De clique em clique

Por Pedro Alencastro — Terça, 5 de setembro de 2006

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Volte sempre!

Alguém aí já teve problemas com controle remoto de TV a cabo? Não sei vocês, mas o meu controle tem um prazo de validade curto. Não demora muito, ele começa a dar tilts. O primeiro sintoma é a troca de comandos. Você clica 6, ele entende 9. Você clica 9, ele entende MUTE. Você clica MUTE, ele desliga a TV. Você clica ON e sua cabeça explode, espalhando miolos pela sala...
Tá, essa última eu inventei. Mas é mais ou menos por aí.

Depois da fase em que troca alhos por bugalhos, algumas teclas simplesmente não funcionam. Aqui em casa, começou com o 4 e o 5. Depois, foi a vez do 6 e do 3. O jeito era colocar no 71 e ir baixando canal por canal.
Tudo bem. Eu sei que a operadora substitui os controles antigos por novos sem custos adicionais. Para isso, entretanto, é necessário levá-lo até a sede da TV, que aqui em Porto Alegre, fica quase no fim da Silvério, subindo uma lomba extremamente íngreme. Já fui lá umas quantas vezes. Na última, porém, resolvi adiar. Fui adiando, adiando, adiando, até me acostumar com o controle problemático.

No início, confesso, foi um tortura. Se eu estava assistindo a HBO e queria ver como andavam os jogos do Brasileirão, tinha que clicar várias vezes no maldito botãozinho Down Chan, para ir do 71 ao 39. Mantendo ele pressionado, o display acelerava e invariavelmente passava pelo canal desejado. Parava, por exemplo, no 37, e aí eu tinha que voltar tudo de novo, pois o Up Chan não funcionava. Era um martírio...

Contudo, já dizia o ditado, há males que vem para o bem. No fim das contas, essa limitação acabou me tornando um telespectador mais complacente, amável e tolerante. Afinal, aquele negócio de ficar zapeando toda hora era cansativo. Se eu parava acidentalmente em algum canal, muitas vezes, resolvia esperar para “descansar” os dedos (sim, preguiça é meu nome do meio). Nisso, acabava assistindo programas que sempre desprezei, ainda que por alguns segundos.


Era como se o Enéias, do Prona (agora sem barba e idêntico ao Smeagol), tivesse mais tempo no horário eleitoral gratuito. Ele ganharia a eleição? Espero que não. Mas com os Discoverys e Home & Healths da vida funcionou. Ambos conquistaram pelo menos 30 minutos da minha audiência. E não me arrependo. Graças a isso, adquiri os mais diversos conhecimentos, desde os louvadeus até os corpos celestes mais distantes, sem falar nas lições para criar os filhos que nunca tive (valeu Super Nanny!).

Um belo dia, porém, resolvi trocar o controle defeituoso. Depois disso, nem preciso dizer que as coisas voltaram ao normal. Agora fico em frente à TV como um imperador romano decretando ordens com o polegar, ainda que a programação continue a mesma porcaria de sempre.

Alguém deve estar pensando “Tá, e eu com isso, mané?”. Pois explico. Esses tempos fui ver Click. Bom filme. Recomendável inclusive para os que abominam o comediante Adam Sandler, categoria na qual não me incluo. A sinopse é a seguinte: Sandler interpreta Michael Newman, arquiteto que leva uma vida mais ou menos, até que resolve comprar um controle remoto universal – daqueles que regulam a televisão, o rádio, o videocassete e por aí vai. O tal controle, porém, vai além disso.

Com ele, Newman pode controlar a vida como se fosse um DVD interativo. É possível avançar no tempo, parar, voltar, regular o som, imagem, enfim... São inúmeras opções.
Quem assistiu o trailer pode imaginar mais um exemplar de palhaçadas protagonizadas por Adam Sandler. E de fato é, mas não para por aí. Click faz o legítimo gênero “comédia com pitadas de drama reflexivo”.

Moral da história: Newman podia controlar tudo e todos ao seu redor, mas isso não o transformou num sujeito plenamente realizado. Piegas? Pode parecer. Mas uma pensadinha sobre o assunto não faria mal. Afinal, nem tudo nessa vida pode ser resolvido com um mero clique.

Vejam o exemplo do Oriente Médio. Lá, os conflitos são “solucionados” por autoridades como se fosse um tabuleiro de War. Se alguém não vai com a cara do vizinho, basta mexer alguns botões e missão cumprida. Preservam-se vidas inocentes, eliminado apenas alvos militares.

São os tais mísseis inteligentes. O único trabalho do milico é escolher um alvo: Traficantes Colombianos, Jovens Arruaceiros, Vendedores de Enciclopédia, Pagodeiros, Fumantes, Hare Krishnas, Circuncisados, Barbudinhos Fanáticos... Você decide. A margem de erro das belezinhas, dizem, é mínima. Difícil é explicar isso para um pai que perdeu a casa e os filhos no meio da explosão. Dizer o quê? “Foi sem querer querendo”?

Outra coisa que me deixa intrigado: desde quando um míssil pode ser inteligente?! Além de matar e destruir, ele também resolve equações? Fez teste de Q.I ou algo do tipo? Como já escreveu um amigo, inteligente seria o míssil bater de porta em porta, planilha em mãos, perguntando: “Olá, antes de mandar o lugar pelos ares, gostaria de saber quantos civis vivem aí, militares, etc...?”.

Mas, enfim, que diferença faz? Outros mísseis ainda mais “inteligentes” virão, juntamente com um arsenal de tecnologias bélicas ultra-modernas. As guerras é que continuarão as mesmas.



E assim caminha a humanidade. De clique em clique.




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