Entrevista: Renato Lima, da Jukebox

Por Marcelo Tavela — Terça, 29 de agosto de 2006

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Napoleão tinha somente 1,68m de altura, mas conseguiu dominar toda a Europa continental. Ou seja, não subestime os baixinhos. Com seu formato 10x15 cm, a Mosh! conquistou público e crítica, e cavou bem o espaço para a sua sucessora no trono, a Jukebox. Renato Lima, editor da Jukebox e um dos editores da Mosh!, fala sobre passado, presente e futuro da pequena grande revista. Atenção, quadrinistas: ele diz como ser publicado. Atenção, bandas: ele fala como aparecer na revista e tocar em seus lançamentos.

- Começando pelo passado: foram 12 edições da Mosh!. O que você mais aprendeu? O que deu para tirar da experiência?

Acho que a lição maior é a que é possível sobreviver de maneira independente, chegar à soluções alternativas de distribuição e lançamento que respeitem a estrutura de uma revista desse tipo (funções que eu desempenhava na revista, o design e parte gráfica eram com o Lobo e ambos discutíamos sobre os quadrinhos. Eu ainda cuidava das bandas nos eventos e nas entrevistas). Os prêmios HQ MIX recebidos, e totalmente inesperados, me deram a felicidade de ter acertado e de saber que a revista fez barulho apesar do tamanho de bolso. E que afinidade é a chave para um empreendimento dar certo. A Mosh! era semelhante a uma banda de rock, com integrantes talentosos mas com vivências diferentes. Como nem todos tinham o gosto pelo rock e concordância para onde a revista (banda) deveria seguir, era natural que um dia o relacionamento se desgastasse e acabasse, mudando a formação da revista e fazendo surgir a Jukebox. O rock não pode parar e para mim foi impensável jogar fora todo o movimento que foi criado por aqui a partir da Mosh!.


- Agora, revista nova: a Jukebox é mais "pensada" como uma revista de bolso? Quais são as principais inovações?

A Mosh! acabou de vez com o preconceito em torno de uma revista de bolso (já havia a coleção Tipos e os gibis da Mini Tonto antes), mas não explorava o potencial do tamanho peculiar da revista. O principal atrativo e motivo de elogios até agora é com relação ao design e tipologia da Jukebox, com páginas duplas, verticalizadas, letras à mão, conteúdo colorido (usando o preto e branco como opção e não como limitação). Além da facilidade de transporte, uma revista de bolso pode ser girada para todos os lados sem que o leitor se sinta desconfortável com o tamanho (não é como ler um jornal no metrô). Igor Machado e Dado Oliveira foram os responsáveis por essa mudança arrojada e todos nós lemos muita coisa da Fantagraphics como referência, para dar essa cara de almanaque, com um quê de retrô.


- Uma novidade foram os desenhistas gringos. Como eles entraram na revista? Como se deu o contato?

A Jukebox veio com essa proposta de trazer mais gente para a revista, misturar mesmo: matérias, música, quadrinhos, brasileiros, estrangeiros, marcianos. Um dos caras que eu sempre quis na MOSH! foi o Ramon (mais conhecido como Zé Colméia), que possui boas HQs além de ser antenado com o que acontece na música e quadrinho independentes, mantendo contato com gente do mundo todo. O Aleksandar Zograf e o Billy Burg apareceram na Jukebox através dele. O Zograf ficou tão empolgado por estar sendo publicado por aqui que nos enviou um desenho especial, de agradecimento, que nos foi entregue na Gibiteca Henfil (no segundo Enquadrando, dia 19 de agosto). E temos mais surpresas bacanas para os próximos números.


- Algo muito bacana da Mosh! é que quase sempre tinha um estreante nas edições. Isso continua com a Jukebox?

A Mosh! surgiu com a função de lançar uma galera nova no mercado, que havia feito parte da primeira turma do curso de extensão de quadrinhos que eu criei e coordenava. E acredito que a missão foi cumprida, todos eles estão trabalhando com desenho hoje. A Jukebox quer lançar mais gente, claro! Já nesse primeiro números temos a Paula Jardim, Leon Vilhena, Zé Colméia e Pedro Eboli estreiando e, graças à Deus, não tem faltado material novo de qualidade. Logicamente, as estrelas da Mosh! continuarão a colaborar, como Erik "Rocker" Judson, Leo Finocchi, Sandro Menezes, Allan Rabelo, Vinicius Mitchell entre outros. Por ser menos quadrinhos que a Mosh!, a tendência é que a qualidade deles seja maior.


- Como o pessoal faz para ter suas histórias na Jukebox? Qual a dica?

