Orson Welles foi diretor de cinema e teatro, ator, roteirista, produtor e locutor. Criança prodígio, ele estudou várias formas de entretenimento, e assim conseguiu revolucionar a indústria da comunicação. Ele ganhou fama nacional, e posteriormente mundial, graças a sua famosa locução, em outubro de 1938, de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. E com seu filme Cidadão Kane, 1941, modernizou o cinema em vários aspectos e técnicas. Só essas obras valem uma coluna, mas resolvi preparar o campo, levantando alguns dados da biografia dele. E assim mostrar que Welles era a cima de tudo um inquieto e apaixonado pelo que fazia
Infância
George Orson Welles nasceu em 1915 em Kenosha, Winsconsin, filho do rico inventor Richard Head Welles e da pianista Beatrice Ives. Com apenas 19 meses, Welles foi declarado como uma criança prodígio pelo Dr. Maurice Bernstein, renomado médico da época. Sua mãe começou a lhe ensinar os textos de Shakespeare, dar aulas de piano e violino. E por conta própria, buscaria aprenderia truques mágicos com artistas itinerantes. Quando completou seis anos, seus pais se divorciaram e assim o menino acabou indo morar com sua mãe em Chicago, onde ele assistiria à grandes montagens de operas, concertos e peças teatrais. Porém sua mãe morreria de icterícia em 1924 e seu pai também faleceria alguns anos depois, quando Welles completaria 15 anos. Assim o Dr. Bernestein ficou responsável pelo garoto e o enviou a
Todd School of Illinois.
Foi nessa escola que ele se apresentaria pela primeira vez em um palco, bem como produziria algumas peças. Lá ele seria tutorado pela cantora Dorothy Hartshorne, viúva do teólogo e filósofo Charles Harstone. Em 1931, ele finalmente teria sua primeira apresentação profissional no Gate Theatre of Dublin, na Irlanda. Já em 1934 ele trabalharia como diretor e ator de rádio nos Estados Unidos, trabalhando com vários membros do que seria o
Mercury Theatre. In. Neste mesmo ano se casaria com a atriz e socialite
Virginia Nicholson e rodaria seu primeiro filme mudo intitulado
The Hearts of Age. Sua esposa fez parte do filme.
O teatro e o rádio: as paixões de sua vida

Em 1936, o
Federal Theatre Projects, começou a colocar para trabalhar vários artistas que sofreram com a Quebra da Bolsa de 29. Welles foi designado para dirigir um projeto do Harlem. Seu MacBeth foi enviado para o Haiti à corte do Rei Henri Christophe
Após o sucesso de
MacBeth, trabalhou em
Dr.Faustus e a sátira
Horse Eats Hat. Em 1937, o
Marc Blitzstein's The Cradle Will Rock at the Maxine Elliott Theatre foi fechado, no primeiro dia de apresentação, pelo mesmo Federal Projetc que havia possibilitado sua viagem. Welles e seu co-produtor
John Houseman anunciaram ao público que o show seria realizado em outro local. Assim, platéia, atores e produção andaram até o teatro
The Venice, a 20 quarteirões dali. A trupe do The Cradle Will Rock começou apresentação com um número musical ao piano de seu autor. Como os atores e músicos foram proibidos pelo sindicato de se apresentarem no palco, Welles resolveu que a peça séria montada em meio a platéia. E assim conseguiu mais um sucesso.
Welles e Houseman formaram sua própria companhia teatral, a Mercury Theatrer. Sua primeira produção foi Júlio César de Shakespeare, com montagem moderna que retratava uma sociedade Fascista, com
James Mason como Brutus e
Marlon Brandon como Marco Antônio. Nessa versão o poeta Cinna, não morreria pela mão dos conspiradores e sim pela ação de uma força policial secreta. De acordo com o
Norma Loyd, que interpretou Cinna “foram três minutos de aplausos interruptos”.
