Luz, câmera e revolução

Por Thiago Augusto — Sexta, 28 de julho de 2006

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Orson Welles foi diretor de cinema e teatro, ator, roteirista, produtor e locutor. Criança prodígio, ele estudou várias formas de entretenimento, e assim conseguiu revolucionar a indústria da comunicação. Ele ganhou fama nacional, e posteriormente mundial, graças a sua famosa locução, em outubro de 1938, de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. E com seu filme Cidadão Kane, 1941, modernizou o cinema em vários aspectos e técnicas. Só essas obras valem uma coluna, mas resolvi preparar o campo, levantando alguns dados da biografia dele. E assim mostrar que Welles era a cima de tudo um inquieto e apaixonado pelo que fazia




Infância



George Orson Welles nasceu em 1915 em Kenosha, Winsconsin, filho do rico inventor Richard Head Welles e da pianista Beatrice Ives. Com apenas 19 meses, Welles foi declarado como uma criança prodígio pelo Dr. Maurice Bernstein, renomado médico da época. Sua mãe começou a lhe ensinar os textos de Shakespeare, dar aulas de piano e violino. E por conta própria, buscaria aprenderia truques mágicos com artistas itinerantes. Quando completou seis anos, seus pais se divorciaram e assim o menino acabou indo morar com sua mãe em Chicago, onde ele assistiria à grandes montagens de operas, concertos e peças teatrais. Porém sua mãe morreria de icterícia em 1924 e seu pai também faleceria alguns anos depois, quando Welles completaria 15 anos. Assim o Dr. Bernestein ficou responsável pelo garoto e o enviou a Todd School of Illinois.

Foi nessa escola que ele se apresentaria pela primeira vez em um palco, bem como produziria algumas peças. Lá ele seria tutorado pela cantora Dorothy Hartshorne, viúva do teólogo e filósofo Charles Harstone. Em 1931, ele finalmente teria sua primeira apresentação profissional no Gate Theatre of Dublin, na Irlanda. Já em 1934 ele trabalharia como diretor e ator de rádio nos Estados Unidos, trabalhando com vários membros do que seria o Mercury Theatre. In. Neste mesmo ano se casaria com a atriz e socialite Virginia Nicholson e rodaria seu primeiro filme mudo intitulado The Hearts of Age. Sua esposa fez parte do filme.


O teatro e o rádio: as paixões de sua vida



Em 1936, o Federal Theatre Projects, começou a colocar para trabalhar vários artistas que sofreram com a Quebra da Bolsa de 29. Welles foi designado para dirigir um projeto do Harlem. Seu MacBeth foi enviado para o Haiti à corte do Rei Henri Christophe

Após o sucesso de MacBeth, trabalhou em Dr.Faustus e a sátira Horse Eats Hat. Em 1937, o Marc Blitzstein's The Cradle Will Rock at the Maxine Elliott Theatre foi fechado, no primeiro dia de apresentação, pelo mesmo Federal Projetc que havia possibilitado sua viagem. Welles e seu co-produtor John Houseman anunciaram ao público que o show seria realizado em outro local. Assim, platéia, atores e produção andaram até o teatro The Venice, a 20 quarteirões dali. A trupe do The Cradle Will Rock começou apresentação com um número musical ao piano de seu autor. Como os atores e músicos foram proibidos pelo sindicato de se apresentarem no palco, Welles resolveu que a peça séria montada em meio a platéia. E assim conseguiu mais um sucesso.

Welles e Houseman formaram sua própria companhia teatral, a Mercury Theatrer. Sua primeira produção foi Júlio César de Shakespeare, com montagem moderna que retratava uma sociedade Fascista, com James Mason como Brutus e Marlon Brandon como Marco Antônio. Nessa versão o poeta Cinna, não morreria pela mão dos conspiradores e sim pela ação de uma força policial secreta. De acordo com o Norma Loyd, que interpretou Cinna “foram três minutos de aplausos interruptos”.

Welles era viciado em rádio, primeiro como ator e depois como diretor e produtor. Em 1937 interpretaria Lamont Cranson, O Sombra, famoso herói pulp. No verão de 1938 o Mercury Thethre começaria suas locuções de peças baseadas em clássicos da literatura, entre eles Drácula de Bram Stroker e o Homem que foi Quinta-Feira de Gilbert Keith Chesterton. Em 31 de outubro do mesmo ano, ou seja, em pleno o Halloween, se daria o famoso episódio com a Guerra dos Mundos, em que el não só provocou certa histeria nos Estados Unidos, como comprovou a eficácia e poder do rádio como ferramenta de comunicação das massas. Entre outras séries para rádio produziu e dirigiu estavam The Orson Welles Show, The Orson Welles Almanac, Ceiling Unlimited, Orson Welles' Commentaries e Hello Americans, que foi usado como pesquisa para seu filme inacabado It's All True.