A Jukebox tem uma linha editorial mais aberta que a Mosh!. As HQs podem até ser sobre música mas, principalmente, sobre o cotidiano de hoje, tendo o rock mais como estilo de vida do que somente estilo musical. A HQ do Billy Burg é um bom exemplo dessa linha que agora buscamos. E daí é só entrar em contato através do e-mail: revistajukebox@gmail.com enviando o material em baixa resolução, somente para darmos uma primeira olhada (100 dpi, JPEG), podendo ser até rascunho, sem problemas.


- E, claro, tem o bem sucedido combo do lançamentos das revistas com show e festas. Como as bandas podem entrar em contato?

O combo é a chave dessa nova empreitada! Ir onde o público está, entregar a revista para ele na porta de um evento bacana! Com a Jukebox, estamos não só no Centro do Rio mas tambem na Zona Oeste e Zona Sul e partindo para outras cidades, como Floripa e São Paulo (o que não havia conseguido com a Mosh!). O ideal é que as bandas entrem em contato através do e-mail da revista para eu passar as coordenadas dos eventos e o endereço para envio de material. Não só elas podem tocar num dos eventos mensais da gente como podem também aparecer nas páginas da revista, que agora possui mais espaço para as matérias.


- Uma coisa bem legal que rolava com a Mosh! e continua com a Jukebox é que, pela temática, acaba atraindo um pessoal que usualmente não lê quadrinhos. Com moda incorporada ao pacote, você acha que isso amplia?

Exatamente! A principal discussão nossa agora é sobre a cena independente, mostrar gente que faz na Jukebox! E isso inclui não só quadrinhos e bandas como também grifes, selos musicais, produtoras de vídeo e de moda. A idéia é fazer com que cada vez mais pessoas se interessem pela linguagem dos quadrinhos, vejam que eles vão além das referências que a maioria das pessoas possui: de que tudo se resume à Mônica, Batman e Dragon Ball. O público é inteligente e antenado e, como foi com a Mosh!, acredito que irá passar a ler quadrinhos, procurar conhecer mais coisas depois de ler a Jukebox. Para auxiliar isso, continuamos com a nossa banca de quadrinhos nos eventos, levando outras opções para o pessoal, como a Tarja Preta (RJ), Letal Mágico (RS), Quase (ES), Voodoo (GO), etc. Eu penso que o grande problema dos quadrinhos hoje é a renovação de público, não pela qualidade dos quadrinhos em si, mas pela falta de conhecimento mesmo. E essa foi a solução encontrada até agora (se Maomé não vai à montanha...).


- A Jukebox não tem site, mas tem um fotolog. Uma boa forma de atrair tanto quadrinistas e bandas?

O site da JX ainda está em construção porque não foi fácil cumprir sozinho a agenda final e os custos da Mosh! e ao mesmo tempo partir para uma nova empreitada... Mas o fotolog sempre se mostrou uma ferramenta excelente de divulgação e de troca de idéias (críticas e sugestões) com o público e as bandas, assim como a comunidade no Orkut. Quanto mais interatividade, melhor! Em breve, estréia o site.


- Pra acabar: deixa uma dica de alguma HQ que você tenha lido. E, dado o contexto, algo que você tenha ouvido também.

Eu leio de tudo um pouco, cara! Há pouco tempo comprei em sebos algumas Kriptas (RGE), quadrinhos de super-heróis da EBAL, Ken Parker (Vecchi) e também um lote de Heavy Metal dos anos 1980 (Liberatore, Moebius, Manara, Crepax, etc), só coisa fina. Nas bancas tenho achado tudo muito caro para os meus padrões, mas tento colecionar Lobo Solitário, Marvel Max, Supremos, Wizard, Conan... De alternativos, gosto muito e recomendo: Bagatelas! (RJ), Zine Royale (SP), MININAS (MG) e os últimos lançamentos do Moon e do Bá.

Escuto de tudo um pouco também. Por conta da revista, tenho ouvido muita coisa nova daqui: Moptop, Manacá, Rockted, El Efecto, Alice, Seychelles, Rockz, Phone Trio, Opallas, Marte, Columbia, Estação 22, Monno, Retrôvisores, General Billy etc etc. Acho que nunca teve tanta banda boa e com qualidade (e amizade) na cena independente.

E me amarro em vinis! As últimas aquisições incluem Faith No More (Angel Dust), Pink Floyd (The Piper at the Gate of Dawn), Monkees e os nacionais Lafayette, Roberto Carlos, Pin Ups e Feichecleres! Pode acreditar que eu gosto muito de todos!


- Pra acabar 2: quando sai a próxima Jukebox?
Finalzinho de outubro (dia 29) tem lançamento da Jukebox 2, no Teatro Odisséia (RJ). Vamo que vamo e obrigado pela oportunidade de falar sobre a revista! Valeu mesmo!





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