Welles era viciado em rádio, primeiro como ator e depois como diretor e produtor. Em 1937 interpretaria Lamont Cranson,
O Sombra, famoso herói pulp. No verão de 1938 o Mercury Thethre começaria suas locuções de peças baseadas em clássicos da literatura, entre eles
Drácula de
Bram Stroker e o
Homem que foi Quinta-Feira de
Gilbert Keith Chesterton. Em 31 de outubro do mesmo ano, ou seja, em pleno o Halloween, se daria o famoso episódio com a
Guerra dos Mundos, em que el não só provocou certa histeria nos Estados Unidos, como comprovou a eficácia e poder do rádio como ferramenta de comunicação das massas. Entre outras séries para rádio produziu e dirigiu estavam
The Orson Welles Show, The Orson Welles Almanac, Ceiling Unlimited, Orson Welles' Commentaries e Hello Americans, que foi usado como pesquisa para seu filme inacabado
It's All True.
Nas engrangens de Hollywood

Foram várias idéias, que assaltaram a mente de Welles, para o primeiro projeto da RKO, entre eles uma adaptação de
Coração das Trevas de
Joseph Heart (obra acabaria sendo usado por
Ford Coppola como ponto de partida para
Apocalipse Now, décadas depois). A única coisa que ele tinha idéia era toda a maioria das ações do filme seriam mostradas através da visão do protagonista utilizando uma câmera subjetiva. Graças à sugestão do roteirista Herman Mankiewicz, Welles achou um projeto que valia a pena. O primeiro título que o projeto recebeu foi American (Americano), mas eventualmente, ele ganhou o nome de
Cidadão Kane (1941)
Novamente Welles experimentaria ser o centro da controvérsia. Graças à escritora de fofocas Louella Parsons,
William Randolph Hearst, magnata de impressa, ficou convencido que ele era a base do filme. E assim todo seu império boicotou Cidadão Kane.
O segundo filme de Welles pela RKO foi
Soberba, adaptação do romance, ganhador
Pulitzer, de
Booth Tarkington. Os executivos da RKO esperavam que esse longa lhes pagasse o prejuízo comercial do Cidadão Kane
Ao mesmo tempo, Welles, trabalhou em um thriller de espião,
Jornada do Pavor, o qual foi co-escrito com Joseph Cotten. Nesse filme ele novamente atuaria e seria o produtor. É interessante notar que nos créditos apenas o nome de Norman Foster apareça como diretor, mas é impossível não evidenciar que Welles foi co-diretor nessa empreitada.
Durante a produção de Soberba, Welles foi convocado pelo governo para realizar um documentário sobre a América do Sul, com intenções propagandistas. Assim ele teve que deixar os Estados Unidos para começar esse novo trabalho, mas só depois de ter em suas mãos o filme completo para corte e pós-produção. Assim via telegrama ele poderia transmitir suas decisões quanto a edição. Porém o estúdio entrou em conflito com o pessoal da
Mercury Productions e no final o filme saiu com menos 15 minutos e com nova edição. O documentário ganhou o nome de
It's All True, mas Welles nunca o veria em vida. O material acabou sendo lançado só em 1993.
Em 1946, a
International Pictures lançaria
O Estranho, estrelando
Edward G. Robinson, Loretta Young e Welles. Sam Spiegel produziu o filme, que detalhava a vida de um criminoso nazista que vivia incógnito nos Estados Unidos. Logo após filmaria
A Dama de Shangai pela
Columbia Pictures, onde atuaria ao lado de sua segunda esposa,
Rita Hayworth e acabariam se separando logo depois. O filme acabou sofrendo uma re-edição pelo a mando do estúdio e assim acabou sendo retirado aproximadamente uma hora do filme, bem como o final desejado pelo diretor. Pela
Republic Pictures, ele dirigiu Macbeth, que saiu 20 minutos a menos do que ele queria.
Fora do circuito e projetos independentes...

