Os defeitos de O Retorno do Rei

Por Alexandre Maron — Terça, 23 de dezembro de 2003

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Está na hora de alguém falar dos defeitos do filme

Não é para ser do contra, não. Juro.

Mas já que está todo mundo achando O Retorno do Rei, o capítulo final de O Senhor dos Anéis, tão bom, tão perfeito e fantástico, está na hora de alguém falar dos defeitos do filme. E olhe que não são poucos, caro fã.

Deixe-me esclarecer que não li os livros. Se para os fanáticos isso é um sacrilégio, considero que me coloca ao lado de milhões de outros espectadores que foram aos cinemas e tiveram uma pura experiência cinematográfica com os filmes. Com isso, eu pude saber o que as pessoas normais sentiram quando viram Homem-Aranha dois anos atrás sem nunca terem passado os olhos sobre os gibis do herói.

Mas eu me perdi em digressões. O que importa é que, para o olho treinado de um espectador que gosta de cinema, mas não é fã de O Senhor dos Anéis, a trilogia, embora seja cativante e emocionante, é bem menos bacana do que para os fãs alucinados.

Uma coisa que ajudou O Senhor dos Anéis a fazer ainda mais barulho do que já faria normalmente foi o fato de que entre os jornalistas existem muitos fãs de Tolkien. Infiltrados em posições-chave, esses nerds apaixonados fizeram tudo para sua trilogia preferida bombar. Claro que a boa qualidade dos filmes foi decisiva, porque, se fossem uma porcaria, a imprensa teria abandonado Peter Jackson em dois tempos.

Mas a boa vontade da imprensa também fez com que Jackson fosse poupado das críticas que um diretor normal receberia. O Senhor dos Anéis não podia ser julgado pelos críticos normais, tudo acabou sendo diferente dos outros filmes em termos de tratamento.

Por exemplo, um problema constante nos três filmes é a falta de unidade na narrativa. Jackson, por conta dos desafios da trucagem de colocar personagens de tamanhos diferentes lado a lado, apelou para enquadramentos que não são plásticos, mas, sim, servem às necessidades técnicas do filme. É por isso, e por nenhum outro motivo, que SdA sofre do efeito Pantanal. Lembra? Era aquela novela da antiga rede Manchete que ficava mostrando a paisagem pra impressionar o espectador.

Como o diretor é obrigado a apelar a closes o tempo todo, sempre que pode, manda uma panorâmica. Afinal, a pobre platéia precisa respirar.

Outra mania que chega a cansar é o uso inconstante e fora de hora da steady cam. É aquela câmera na mão que, por obra da ciência, mexe pouco e tem uma enorme mobilidade. Em algumas cenas, a mudança de câmera no tripé para a steady cam é gritante e incomoda.


Se a culpa disso é dos efeitos especiais, é preciso dizer que esses mesmos efeitos, embora todo mundo babe, não são tão bons assim. Basta notar que estão cheios de rebarbas, com cores saturadas e artificiais. É como se os produtores não tivessem tempo de terminar o serviço. E esse descuido é flagrante principalmente no terceiro filme.

A estratégia de diminuir os atores, os hobbits Frodo, Sam, Pippin e Meriadok, rende cenas ridículas, em que os dublês não têm nada a ver com os atores e até os penteados estão completamente diferentes de uma tomada para outra. Mas tudo bem, os fãs nem notam essas coisas porque estão chorando nessas horas.

Se isso não bastasse, basta lembrar que Peter Jackson virou um arauto da cafonice ao mostrar um Sam choroso e devotado exageradamente ao amigo e patrão Frodo. É irritante, porque uma grande amizade entre os dois, apenas porque foi mostrada de modo melodramático ao extremo, virou uma espécie de símbolo da viadagem. Ficou over.

Chega a irritar - e já entrou para a história - o momento em que Sam, vendo que Frodo não agüenta caminhar até um certo lugar, dispara a frase: "Eu não posso carregar o anel para você. Mas posso carregar o senhor". Dito isso, coloca Frodo no ombro e resolve carregá-lo. Tudo isso com uma música edificante no fundo.

A cena é tão patética que me rendeu risadas involuntárias. Ou seja, a pieguice dos dois primeiros filmes chega a um ápice aqui. Mas os fãs estão tão extasiados de ver materializada a cena que imaginaram por metade de suas vidas que nem notam o quanto a seqüência é ridícula. Não era difícil diminuir o fator pieguice. Bastava, por exemplo, agir mais e falar menos em alguns momentos. Sam poderia apenas constatar que seu amigo não consegue mais fazer a caminhada e colocá-lo nos ombros. Piegas ainda, mas não tão fiel ao livro, talvez?

Pior. Para que não sobre nenhuma dúvida de que Sam não é homossexual (tipo aquele personagem do Casseta que aparece na sauna gay dizendo “eu não sou gay”), o diretor, em um dos muitos momentos que parecem ser o final da história, mostra não só o casamento de Sam e Rosinha, como ele cercado de filhinhos. Sam não só gosta de mulher como não pára de transar com ela e ter filhos. Ok, ok, entendemos a mensagem, Peter!

E, por fim, há o desespero de enfiar referências do livro no filme para remediar certas omissões. Como aquela cena fora de propósito, piegas, em que Pippin (ou Meriadok, nem perco o meu tempo tentanto diferenciá-los) canta para o regente de Gondor, que janta enquanto seu exército e seu filho são mandados para a morte certa. Está entendido que Jackson esqueceu de colocar alguns dos muitos momentos em que os personagens param para cantarolar alguma canção em meio à sua jornada heróica. Mas precisava, em desespero de causa, se lembrar de colocar um hobbit cantando uma música só naquele momento? É de uma falta de sutileza sem par. O pobre público que não leu o livro sente que tem alguma coisa errada e fora de lugar ali, mas não consegue entender o que é.

O mais impressionante é que eu adorei o filme. Não é um pedido de desculpas, não. É uma constatação. Mesmo com todos esses problemas, e eu certamente esqueci mais alguns, o filme ainda é emocionante, divertido e fecha o ciclo com chave de ouro. Mas em uma grande obra sempre existem defeitos aos montes. Só que nem sempre nós temos a isenção emocional (ou o espírito de porco) para enxergá-los.




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