Anjo caído

Cinebiografias de personalidades sempre foram um tema recorrente no cinema, e dizer que os resultados variam de filme para filme é algo, no mínimo, elementar. Mas seria interessante fazer uma reflexão e pensar porque a forma como certas biografias são filmadas simplesmente não funciona quando se faz a mesma coisa que já fora feita, com sucesso, ao se narrar cinematograficamente a vida de outra personalidade.
Zuzu Angel, o novo filme de
Sérgio Rezende e o retorno do cineasta de
Mauá - O Imperador e O Rei às biografias de personalidades do cenário político brasileiro, conta a história da estilista que, nos anos 70, levou a moda brasileira a ocupar prestígio internacional, mas que acabaria tornando-se mais famosa - principalmente nos últimos anos, após um certo esquecimento de seu nome nos anos 80 e 90 - por confrontar-se, no auge da ditadura militar, com o sistema político brasileiro de sua época, uma vez que seu filho Stuart Jones, militante político, teria sido sequestrado, torturado e - soube-se depois - assassinado pela ditadura então vigente no país.
Reside aí, talvez, o que tornou
Zuzu Angel, para se dizer o mínimo, um equívoco cinematográfico: Rezende dirige seu filme de forma bonitinha demais, como se fosse a biografia de uma personalidade do mundo da música - vide os brilhantes
Melodia Imortal e
De-Lovely, filmes separados por quase 50 anos mas ambos notavelmente brilhantes. Nesses filmes, ficam perfeitas a fotografia colorida, os personagens com fisionomia e comportamento tranquilos, todos sempre passeando em pontos turísticos e sempre com gente bonita e bem vestida ao redor. Mas esses são outros filmes, com outra proposta: tal opção narrativa e estética simplesmente não casa com o enfoque que Sérgio Rezende optou por seguir em
Zuzu Angel.
O filme não é a biografia completa de Zuzu - é uma denúncia política: sua narrativa se concentra nos anos 70, período em que a estilista, no auge da fama, enfrentou a ditadura e acabaria pagando com a vida sua luta para encontrar o corpo de seu filho. Durante toda a projeção, nada é dito sobre sua infância, seu passado, suas origens e seu casamento (já encerrado, quando o filme começa). Ou seja: Sérgio Rezende optou por fazer um filme político. Perfeito. É uma opção legitima. O problema é a forma como o cineasta conduz sua narrativa. Tanta belezura, tantos lugares edulcorados, simplesmente não combinam com a situação que o diretor tenta denunciar e tornam o filme absolutamente artificial. E há dois fatores que contribuem e muito para isso.
Um deles é a própria profissão da biografada: sendo Zuzu Angel uma estilista, é fácil cair na armadilha de super-intensificar os figurinos e costumes que ela e os que estão a seu redor vestem. Tão fácil que Rezende não escapou e tornou seu filme um desnecessário desfile de figurinos, fazendo, involuntariamente, que estes falem mais alto que a história contada; com isso, o filme faz com que o espectador tenha a impressão (correta?) que os modelitos de Zuzu eram bregas e estariam, hoje, defasados pelo tempo.
O outro fator prejudicial a
Zuzu Angel diz respeito ao péssimo desempenho de
Patrícia Pillar: geralmente uma boa atriz, Pillar nos últimos tempos só tem interpretado papéis de mãe, como o observado em suas duas mais recentes novelas,
Cabocla e
Sinhá Moça. Oras, apesar de já ter 42 anos, a atriz aparenta bem menos, há pouquíssimo tempo atrás interpretava apenas mocinhas, e atrizes mais velhas não fizeram essa passagem de forma tão abrupta -
Natália do Valle é um exemplo. Nada contra sua escolha para interpretar Zuzu, mas sim contra seu desempenho: a atriz não transmite as angústias da personagem, não consegue inserir a Zuzu a força interna inerente à biografada e fala seu texto de forma constrangedoramente artificial, principalmente nos momentos em que o roteiro exige maior força de Zuzu e, por conseguinte, de sua intérprete. Dessa forma, com uma atriz em péssimo momento dentro de um cenário doce demais para a trama que enfoca e com os figurinos de mau-gosto do filme falando mais alto que o resto,
Zuzu Angel, o filme, patina no artificialismo, não honra a personalidade enfocada, desperdiça o que poderia ser um grande filme e patina na mediocridade.