Os incompreendidos

O cinema da França sempre teve um interesse em enfocar - com resultados artísticos completamente diferentes - a juventude revoltada e perdida, tanto de Paris quanto, principalmente, de suas pequenas cidades.
François Truffaut, o maior gênio cinematográfico que aquele país já produziu, teve tal tema como um de seus enfoques recorrentes, e realizou vários obras-primas sobre a juventude francesa -
Os incompreendidos,
Jules e Jim... já o contemporâneo
Cedric Klapisch é outro cineasta que, nitidamente, gosta de enfocar o mesmo tema - os jovens franceses, a forma como a sociedade os trata e sua visão do mundo - mas, via de regra, o faz através do rancor, da violência e da revolta, enquanto Truffaut expunha e denunciava essas questões (que são virtualmente as mesmas, passadas várias décadas) através do amor e da poesia.
Amigo É Pra Essas Coisas, do diretor
Pierre Jolivet, ocupa uma posição intermediária entre a poesia de Truffaut e a revolta de Klapisch. É evidente que não estamos comparando Jovilet com o gênio extraordinário de Truffaut - ao contrário, muitos dos (poucos) erros de
Amigo É Pra Essas Coisas se dão exatamente à pouca ousadia do cineasta e à sua pouca habilidade em inserir grandeza ao tema abordado.

Mas, por outro lado, é admirável a sensibilidade do diretor em conduzir seu filme (expondo o dia-a-dia de jovens franceses de uma cidade de médio porte não identificada) sem jamais apelar para a revolta e sem em momento algum fazer a apologia da violência, da desordem e do mal.
No filme, o protagonista Zim (
Adrien Jolivet) é um rapaz de classe média baixa, de origem polonesa, e que luta para se posicionar dignamente em meio a uma sociedade que não só não o entende com o discrimina - por ser pobre, jovem e ter origem estrangeira. É sintomático que meus melhores amigos sejam membros de minorias: o afro-europeu Arthur (
Yannick Nasso) e o árabe Cheb (
Mhamed Arezki). Ao grupo de discriminados, junta-se uma garota estrangeira, Safia (
Naidra Ayadi), a quem eles acabam de conhecer. O filme enfoca, com leveza e agilidade, o cotidiano desse microcosmos.
Jovilet enfoca seus personagens com imparcialidade, expondo seu dia-a-dia sem passar a mão na cabeça de nenhum deles, mas defendendo-os quando merecem - e o caso mais específico é o de Arthur, filho de um pai negro e racista, que tem horror a sua África natal e impõe ao filho toda uma gama de opressões, autoritarismo e preconceitos. Com esse interessante misto de neutralidade e denúncia, que o diretor não apenas mistura, como o faz bem,
Amigo É Pra Essas Coisas flui de forma interessante e conquista o espectador, que se afeiçoa sem maiores problemas aos personagens e acaba por se ver refletindo sobre eles. Uma curiosidade a respeito do filme é que sua trilha musical é de co-autoria do protagonista Adrien Jolivet, que a compôs em parceria com
Sacha Sieff - sendo o belo trabalho a primeira trilha sonora de ambos para o cinema.