Diversão em alto-estilo

Embora seja uma obra nitidamente de pretensões modestas, a peça de
Marcos Caruso Trair e Coçar É Só Começar conquistou o público e, principalmente através do boca a boca, está há vinte anos em cartaz. Embora esse sucesso tenha sido surpreendente para alguns, não é difícil identificar o porquê disso: o mesmo é oriundo da simplicidade da obra, da humildade do espetáculo em falar diretamente com o público que paga para assisti-lo, de seu despojamento em buscar - e realizar - o objetivo-mor de entreter.
Pois são essas características que o diretor
Moacyr Goés teve a sabedoria de trazer para o Cinema e realizar, talvez, o seu melhor trabalho para a tela grande. Além de oferecer um encantador bônus para o público dos filmes: o excepcional desempenho de
Adriana Esteves, impagável como a empregada Olímpia, papel imortalizado nos palcos por
Denise Fraga: uma doméstica tão adorável quanto atrapalhada, e cujas trapalhadas, sem o saber, tumultua a vida de todos a seu redor - principalmente a de seus patrões, Inês e Eduardo - vividos com toda a entrega possível por
Bianca Byington e
Cássio Gabus Mendes.

Byington e Gabus Mendes são ótimos atores, mas não superam a excepcional criação da protagonista, que rejeita um estilo teatral de filmar e cria uma Olímpia cinematográfica em toda a sua essência: há momentos em que Esteves parece estar contracenando com a câmera, aproveitando as luzes mágicas desta para transmitir, diretamente e sem intermediários, todo o prazer interpretativo que a personagem oferece. É um trabalho realizado no mais absoluto estado de graça, e a princípio poderia parecer exagero dedicar-se mais a exaltá-lo do que ao filme em si - isso se, no fundo, não fosse a verve cênica da protagonista que, mais que tudo, amarrasse bem as situações apresentadas e permitisse que a versão para o cinema de
Trair e Coçar É Só Começar tão bem cumprisse sua função de divertir.
É evidente, porém, que não pode ser negado que, para que o filme fosse tão bem-sucedido, muito contribui a direção de Moacyr Góes, que soube dosar bem as origem teatrais do filme com a sua condição de espetáculo realizado para o cinema:
Trair e Coçar É Só Começar não expande sua ação para cenários mil, externas desnecessárias e facilidades afins que só o cinema oferece; isso não quer dizer, contudo, que a ação do filme esteja aprisionada a limites físicos similares a do teatro - uma arte difere da outra e cinema e teatro têm linguagens diferentes. Moacyr Góes sabe disso e demonstra admirável capacidade para dosar bem a realidade cinematográfica dessa versão e as origens teatrais que fizeram do texto de Marcos Caruso o sucesso que é. Com isso, e com Adriana Esteves como uma fundamental aliada, fez de
Trair e Coçar É Só Começar um dos filmes mais divertidos da temporada.