Faltou pulso firme para que funcionasse

O título é bastante assustador. Mas
Obrigado Por Fumar é uma sátira que - verdade seja dita - em nenhum momento defende a indústria do fumo ou tenta atenuar os malefícios que o vício de fumar causa. Ironicamente, seu mau título acaba representando bem o maior defeito do filme: a dificuldade de se fazer entender. Assim como o nome do filme sugere, a princípio, um inexistente apoio do mesmo ao fumo, a mão pesada com que o diretor
Jason Reitman conduz a realização impede que a sátira seja bem assimilada e torna
Obrigado Por Fumar um filme que não é engraçado, mas, pelo contrário, é bastante cansativo.
No filme,
Aaron Eckhart é Nick Naylor, porta-voz da indústria do fumo e encarregado por estas indústrias de defender o produto que vendem, inclusive publicamente. Apesar do emprego que tem, Naylor não é um homem mau, e os conflitos entre o que realmente é e a necessidade profissional de exercer o seu ofício poderiam ser o grande tour de force do filme; poderiam ser porque, embora, a princípio,
Obrigado Por Fumar invista nessa contradição - a primeira cena é um resumo até interessante deste embate - com o tempo tal análise se esvai, e o que se vê em cena, além de artisticamente monótono, sugere uma
encheção
de linguiça para preencher o tema do longa-metragem - e olhem que assunto para falar a respeito não falta.
Um exemplo típico do marasmo de
Obrigado Por Fumar são as cenas onde Naylor se encontra com a porta-voz da indústria do álcool (
Maria Bello, sempre esplêndida) e o da indústria das armas, fazendo desabafos existenciais sobre como são "perseguidos": é uma premissa interessante, e poderia se converter em algo rico para o tema; contudo, Reitman apresenta dificuldades para dosar a ironia da cena - e de todo o filme - e assim tanto este momento em particular quando o restante surge na tela sem consistência, sem graciosidade e sem impressionar o público.
Já a participação de
Katie Holmes, como uma jornalista ávida por desmoralizar Naylor, é fraca principalmente pelo péssimo desempenho da atriz, que, definitivamente, não tem força cênica nem para esse papel nem para o da advogada que desempenhou em
Batman Begins (quando foi indicada até mesmo ao prêmio Razzie de pior atriz coadjuvante do ano passado).
O grande problema de
Obrigado Por Fumar, no final das contas, é que o filme, ao satirizar a podridão que há ao redor de algo tão torpe com a indústria do cigarro, demonstrou incapacidade de diferenciar o que é sério do que é engraçado, o que impede que o filme atinja seus objetivos de denunciar tal indústria. A participação de
Rob Lowe, como um lobbista que tenta melhorar a imagem do cilindro horroroso, é um exemplo disso: quando ele sugere a Naylor que pretende voltar a investir em astros de Hollywood fumando nos filmes, o público fica enojado, claro. Mas dá mais vontade de sair do cinema do que se entreter com o cinismo de uma indústria que tenta, a todo custo, vender algo que é nocivo, faz mal a saúde e mata.