Em 1948 Welles deixou Hollywood em direção a Europa. No mesmo ano ele interpretou Harry Lime em
O 3° Homem com
Joseph Cotten, em um roteiro escrito em parceria de
Graham Greene e o diretor
Carol Reed. Da idéia do filme, nasceria uma série radiofônica, escrita por ele chamado
The Lives of Harry Lime. E dela surgiria o conceito básico para outro projeto futuro,
Grilhões do Passado.
De 1948 a 1952, Welles trabalhou em
Otelo, filmado em locações da Europa e Marrocos. Por esse filme, acabaria ganhando a
Palma de Ouro de Cannes, mas impressionantemente o filme não grande lançamento nos Estados Unidos, sendo exibido apenas em Nova York e Los Angeles. Em 1992, a restauração da versão americana casou certa controvérsia, tudo porque os norte-americanos preferiram usar um negativo a base de nitrato, a despeito da existência de várias cópias da versão européia. E somou-se a esse fato, a utilização de uma trilha sonora mudada. Mas mesmo assim o relançamento nos Estados Unidos foi um sucesso.
Welles estrelaria mais um de seus filmes, Grilhões do Passado, em 1955. Nele o diretor interpretava um magnata de passado obscuro, que teria sua vida desvendada graças as investigações de seu genro.
Em 1958, retornaria a Hollywood para filmar
Marca da Maldade a adaptação do romance pulp
Badge of Evil de
Whit Masterson, a qual Welles afirmava que nunca o tinha lido. Originalmente ele fora contrato como ator, mas foi promovido pela
Universal Studios quando
Charlton Heston recusou estrelar o filme, a não ser que Welles fosse o diretor. Marca Da Maldade foi tirado de suas mãos, re-editado e algumas partes re-filmado. Em protesto acabou escrevendo um memorando de 58 páginas com sues apontamentos e objeções à versão do estúdio. Mas mesmo assim, o filme atravessou a Europa com sucesso, premiado na categoria mais importante na
Brussels World's Fair, por críticos e juizes, como,
François Truffaut e
Jean-Luc Godard, os quais citaram, respectivamente, que o filme servira de inspiração para
Os Incomprrendidos (1959) e
Acossado (1960). Em 1998, o editor Walter Murch, trabalharia em uma versão que se aproximou muito da idealizada por Welles. Vale destacar também a produção de
O Processo, em 1968, a partir da adaptação do livro de
Franz Kafka.
Ele passou boa parte de sua carreira como diretor na Europa, ora financiado por suas interpretações em filmes, ora por produtores amigos. É verdade que nessa época ele teve maior controle na edição final do filme, mas a independência ganha, resultou em menores orçamentos e equipamentos.
Ele voltaria a Hollywood no começo da década de 70, onde trabalharia em vários filmes e projetos para televisão, incluindo
The Other Side of the Wind, que só seria mostrado após seu falecimento. Outra obra de destaque dessa época foi
F For Fake - Verdades e Mentira (1974) uma narrativa sobre várias formas de charlatanismo.
Welles e a caixa mágica

Os trabalhos televisivos de Welles são poucos conhecidos. Entre eles se destaca
The Orson Welles Sketchbook de 1955, criado pela
BBC no qual ele contava histórias e fazia desenhos para ilustra-las; no mesmo ano ele criaria
Around the World with Orson Welles. Em 1956 apareceria no em um episodio de
I Love Lucy chamado
Lucy Meets Orson Welles. Dois anos depois faria
The Fountain of Youth. Entre 1965 3 1984 Welles apareceu várias vezes nos programas
Dean Martin's Variety Series e
Celebrity Roasts. Bem como fez uma série de projetos entre eles, a
História Imorta, filmado para a televisão francesa e
Portrait of Gina na Itália. Uma versão televisiva sua de O Mercador de Veneza, nunca foi ao ar, porque parte do material foi roubado e nunca recuperado. Partes desse projeto podem ser visto no documentário de 1995,
Orson Welles: The One-Man Band, onde são mostradas várias de suas obras inacabadas.
