Magos, dragões e homens másculos suados

Por Douglas Donin — Segunda, 22 de dezembro de 2003

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Quando estava selecionando o assunto da coluna desta semana, reparei que quase todos os meus colegas colunistas estavam preparando algo sobre O Retorno do Rei. Ao perceber isso, uma profunda tristeza me atingiu. Senti-me isolado, de certa forma excluído: enquanto todos celebravam o melhor filme do ano - ou da década - lá estava eu, atrelado à minha obrigação de falar sobre trash e cultura barata. Me senti como um cãozinho faminto e com frio vendo pela janela a ceia de Natal de uma família feliz.

Mas deixemos de melodrama! Aproveitando o clima tolkieniano, esta coluna vai tratar sobre o gênero "espada & magia" e como começou essa febre - além disso, como de costume, vamos ver como nem tudo o que foi produzido nesse gênero vale o dinheiro investido.

As epopéias medievais, antes pertencentes ao território da literatura clássica, começaram a sua longa migração para o terreno da cultura pop nos idos de 1930, com a publicação das histórias de Conan por Robert E. Howard, um jovem escritor texano aficcionado por história. Para criar as histórias de Conan, Howard preparou em detalhes a Era Hiboriana - uma era existente entre o desaparecimento da Atlântida e a história escrita.

Em uma década na qual a ficção popular estava apenas engatinhando, não podemos dizer que o criador do bárbaro mais famoso de todos os tempos teve a exposição que merecia: na época, suas histórias - e as histórias de muita gente hoje influente, como H.P. Lovecraft - não ultrapassaram o status de literatura pulp, barata, publicada em revistas de baixa qualidade. As criações de Howard provavelmente não teriam sobrevivido ao seu suicídio, em 1936 (Howard deu fim à sua vida um dia depois da morte da mãe), se não fossem os seus correspondentes e sucessores Lin Carter - também amigo de Tolkien - e Sprague de Camp. Aliás, por esta amizade em comum com Lin Carter, muitos sustentam que Tolkien não só teve contato com a literatura de Howard como também foi inspirado por ela em alguns pontos, principalmente, na elaboração da geografia da Terra-Média, que teria se apoiado nos Anais da Era Hiboriana de Howard.

Pois Carter e De Camp mantiveram viva a obra de Howard, a expandiram e deram sua forma definitiva. Conan e companhia voltariam em publicações da Gnome Press, em 1950, mas o seu retorno triunfal ocorreria somente na década de 70, com a publicação das histórias de Conan pela editora Lancer, que tornaram o personagem popular a ponto de ser adquirido pela poderosa Marvel Comics. Talvez os grandes diferenciais destas edições, diretamente responsáveis pelo seu estrondoso sucesso, sejam as maravilhosas capas de Frank Frazetta - talvez de sua mente tenha nascido a concepção definitiva do estilo "espada & magia".

O terreno já estava preparado, com a publicação de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, em 1953, e com a criação do famoso RPG Dungeons & Dragons, que se tornou muito popular entre os adolescentes americanos da década de 70. Frazetta apenas foi o catalisador de uma reação inevitável. A sua arte, de certa forma, apresentou uma visão de fantasia medieval adulta, provocante, estimulante, e fez fervilhar a imaginação de milhares de jovens, e, logo, o estilo de Frazetta espalhou-se.

Ao mesmo tempo em que o gênero "espada & magia" povoava a imaginação de adolescentes, iniciava uma parceria perfeita com o rock pesado do final dos anos 70. Não tardou para que as bandas de rock encontrassem no estilo uma fonte vibrante de inspiração, e logo as capas dos discos de artistas e bandas como Molly Hatchet e Jethro Tull, entre muitos outros, estavam estampando bárbaros hipermusculosos, mulheres seminuas acorrentadas, demônios voadores e esqueletos com espadas - alguns desses álbuns, com capa do próprio Frazetta. Mesmo os que não traziam temática medieval foram influenciados, trazendo o mesmo estilo para cenários devastados e pós-apocalípticos. Foi a consolidação do estilo, o momento de definição de sua identidade.

