Nós Vimos: Silent Hill

Por Douglas Donin — Terça, 22 de agosto de 2006

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A bola bateu na trave desta vez.

Depois de um longo e injustificado atraso em relação aos cinemas dos Estados Unidos, acompanhar as críticas dos americanos (as quais, quase unanimemente, destruíram o filme) fez o ato de comparecer ao cinema conferir esta adaptação da famosa série de videogames parecer, cada vez mais, como ir ao dentista extrair um molar. Quase uma obrigação moral, ainda mais para quem conhece e admira a apavorante série de jogos da Konami, mas pelo falatório todo, estávamos bem avisados que ia doer.

De certa forma, doeu. Doeu, mas de um jeito diferente. O filme não é de todo ruim (e muito menos, de todo bom). O que doeu de verdade, aqui, não foi ver os defeitos do filme, mas... ver suas qualidades. Não é preciso conhecer a obra original para perceber que foi jogada fora uma excelente oportunidade de fazer um dos melhores filmes de horror de todos os tempo. Pelos acertos, podemos ver que era perfeitamente possível fazer isso. Pelos defeitos, podemos ver como o fracasso da empreitada foi enorme e cruel. O filme é, genuinamente, irregular.

Mas, na média, a experiência é boa? É ruim? Vamos nos evadir de responder objetivamente esta pergunta: depende. Depende muito. É com certeza a melhor adaptação de videogames de todos os tempos (o que não quer dizer muita coisa, analisando as opções), possui alguns momentos verdadeiramente geniais, a trilha sonora é excelente, os visuais são bacanas, possui pelo menos as duas cenas mais apavorantes que já apareceram no cinema em muito tempo... mas é um filme terrivelmente vitimado por um roteiro, na melhor das hipóteses, idiota (escrito por Roger Avary, de quem se esperaria algo bem melhor) e uma inconstância apavorante na qualidade da direção (de Christophe Gans, de quem... se esperaria algo bem melhor). Vale o ingresso? Também depende. Se, para você, dez minutos geniais pagam os cinquenta minutos medíocres seguintes, então vale. Já se isso te incomoda...

A história trata de uma mãe, Rosa (Radha Mitchell), que, preocupada com o estado mental precário da filha adotada, leva a menina a uma viagem a Silent Hill, uma cidade abandonada às margens do Rio Toluca. Lá, após um acidente de carro onde a menina desaparece, a moça se une à policial Cybill Benett (Laurie Holden, de Arquixo X) para sobreviver e procurar a filha, o que frequentemente a conduz a uma versão escura e infernal da cidade, povoada de monstros deformados e por um sádico executor sobrenatural.

Vamos começar pela parte boa. O filme visualmente é idêntico aos jogos. Não que a fidelidade, em si, seja sempre uma a qualidade a se louvar - existem coisas que funcionam em jogos, e coisas que funcionam em filmes - mas em trabalho de gênio, como do diretor Keiichiro Toyama, não se mexe. O jogo é exatamente famoso por sua atmosfera e ambientes perturbadores, e isso não se perdeu na transposição. A trilha sonora segue o mesmo rumo: várias músicas são do próprio game, criações um dos mais cultuados compositores do ramo, Akira Yamaoka. Além de satisfazer os fãs, aqui o compromisso com a fidelidade não limita o trabalho técnico, que cria uma atmosfera fantasmagórica, desesperadora e deprimente.

A primeira vez em que Rosa entra no "outerworld", a dimensão infernal que é uma sombra distorcida e cruel da cidade, é de arrepiar qualquer marmanjo. Apesar de ser rechada de efeitos especiais bem óbvios, tudo é conduzido de maneira tão intensa que é impossível não se assustar até a espinha. Da mesma maneira, há uma cena profundamente perturbadora envolvendo a imolação de uma criança por um bando de fanáticos religiosos que, pelo nível de crueldade e demência, tão cedo não vai deixar a mente do espectador. Acreditem, alguns trechos de Silent Hill fazem A Paixão de Cristo parecer o programa de Barney, o dinossauro rosa. Se o filme mantivesse o mesmo nível de intensidade durante toda a projeção, a censura de 18 anos seria pouca, e teríamos que deixar ambulâncias de prontidão do lado de fora dos cinemas.

Mas estamos falando de momentos que, infelizmente, são exceção. O filme é na maior parte do tempo, simplesmente chato: as cenas no "mundo real", com o marido da protagonista (Sean Bean) demoram demais e deixam a peteca cair. Em outros momentos, é ridículo (impossível não lembrar de certo clipe de Michael Jackson envolvendo zumbis em uma cena com enfermeiras deformadas perto do final). A parte que se desenrola na Silent Hill "intermediária" (a envolta em neblina) é revoltantemente estúpida. Lembrando as fases de um videogame, as personagens são levadas a algum lugar por uma pista, passam lá algum tempo e desvendam alguns puzzles até descobrir a pista que leva ao próximo local, e assim em diante. Não sei se isso é intencional, como a edição "em quadrinhos" que Ang Lee criou em "Hulk", mas se for, Roger Avary realmente pensa que os jogadores de videogame são idiotas de três neurônios. Um roteiro montado muito amadoristicamente, que serra pelas canelas a qualidade do produto final. O final do filme também é desnecessariamente gráfico, com um "chefão" exagerado, muito falatório redundante algumas toneladas de sangue falso. O verdadeiro horror da série, predominantemente psicológico, e que não se constrói sobre a violência física - o que até o meio do filme até é mantido, de certo modo - é abandonado por uma carnificina banal, insípida e revoltante.

Tudo isto faz de Silent Hill um filme bastante irregular: visualmente perfeito para uma obra do gênero, com uma trilha muito boa, com cenas ótimas, com situações geniais... e com decisões equivocadas, uma estrutura de roteiro infantil, um ritmo precário e inconstâncias graves no clima. Que pena: se havia algum material com potencial, era este.

Seja como for, uma coisa é certa: no campo das adaptações de videogames para o cinema, a bola bateu na trave desta vez. Se entrou ou não depois, é bastante discutível, mas até agora é o mais próximo que temos de um gol.




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