Nas engrangens de Hollywood



Foram várias idéias, que assaltaram a mente de Welles, para o primeiro projeto da RKO, entre eles uma adaptação de Coração das Trevas de Joseph Heart (obra acabaria sendo usado por Ford Coppola como ponto de partida para Apocalipse Now, décadas depois). A única coisa que ele tinha idéia era toda a maioria das ações do filme seriam mostradas através da visão do protagonista utilizando uma câmera subjetiva. Graças à sugestão do roteirista Herman Mankiewicz, Welles achou um projeto que valia a pena. O primeiro título que o projeto recebeu foi American (Americano), mas eventualmente, ele ganhou o nome de Cidadão Kane (1941)

Novamente Welles experimentaria ser o centro da controvérsia. Graças à escritora de fofocas Louella Parsons, William Randolph Hearst, magnata de impressa, ficou convencido que ele era a base do filme. E assim todo seu império boicotou Cidadão Kane.

O segundo filme de Welles pela RKO foi Soberba, adaptação do romance, ganhador Pulitzer, de Booth Tarkington. Os executivos da RKO esperavam que esse longa lhes pagasse o prejuízo comercial do Cidadão Kane

Ao mesmo tempo, Welles, trabalhou em um thriller de espião, Jornada do Pavor, o qual foi co-escrito com Joseph Cotten. Nesse filme ele novamente atuaria e seria o produtor. É interessante notar que nos créditos apenas o nome de Norman Foster apareça como diretor, mas é impossível não evidenciar que Welles foi co-diretor nessa empreitada.

Durante a produção de Soberba, Welles foi convocado pelo governo para realizar um documentário sobre a América do Sul, com intenções propagandistas. Assim ele teve que deixar os Estados Unidos para começar esse novo trabalho, mas só depois de ter em suas mãos o filme completo para corte e pós-produção. Assim via telegrama ele poderia transmitir suas decisões quanto a edição. Porém o estúdio entrou em conflito com o pessoal da Mercury Productions e no final o filme saiu com menos 15 minutos e com nova edição. O documentário ganhou o nome de It's All True, mas Welles nunca o veria em vida. O material acabou sendo lançado só em 1993.

Em 1946, a International Pictures lançaria O Estranho, estrelando Edward G. Robinson, Loretta Young e Welles. Sam Spiegel produziu o filme, que detalhava a vida de um criminoso nazista que vivia incógnito nos Estados Unidos. Logo após filmaria A Dama de Shangai pela Columbia Pictures, onde atuaria ao lado de sua segunda esposa, Rita Hayworth e acabariam se separando logo depois. O filme acabou sofrendo uma re-edição pelo a mando do estúdio e assim acabou sendo retirado aproximadamente uma hora do filme, bem como o final desejado pelo diretor. Pela Republic Pictures, ele dirigiu Macbeth, que saiu 20 minutos a menos do que ele queria.


Fora do circuito e projetos independentes...



Em 1948 Welles deixou Hollywood em direção a Europa. No mesmo ano ele interpretou Harry Lime em O 3° Homem com Joseph Cotten, em um roteiro escrito em parceria de Graham Greene e o diretor Carol Reed. Da idéia do filme, nasceria uma série radiofônica, escrita por ele chamado The Lives of Harry Lime. E dela surgiria o conceito básico para outro projeto futuro, Grilhões do Passado.

De 1948 a 1952, Welles trabalhou em Otelo, filmado em locações da Europa e Marrocos. Por esse filme, acabaria ganhando a Palma de Ouro de Cannes, mas impressionantemente o filme não grande lançamento nos Estados Unidos, sendo exibido apenas em Nova York e Los Angeles. Em 1992, a restauração da versão americana casou certa controvérsia, tudo porque os norte-americanos preferiram usar um negativo a base de nitrato, a despeito da existência de várias cópias da versão européia. E somou-se a esse fato, a utilização de uma trilha sonora mudada. Mas mesmo assim o relançamento nos Estados Unidos foi um sucesso.

Welles estrelaria mais um de seus filmes, Grilhões do Passado, em 1955. Nele o diretor interpretava um magnata de passado obscuro, que teria sua vida desvendada graças as investigações de seu genro.

Em 1958, retornaria a Hollywood para filmar Marca da Maldade a adaptação do romance pulp Badge of Evil de Whit Masterson, a qual Welles afirmava que nunca o tinha lido. Originalmente ele fora contrato como ator, mas foi promovido pela Universal Studios quando Charlton Heston recusou estrelar o filme, a não ser que Welles fosse o diretor. Marca Da Maldade foi tirado de suas mãos, re-editado e algumas partes re-filmado. Em protesto acabou escrevendo um memorando de 58 páginas com sues apontamentos e objeções à versão do estúdio. Mas mesmo assim, o filme atravessou a Europa com sucesso, premiado na categoria mais importante na Brussels World's Fair, por críticos e juizes, como, François Truffaut e Jean-Luc Godard, os quais citaram, respectivamente, que o filme servira de inspiração para Os Incomprrendidos (1959) e Acossado (1960). Em 1998, o editor Walter Murch, trabalharia em uma versão que se aproximou muito da idealizada por Welles. Vale destacar também a produção de O Processo, em 1968, a partir da adaptação do livro de Franz Kafka.

