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O Advogado do Highlander
Por Pedro Alencastro — Terça, 15 de agosto de 2006
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Tive uma bisavó por parte de pai que morreu com 107 anos. Gosto de falar isso para impressionar as pessoas. Quando o tópico é longevidade, saio-me com essa, como quem arremata uma peça de arte num leilão. “Fulano morreu com 97”, “Beltrano já está com 99”... nada disso me intimida. “MINHA BISA MORREU COM 107”. Pronto, assunto encerrado. Também gosto de falar que tenho quatro irmãs. Mas enfim, isso não vem ao caso. Minha mãe sempre disse que se depender dos genes paternos, eu não morro tão cedo. “Eles são Highlanders”, costuma falar.
Para quem nunca assistiu Tela Quente na década de 90, explico. Highlander é um filme de 1986 estrelado por Christopher Lambert que conta a saga dos guerreiros imortais. Ou melhor, quase imortais, pois a única forma de matar um Highlander é decapitá-lo. Assim sendo, os combatentes travam duelos, para que no final, só reste um.
Conforme o primeiro filme (que deveria ter sido o único), o último dos imortais receberia um prêmio. Não me perguntem como diabos, mas a tal recompensa consiste em poderes sobrenaturais para salvar o mundo. E foi assim que a história terminou. Aliás, era assim que ela deveria terminar, porém, em Hollywood, nada se cria, tudo se transforma – e geralmente, para pior.
Embalados pelo sucesso do lançamento, os produtores resolveram filmar Highlander II: A Ressurreição. Dessa vez, os imortais – que já não existiam – foram transformados em alienígenas de passagem pela Terra, fato que deixou os fãs da série indignados. Os (ir)responsáveis pela seqüência fizeram de tudo para consertar a palhaçada. Além das desculpas públicas (coisa que muitos por aí deveriam fazer), eles pediram para que todos esquecessem a existência da continuação (o que, convenhamos, não muda nada). A saga, no entanto, teve sobrevida para mais um filme e uma série de TV. Nisso, ficou acertado que o último Highlander deixaria de ser imortal. Após séculos de uma vida sofrida, ele poderia, enfim, morrer como qualquer outro. Nada mais justo.
Por mim, se tivesse que escolher entre os dois “prêmios”, confesso que seria extremamente egoísta. Quero mais é que se dane o resto do mundo. Prefiro descansar em paz. Como já dizia a música composta pelo Queen, “Who Wants To Live Forever?”. Só de imaginar os 107 anos da minha falecida bisavó já me canso, que dirá 200, 300, 1000...
Sejamos sensatos, o homem não está apto a viver muito mais do que 100 anos. Nem fisicamente, como o caso da minha bisavó, e muito menos psicologicamente.
No caso dos Highlanders, para complicar ainda mais, não basta ser imortal. Há outros iguaizinhos a você. E com o passar dos séculos, presumo, essa convivência perpétua se tornaria insuportável. É como encontrar aquele sujeito indesejável na rua, não apenas duas ou três vezes, mas em dezenas, centenas, milhares de ocasiões... e pela eternidade. Francamente, haja saco. Não é a toa que eles saíam por aí cortando a cabeça uns dos outros.
Exageros à parte, a verdade é que as pessoas não se agüentam, exceto, claro, raríssimas e honrosas exceções. Prova disso é o alto índice de casamentos desfeitos. Guardada as devidas proporções, quando um Highlander arranca a cabeça do inimigo é como se ele estivesse pedindo divórcio. Pode parecer um método cruel, mas tem lá suas vantagens. É muito mais rápido, por vezes menos doloroso, e o que é melhor, dispensa advogados.
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