Muito, muito horrorshow

Por Márcia Lima — Domingo, 13 de agosto de 2006

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Volte sempre!

Aí em um belo dia, você jornalista, acorda e pensa que já entrevistou a banda brasileira mais bacana do momento. Duas vezes. E que deve partir para vôos mais altos (ui, que dramático). Então você sai da cama com todas as perguntas prontas. Vai até o computador enquanto tudo está fresquinho e manda as questões assim meio sem esperança, afinal há todo um pensamento radioheadiano de i’m a creep, e tudo mais.

Passam-se duas semanas, você, triste, está pensando em voltar ao mundinho das bandas brasileiras quando puff, tchibum, pápápáááá (este é o som que meu computador faz pra avisar que chegou e-mail, este ou algo parecido) e no assunto a singela: Re: brazilian interview.

Tudo bem, você não está entendendo nada. Vamos começar do começo, como diria a vovó do Jack Estripador. Você não vai acreditar, e nem precisa mesmo, mas nas últimas semanas minhas figurinhas no MSN (ou imagens de exibição, como queira) têm sido cinco caras de cabelos desgrenhadérrimos, magérrimos e estranhíssimos. E quando saio de casa, saio com estes cinco carinhas gritando e estourando meus tímpanos ao dizer que uma garota chamada Sheena (não, não a punkrocker) é uma parasita.


Cuida o nome das crianças, da esquerda para a direita: Faris Rotter (vocais), Spider Webb (órgão vox), Joshua Von Grimm Vibestation (guitarra Fender Jaguar), Coffin Joe (bateria) e Tomethy Furse (baixo).

The Horrors é o nome da banda. E nesta quinta eles estiveram na capa do NME. E ontem, 12 agosto, o vocalista apanhou numa rua londrina, apenas por seu estilo, ahn, diferente. Tudo acontecendo tão rápido... Ainda não está entendendo nada?

Então se segura, porque desta vez não falarei de bandas fofinhas, clipes bonitos e coisinhas queridas. Está é uma daquelas bandas arrasa quarteirão, pesada e boa, não pesada e desinteressante como Wolfhmother. Você tem que conhecê-los, agora.

Então, faz assim. Vai lá no MySpace, põe o som no último volume e espera aquela coisa estranha, ameaçadora, rudimentar, descontrolada e apavorante. Adjetivos demais? É porque você ainda não ouviu, beibi.

Quando o som começa é como se eles te atirassem no chão. Como se espasmos tomassem conta de toda a sua excelentíssima pessoa. E você não entende, e até pode não gostar assim, de primeira. São riffs caóticos, misturados a um teclado Vox Continental daqueles de igreja de filme de terror e um vocal vindo das profundezas da casa do capeta.

É uma banda que existe há apenas dez meses e se tornou mais excitante e malvada do que qualquer outra banda britânica, mais do que os grandes da new rave, mais do que a futilidade aplaudida de Lily Allen. Duas semanas, dois ensaios e o primeiro show.


Hoje eles estão tocando na BBC4 com Death at The Chappel, seu segundo single. Sheena Is.. é o primeiro. Obviamente, ainda não há disco. Eles são o extremo oposto do dancefloor dos macaquinhos. Eles são a última bolachinha deste pacote. São feitos de algum tipo de farinha gótica, fermento punk e açúcar garageiro dos anos 70.

Eu não gosto de escrever palavrões, apesar de falar uma boa dúzia ao longo dos dias mais estressantes, mas quando eu disser que esta banda é fodidamente boa, é apenas porque quero ressaltar que eles são fodidamente bons, mesmo, e pouco me importa se isto parece apenas mais um hype descabelado.

Nick Zinner, o guitarrista do Yeah Yeah Yeahs está tão fã da banda que quer produzir o álbum de estréia dos caras e já os chamou para abrirem os shows dos nova-iorquinos. Chris Cunningham, o mais conhecido diretor musical daquela ilha, saiu do seu semi-retiro porque se tornou tão obsessivo com a música Sheena Is a Parasite que não sossegou até dirigir o clipe da canção.

É dele os vídeos do Placebo (36 Degrees), Portishead (Only You), Madonna (Frozen), Björk (All is Full of Love), 5 vídeos assustadores do Aphex Twin, e muitos outros. O vídeo esperto que ele fez para Sheena Is A Parasite foi banido pela MTV. A história toda se passa em apenas uns clarões na escuridão e tem a premiada atriz Samantha Morton dançando de forma espasmódica enquanto levanta seu vestidinho branco e revela seu, eeerr, lado parasita.

O vinil "7" deles é o único esgotado na Loog Records que é também é casa de Patrick Wolf e The Bravery. A gravadora foi pega com as tight pants nas mãos, a seção de fotos está em coming soon, assim como a biografia.