Fecham-se as cortinas
Em seus últimos anos, Welles, não conseguia financiar seus scripts para cinema. Uma vez chegou a reclamar que
Steven Spielberg gastara US$50,000 em trenó
Rosebud, mas dera um centavo para ele fazer um filme. Durante sua carreira ganhou um
Oscar e foi nomeado por mais quatro. Em 1971 a
Academia deu a ele um prêmio honorário pela sua versatilidade como criador de filmes.
Ele morreria em 1985, em sua casa em Hollywood, Califórnia, no dia 10 de outubro. Ele deixou alguns projetos encaminhados, como
Rei Lear, The Orson Welles Magic Show, The Dreamers e duas histórias de
Isak Dinesen que já tinham 25 minutos de filmagem realizados. Algumas semanas antes de falecer ele havia emprestado sua voz para Unicron, um dos personagens de
Transformers: The Movie
Suas cinzas foram espalhadas em Ronda, Espanha, a seu pedido. De acordo com algumas fontes, algumas de suas cinzas foram levadas para a Plaza de Toros, a mais antiga arena de touradas da Espanha ainda em funcionamento.
Genialidades inacaba

Welles deixou outros projetos inacabados em sua vida, como uma adaptação de Don Quixote de Cervantes, que começou como um programa para a
CBS e acabou evoluindo para um filme, que retratava as aventuras de
Quixote e Sancho Pança nos tempos modernos. Porém o projeto foi abandonado quando
Francisco Reiguera, o ator que interpretava Quixote, morreu. Uma versão incompleta do filme chegou a ser lançada em 1992.
Em 1970 Welles começou a gravar The Other Side of the Wind, estralando John Huston como um diretor que se esforçava para fazer seu último filme. Em 1972 foi divulgado que o filme está com 96% de seu material pronto. Mas o negativo ficou em um cofre até 2004 em Paris, quando
Peter Bogdanovich, que também atuou na produção anunciou que tinha a intenção de completar a produção. O material foi incluído no documentário de 1993, intitulado
Working with Orson Welles.
Outros projetos inacabados incluíam uma adaptação do livro
The Deep de
Charles Williams, que fora abandonado por conta da morte do ator Laurence Harvey, faltando uma cena para todo o material ficar pronto. E
Anel de Corrupção que seria adaptado e filmado por
George Hickenlooper em 1999
Curiosidades
Apesar de sua reputação como ator e diretor, manteve durante muito tempo sua licença junto a
Magician's Union, além de praticar periodicamente mágicas. De acordo com Welles, assim ele poderia seguir adiante em uma carreira caso fosse impedido de seguir trabalhando no cinema.
Recusou o convite para dar voz ao personagem
Darth Vader em
Guerra nas Estrelas (1977). Mas chegou a narrar o tesar do filme. Também narrou os trailer do filme de
Star Trek de 1979.
Possui uma estrela na Calçada da Fama, localizada em 1600 Vine Street.
Gravou duas narrações em músicas de
heavy metal norte-americano
Manowar.
Dark Avenger saiu no LP
Battle Hyms de 1982 e postumamente, em 1987, na música
Defender no álbum
Figthing The World
Francis Ford Coppola, fã de Welles chegou a cogitá-lo para o papel de Don Vito em
O Poderoso Chefão. E ironicamente ele foi a primeira escolha para interpretar o Coronel Kutz em Apocalipse Now.
Frank Sinatra era o padrinho de suas filhas Christopher Feder, com Virginia Nicholson; Rebecca Welles, com Rita Hayworth e Beatrice Welles Smith (com Paola Mori)
Nasceu no mesmo dia que o
Babe Ruth fez seu primeiro
home run. Morreu no mesmo dia que o ator
Yul Brynner.