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2003: quem foi o melhor do melhor?
Por Tiago Cordeiro — Terça, 23 de dezembro de 2003
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Para os amantes de quadrinhos, ficção científica e fantasia, 2003 foi um ano inigualável. Sem sombra de dúvida, nunca um ano foi tão bom em filmes desse gênero. Começando com Demolidor, tivemos ainda Matrix Reloaded, X-Men 2, Hulk, Terminator 3, Matrix Revolutions e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Dentre tantos filmes, não é uma tarefa fácil escolher o melhor e ainda mais difícil é defender tal escolha.
Para começar, é preciso fazer uma defesa dos filmes apenas bons. Jamais poderia dizer que Demolidor, Hulk e T3 deram tudo que suas respectivas franquias poderiam, mas considero uma temeridade afirmar que são péssimos filmes. Embora Demolidor esbarre na canastrice de Ben Affleck e em um roteiro com poucas surpresas, a fidelidade aos quadrinhos (como na cena da “morte” de Elektra) e a excelente atuação de Colin Farrel (Mercenário) valeram o ingresso. Ang Lee realmente exagerou em Hulk, equivocando-se ao querer estabelecer uma dicotomia entre criador e criatura que não caberia em um filme mais objetivo. Contudo, o mérito do diretor em encarar o Hulk de outra forma, explorando o seu drama psicológico, não deve ser desprezado em possíveis continuações.
T3 tinha a missão de suceder o excelente Terminator 2 de James Cameron e conseguiu se sair como uma boa história, pelas mãos do diretor Jonathan Mostow, e superar as ausências de Edward Furlong e Linda Hamilton (John e Sarah Connors no segundo filme), tendo a coragem de criar um desfecho que aponta um novo caminho para a franquia. E isso apesar de um dos grandes charmes de Terminator 1 e 2 ter sido lembrarmos que aquilo poderia acontecer a qualquer momento, o que acabou com o estabelecimento de uma diferença clara, perceptível e indiscutível entre a ficção e as possibilidades da realidade.
Muitas expectativas e muita polêmica: esse foi o antes e depois de Matrix Reloaded. Com a responsabilidade de repetir o sucesso do ótimo Matrix, o segundo filme da trilogia cometeu falhas, como o excesso de cenas de ação, beirando o exibicionismo. Apesar da verborragia confusa do já clássico diálogo de Neo (Keanu Reeves) com o Arquiteto (Helmut Bakaitis), Reloaded é um filme apenas razoável, que cumpre seu objetivo de prender a atenção dos espectadores para a continuação que estrearia meses depois (apesar de essa afirmação ser contestada pela baixa bilheteria que Matrix Revolutions obteve). Os defeitos quase indesculpáveis do filme não chegam a justificar a devolução do dinheiro do ingresso, mas permitem dizer que Reloaded esteve muito aquém do que todos esperavam. Todavia, os irmãos Wachowski talvez possam ser desculpados, já que o filme catapultou listas de discussão por e-mail, estudos e muitas conversas em torno de suas simbologias. Após revolucionarem a indústria do marketing com Matrix, os Wachowski fizeram de Reloaded a síntese do princípio mais perverso da publicidade: “falem mal, mas falem de mim”.
Bryan Singer havia feito um competente filme no final dos anos 90 com os idolatrados X-Men. Em sua continuação, Singer poderia ter optado por fazer apenas um bom filme novamente, mas foi além. Construindo a maior e melhor adaptação cinematográfica dos quadrinhos do ano e uma das melhores de todos os tempos, o diretor fez um excelente filme, capaz de entreter tanto os fãs de quadrinhos como aqueles que jamais leram uma história dos filhos do átomo, respeitando a concepção estabelecida no universo Marvel. Contudo, X-men 2 não tem a pretensão de ser inovador, explorando uma trilha difícil de ser seguida, mas que não chega a surpreender, embora também não seja previsível.
Por fim, chegamos ao que considero os dois melhores e, indubitavelmente, mais comercialmente importantes filmes do ano: Matrix Revolutions e O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei. Se você leu a minha crítica deste último, já deve saber que considero o fim da saga do Um Anel o melhor filme do gênero deste ano e um dos melhores de todos os tempos. A explicação (se é que cabe alguma) é que, embora feche com chave de ouro a trilogia Matrix, Revolutions repete erros que não poderiam mais ser ignorados, como o excesso de personagens que são pouco caracterizados. Com a inovação de deixar um último filme que encerra a saga (ao contrário de Terminator 3, por exemplo), mas suscita eternas discussões, Revolutions deixou para trás elementos simples, mas indispensáveis para um filme perfeito.
Enquanto isso, O Retorno do Rei é uma história que já nasce clássica. Épico, romance e, acima de tudo, uma história sobre amizade e lealdade, o filme dirigido por Peter Jackson é muito acima dos demais, porque é praticamente perfeito. Uma autêntica aula de como fazer qualquer pessoa se emocionar. Sem cair em uma breguice ou em típicos clichês, firme em seu propósito de fazer jus aos livros de Tolkien e contando com a atuação magistral de Ian McKellen, cercado da competência de Sean Astin (Sam) e outros, Peter Jackson é o grande gênio deste ano, responsável por fechar com chave de ouro uma das mais lindas histórias que o cinema conheceu sem cometer os equívocos de seus concorrentes. Enfim, viva O Retorno do Rei, mas viva também 2003, o melhor ano para quem gosta de sonhar com outros mundos e outras realidades, e que venha logo 2004 e além. A tarefa árdua de superar este ano que já chega ao fim será aguardada com muita ansiedade e, provavelmente, por muito tempo também.
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