Não tardou para o estilo chamado chamado "espada & magia" - um termo bem mais adequado do que o comum e impreciso "fantasia medieval" - alcançasse as telas. Com uma identificação instantânea com fãs de rock pesado e quadrinhos, o gênero era promessa de lucro e trouxe inúmeros filmes nos anos 80, alguns muito bons, outros, ridículos.

O mais óbvio filme desta leva é o magnífico Conan, O Bárbaro, com roteiro de Oliver Stone e direção de John Milius. O filme, apesar de ser estrelado pelo brucutu-mor do cinema de ação, Arnold Schwarzenegger, levou a sério a saga do gigante cimério e trouxe várias referências às histórias clássicas de Howard. Não foi a mais fiel adaptação que alguém já viu nas telas, mas impressionou pelo visual e pelo clima violento e cruel. Além disso, a trilha de Basil Poledouris é uma das mais clássicas do cinema de ação.

Conan voltaria a ser retratado em Conan, o Destruidor - agora com história de Roy Thomas, o maior roteirista do bárbaro nas HQs. No entanto, apesar das boas intenções, o filme escorregou em problemas de produção e o resultado final parece apressado e, certas vezes, improvisado. Um filme ridículo, para ser esquecido.

Logo após, ainda aproveitando o embalo, a guerreira ruiva de Sonja (personagem secundário de Conan) ganharia seu próprio filme, em Red Sonja (no Brasil, o título é Guerreiros de Fogo), com Brigitte Nielsen. O filme ainda trouxe Arnold Schwarzenegger, pela terceira vez, no papel de Conan - ou traria, já que problemas de direitos autorais fizeram o nome do bárbaro passar para "Kalidor" pouco antes das filmagens. Apesar de trazer dois personagens clássicos de Howard (tá bom, UM personagem clássico), o filme, dirigido por Richard Fleischer é uma bomba do quilate de Conan, O Destruidor. E assim, o sucesso de Conan inspirou toda uma geração de filmes B - muitos dos quais filmados na Europa, como o alemão The Beastmaster. Alguns desses filmes até prestavam.

Mas aí o negócio degringolou. Produtoras pequenas e de médio porte correram para produzir filmes do estilo "vejam-eu-tenho-meu-próprio-campeão-de-fisiculturismo", onde todo ex-campeão de musculação que soubesse no mínimo grunhir como um animal era um sério candidato a protagonista. Alguns extrapolam qualquer limite do ridículo, como o desgraçado Os Bárbaros, que frequentemente é exibido no SBT.

Não tardou para que fosse descoberto ainda o grande filão "mulheres saradas em trajes minúsculos", que vale a pena apenas se você está disposto a rir bastante (ou se possui alguma séria disfunção sexual). Alguns representantes desses filmes com tendências sadomasoquistas são Barbarian Queen e sua continuação Barbarian Queen 2: The Empress Strikes Back. Nesses filmes, mulheres com corpo escultural (e, claro, sem cicatrizes de batalha) banhadas em óleo, com penteados poodle bem ao estilo anos 80 e unhas vermelhas compridas, vestem-se com meros trapos e sentam o sarrafo em bárbaros fortões, enquanto são invariavelmente amarradas e torturadas em algum ponto pela vilã provocante e lésbica.

Por outro lado, filmes mais imaginativos procuravam sair da sombra de Conan, e extrapolavam o esquema "bárbaros suados com machados e elmos com chifres" de Frank Frazetta. Exemplos são os excelentes Krull (o filme preferido da infância de muita gente), A Lenda e Willow.

O gênero andou esquecido por um longo tempo e foi substituído pelo renascido épico histórico, como Coração Valente e Gladiador, com raras incursões tímidas ao tema, como o divertido Coração de Dragão, até o surgimento, em 2001, do não-menos-que-perfeito O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson - que, em uma só receita, fundiu a alta fantasia com a grandiosidade, seriedade e realismo dos antigos épicos.

Hmm, estou me esquecendo de algo? Ah, sim! Dungeons & Dragons! Mas este será o tema da próxima coluna, onde vamos estudar como NÃO fazer um filme de fantasia! Até lá!




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