Na já citada matéria de capa, o NME não escreveu nada de relativamente novo, mas contou um caso curioso: Falaram sobre um cambista que esteve no –até então - maior show do grupo. Este cambista estava impressionado porque nada mais, nada menos do que 50 almas desesperadas chegaram nele para comprar o ingresso. Detalhe: ele não tinha nenhum, porque - até então (repetitivo, hum?) – nunca tinha ouvido falar nos caras. Outro detalhe: O show custava 6 pounds. Uma das 49 almas ofereceu 60 pounds. O show foi no 100 Club (que foi palco de Oasis, White Stripes, etc) e teve lotação máxima de 330 pessoas.


Os shows não passam de meia-hora, os petardos não passam de três minutos. Olha o setlist dos caras:

Horrors Theme
Jack The Ripper
(cover da banda sixtie Screaming Lord Sutch)
Count In Fives
Death At Chappel
Gloves
Sheena Is A Parasite
Crawdaddy Simone


A apresentação no Old Blue Last (citado por Farris na entrevista, logo ali embaixo) foi tão intenso que um crítico falou sobre as pessoas ficarem tão selvagens com a presença deles, que agora o teto está correndo risco de desabar.

Se você leu uma ou duas destas colunas sabe que eu não falo sobre a construção das melodias, a imperícia técnica, e os acordes. Deixo isto para os críticos pedantes. Música é para sentir e não para ser esmiuçada como uma equação matemática. Mas, se tiver interessado nas influências dos meninos: The Seeds, The Tradesmen and Screamin’ Jay Hawkins, Cramps, Ramones e Gruesomes.

E é Faris, o vocalista de poucas palavras, que bateu um papo divertido e cheio de terror com esta coluna.


Como vocês eram na infância?

Faris - Aos dez anos matamos nossos parentes e caímos na estrada, foi rápido, violento e repentino.


Vocês sempre gostaram de filmes de terror? Alguém da banda já atuou em um destes filmes ou gostaria de atuar?

- Odeio filmes de terror mal feitos. Gosto de coisas como Pássaros ou algum outro de terror do Hitchcock


Como vocês escolheram seus nomes? Vocês brigaram por algum dos nomes?

- São nossos nomes reais.


Soube hoje que vocês estão na capa do NME. Foi rápido não? Como vocês estão se sentindo com tudo isto?

- Estamos felizes que a mídia esteja acreditando em nós, mas estamos cientes de que devemos melhorar sempre ou seremos esquecidos.


Vocês acham que estão criando moda? Soube que já tem gente se vestindo como vocês. Vocês se acham bonitos?

- Nós beijamos nossas imagens nos espelhos a cada manhã.


Vocês acham que as pessoas podem dar mais importância à aparência do que à musica?

- Sim, mas é problema deles. Nós escrevemos música e se eles preferem focar em como nos vestimos, então realmente não podemos fazer nada.


O que vocês fazem em seu tempo livre?

- Dormimos dentro de caixões.


Vocês dormem em caixões?

- Nao.


Vocês têm namoradas? E groupies?

- We are all gentlemen of leisure ("Somos todos cavalheiros desocupados").


Qual a melhor banda de todos os tempos na opinião de cada um?

- Faris: The Birthday Party; Rhys: Cabaret Voltaire; Josh: Born Against; Tom: The Average White Band; Joe: DAF.


Vocês conhecem algo sobre música brasileira? Sabiam que já tem fãs no Brasil?

- Todos nós amamos a compilação brasileira The Sexual Life of the Savages [nota: disco de pós-punk que traz bandas como Fellini, As Mercenárias e Akira S e as Garotas que Erraram].

E eu não achava que alguém no Brasil gostasse de nós.


Qual o melhor show que fizeram até hoje?

- 100 Club ou no Old Blue Last. Foi insano.


Vocês são amigos das bandas Xeroxteens e Neil's children. Quais outras bandas desta nova cena que vocês recomendam?

- These New Puritans, Wretched Replica e Kreeps.


Vocês estudam ou trabalham?

- Nem um, nem outro.


O que a família e as namoradas dizem de seus estilos?

- Eles tentam copiar, mas são totalmente quadrados.


Como define sua música?

- Rock rouco, caindo aos pedaços e espetacular (“Raucous ramshackle ripping rock and roll”).


Quais os planos para os próximos meses/anos?

- Continuar vivo.


Como são os seus fãs?

- Eles têm um excelente gosto musical.


Vocês ficaram muito indignados com a proibição do vídeo?

- Nao.


Poderia mandar uma mensagem para os fãs do Brasil?

- Alô, Brazil. ¤


*(Se por acaso você cometeu o crime de não ler Laranja Mecânica não deve saber que horrorshow é um adjetivo que indica algo maravilhoso. Leia, viu?)




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