestir terninhos, mas não temos coragem de sair em uma noite fria? Lamentável.

De qualquer forma foi uma bela iniciativa de uma galera que há muito dá força ao rock desta cidadezinha que, apesar de tudo, tem seus encantos. Apenas não merece um festival de rock. Começo a entender porque o TIM Festival não rolou em Porto.

Mas deixa eu contar que, assim que cheguei ao evento, não pude deixar de perceber a discotecagem: Para meu completo delírio (sem exagero, claro) rolou assim, uma após a outra: Sheena Is a Parasite - Horrors, seguido de Comercial Breakdown - Sunshine Undergroud e Henrietta - Fratellis (não tenho certeza quanto à última, mas rolou Fratellis).

No telão, DVD do Dylan. No palco um bate-papo com o Miranda (aquele produtor que depois de tanta coisa acabou se tornando conhecido pelo programa Ídolos), o Marcelo Ferla e mais duas pessoas que agora não lembro dos nomes (deus! Minha memória e péssima e eu perdi minhas anotações!)

Não vou falar das bandas que achei sofríveis. Mas posso falar dos momentos batutas que rolaram durante alguns shows. Um DVD do Radiohead, que não combinava com a banda. Um fotógrafo meio Andrew Kendall que bebia, se divertia horrores, parava só para tirar as fotos e voltava a se divertir. Foi assim das 8 horas às 4 da manhã. É bom ver alguém empolgado, você não acha?

Um garoto IGUAL ao Pete Doherty (versão careca), que dançava como Pete Doherty, fumava como Pete Doherty, mas que deveria ter uns 13 anos e me pergunto se ele sabe que se parece com Pete. Acredito que sim, porque a forma (inglesa) de se vestir não poderia ser por coincidência.

Coisa que me deixou triste pacas: El Otro Yo, é uma banda que eu gosto de pensar como os Subways da América Latina. Um trio argentino, uma loira no baixo, um pouco de grunge, um pouco de indie rock. Eles foram o motivo que me levou até lá. Porque, caso você não saiba, eu sou tão anti-festas que não comemoro nem o aniversário de alguém querido se for longe da minha casa. (Nerd, eu sei....)

Mas então, quando cheguei lá vi o novo flyer e nada de El Otro Yo. A produção falou que o show foi cancelado em cima da hora devido a um problema de saúde de um dos integrantes. Entretanto, uma fonte contou a esta coluna que enviou um e-mail ao manager e este respondeu que o show nem teria sido agendado com o grupo. Polêmico, para dizer o mínimo.

De qualquer forma, este festival serviu para comprovar o que eu já sabia: Viana Moog é uma das melhores bandas do país. O show teve alguns problemas técnicos, não dava para ouvir muito bem os vocais, mas mesmo assim foi apoteótico naquele jeito Antonin-Artaud-de-ser.

Cartolas é outra das que salvaram noite. Se você não sabe, eles são os vencedores do Claro Que é Rock. De uma forma polêmica uma vez que um dos integrantes é filho do integrante de uma grande banda gaúcha que por sua vez era amigo dos jurados. Eu não gosto de Placebo, não fui no festival e não sei quem é o cara filho do outro cara. Nem sei porque contei isto.

Eu sou da geração do Jarvis, do Gilespie e dos Gallaghers, logo, gosto de vocalistas com o ego maior do que a média nacional. Não que eu esteja comparando o vocalista dos Cartolas com os três anteriores, nada disso. Mas, ele bem que deve ter se inspirado em alguns destes. E o som é aquele velho roquinho gaúcho com letras engraçadinhas. Não tem novidade, mas é bem bom.

O troféu: “Deus! O que é isto?” fica com o Zefirina Bomba, trio vindo da Paraíba e, ao que parece, tomado pelo capeta. Já entrevistei o Ilsom, vocalista, e sabia da queda que ele tem pelas distorções e pelo teen spirit. Canções rápidas, enérgicas, um cover de Aneurism, do Nirvana, um cara endiabrado escalando as estruturas do show, quebrando caixas e violas elétricas. Se estes caras passarem por sua cidade, não perca. É insano, boys.

Infelizmente não pude ver o show dos meus queridinhos dos Superguidis e da Poliéster. Mas já soube que foi algo.

No fim, fica aí o registro: Porto Alegre não merece um festival de rock. Pelo menos, não por enquanto.

*

Quem merece? Recife provou que merece. A grama do vizinho sempre é mais verde? E o show do vizinho, sempre é mais indie? Pode até ser, mas eles juntaram Cocorosie (preferida de todos os tempos no meu top10 feminino), Tony da Gatorra, Júpiter Maçã e Tortoise. Absolutamente mais verde e mais indie.

*

Piadinha do NME da semana passada:
Como você corta um sanduíche emo?
Você não precisa. Ele se corta sozinho.



*

Hoje tem estréia de Serpentes a Bordo, e como em outros países, não teve exibição para a imprensa. Sem problemas. Estou indo lá assistir. Não pelo Samuel-ídolo-Jackson, nem pelo avião, nem pelas serpentes. Apenas para sentar e ouvir Panic! At The Disco.
E outras bandas dos selos-um-tanto-emos Fuelled By Ramen/Decaydance: The Academy Is, All-American Rejects e Gym Class Heroes. Já adquiri o disquinho e fiquei bem pouco feliz com o resultado, pois são remixes duvidosos. De qualquer forma, não é todo dia que Brendon Urie & Cia. estão ali, no cinema mais perto de você.

**
[Update]
Não vá ao cinema. Não tem trilha de P!ATD alguma. É trash ao quadrado. Não vale um centavo. Assim que eu me recuperar do sentimento: "como pude gastar dinheiro com isso?" vou escrever a crítica, então, se você ainda pensa em ir, não vá antes de ler ok?

Mas saiba que este É o pior filme do ano.






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