Ele passou boa parte de sua carreira como diretor na Europa, ora financiado por suas interpretações em filmes, ora por produtores amigos. É verdade que nessa época ele teve maior controle na edição final do filme, mas a independência ganha, resultou em menores orçamentos e equipamentos.

Ele voltaria a Hollywood no começo da década de 70, onde trabalharia em vários filmes e projetos para televisão, incluindo The Other Side of the Wind, que só seria mostrado após seu falecimento. Outra obra de destaque dessa época foi F For Fake - Verdades e Mentira (1974) uma narrativa sobre várias formas de charlatanismo.


Welles e a caixa mágica



Os trabalhos televisivos de Welles são poucos conhecidos. Entre eles se destaca The Orson Welles Sketchbook de 1955, criado pela BBC no qual ele contava histórias e fazia desenhos para ilustra-las; no mesmo ano ele criaria Around the World with Orson Welles. Em 1956 apareceria no em um episodio de I Love Lucy chamado Lucy Meets Orson Welles. Dois anos depois faria The Fountain of Youth. Entre 1965 3 1984 Welles apareceu várias vezes nos programas Dean Martin's Variety Series e Celebrity Roasts. Bem como fez uma série de projetos entre eles, a História Imorta, filmado para a televisão francesa e Portrait of Gina na Itália. Uma versão televisiva sua de O Mercador de Veneza, nunca foi ao ar, porque parte do material foi roubado e nunca recuperado. Partes desse projeto podem ser visto no documentário de 1995, Orson Welles: The One-Man Band, onde são mostradas várias de suas obras inacabadas.


Fecham-se as cortinas



Em seus últimos anos, Welles, não conseguia financiar seus scripts para cinema. Uma vez chegou a reclamar que Steven Spielberg gastara US$50,000 em trenó Rosebud, mas dera um centavo para ele fazer um filme. Durante sua carreira ganhou um Oscar e foi nomeado por mais quatro. Em 1971 a Academia deu a ele um prêmio honorário pela sua versatilidade como criador de filmes.

Ele morreria em 1985, em sua casa em Hollywood, Califórnia, no dia 10 de outubro. Ele deixou alguns projetos encaminhados, como Rei Lear, The Orson Welles Magic Show, The Dreamers e duas histórias de Isak Dinesen que já tinham 25 minutos de filmagem realizados. Algumas semanas antes de falecer ele havia emprestado sua voz para Unicron, um dos personagens de Transformers: The Movie

Suas cinzas foram espalhadas em Ronda, Espanha, a seu pedido. De acordo com algumas fontes, algumas de suas cinzas foram levadas para a Plaza de Toros, a mais antiga arena de touradas da Espanha ainda em funcionamento.


Genialidades inacaba



Welles deixou outros projetos inacabados em sua vida, como uma adaptação de Don Quixote de Cervantes, que começou como um programa para a CBS e acabou evoluindo para um filme, que retratava as aventuras de Quixote e Sancho Pança nos tempos modernos. Porém o projeto foi abandonado quando Francisco Reiguera, o ator que interpretava Quixote, morreu. Uma versão incompleta do filme chegou a ser lançada em 1992.

Em 1970 Welles começou a gravar The Other Side of the Wind, estralando John Huston como um diretor que se esforçava para fazer seu último filme. Em 1972 foi divulgado que o filme está com 96% de seu material pronto. Mas o negativo ficou em um cofre até 2004 em Paris, quando Peter Bogdanovich, que também atuou na produção anunciou que tinha a intenção de completar a produção. O material foi incluído no documentário de 1993, intitulado Working with Orson Welles.

Outros projetos inacabados incluíam uma adaptação do livro The Deep de Charles Williams, que fora abandonado por conta da morte do ator Laurence Harvey, faltando uma cena para todo o material ficar pronto. E Anel de Corrupção que seria adaptado e filmado por George Hickenlooper em 1999


Curiosidades



Apesar de sua reputação como ator e diretor, manteve durante muito tempo sua licença junto a Magician's Union, além de praticar periodicamente mágicas. De acordo com Welles, assim ele poderia seguir adiante em uma carreira caso fosse impedido de seguir trabalhando no cinema.

Recusou o convite para dar voz ao personagem Darth Vader em Guerra nas Estrelas (1977). Mas chegou a narrar o tesar do filme. Também narrou os trailer do filme de Star Trek de 1979.

Possui uma estrela na Calçada da Fama, localizada em 1600 Vine Street.

Gravou duas narrações em músicas de heavy metal norte-americano Manowar. Dark Avenger saiu no LP Battle Hyms de 1982 e postumamente, em 1987, na música Defender no álbum Figthing The World

Francis Ford Coppola, fã de Welles chegou a cogitá-lo para o papel de Don Vito em O Poderoso Chefão. E ironicamente ele foi a primeira escolha para interpretar o Coronel Kutz em Apocalipse Now.

Frank Sinatra era o padrinho de suas filhas Christopher Feder, com Virginia Nicholson; Rebecca Welles, com Rita Hayworth e Beatrice Welles Smith (com Paola Mori)

Nasceu no mesmo dia que o Babe Ruth fez seu primeiro home run. Morreu no mesmo dia que o ator Yul Brynner.




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