E ele não se despenteia

É verdade que o Lex Luthor poderia ter mais destaque e bolar um plano menos estapafúrdio para conquistar o mundo. É verdade que Lois Lane está jovem demais. É verdade que aquele topetinho estilo "pega-rapaz" do homem de aço é risível. É verdade que o único tema musical notável é aquele composto por John Williams há quase 30 anos. É verdade que os personagens são imbecis e não percebem quem é Clark Kent. Mas tudo bem, apesar de coisas assim,
Superman - O Retorno é um grande filme.
Ele não levanta questões muito importantes além de velhos clichês melodramáticos, nem traz novidades na maneira de se tratar o super-herói mais bem penteado do cinema. Mas tem
Bryan Singer na direção, e isso faz diferença. Singer é um diretor que costuma transformar pequenas e desimportantes cenas em algo relevante. Ele sabe, por exemplo, como movimentar os atores e como dar o tempo certo a cada diálogo, e isso é de suma importância. Além disso, ele sabe perfeitamente como dar ritmo a uma ação.
Quando Superman retorna - após desaparecer por cinco anos, e tem que salvar um avião com Lois Lane dentro, toda a seqüência é perfeita. Tudo funciona bem: atores, efeitos, edição, música, fotografia, som (aliás, o som é incrível). Esta seqüência, que é estupefaciente e poderia ser o clímax de qualquer filme, serve só para apresentar o que as mais de duas horas de projeção ainda vão poder proporcionar.
Agora,
Kate Bosworth tem apenas 23 anos, e interpreta a Lois, que, você sabe, trabalha no
Planeta Diário há tempos, teve um
affair com o Superman e agora tem um filho de cinco anos e é noiva de outro cara. Ou seja, não dá para acreditar muito na personagem, porque está jovem demais. Margot Kidder, quando fez a sua Lois Lane, no filme de 1978, já tinha seus 29 anos.
E
Brandon Routh foi vítima de uma maquiagem que o deixa com o rosto perfeito demais, quase um boneco. Contudo, é preciso que se diga, ele convence como Superman. Não vai ganhar prêmios por sua interpretação, mas pode contar para os netos que fez bonito em seu primeiro filme importante.
Só mais uma coisa: o roteiro é eficiente ao juntar um pouco de drama, muita ação, algum suspense, boas cenas-chave, tudo pontuado por um certo humor, em especial nas cenas em que
Kevin Spacey se esforça para interpretar Lex Luthor. Isso sem nunca deixar as duas horas e meia de duração tornarem-se aborrecidas. Principalmente, trata com muita delicadeza a situação que se instala entre o Super e Lois (afinal, além de ela estar quase casada com outro, ganhou o Prêmio Pulitzer por uma matéria intitulada
"Por que o mundo não precisa do Superman"). Só falta um pouco de sangue, é verdade. Acontecem coisas absurdas em Metrópolis, e não vemos ninguém morrer. Se o Superman fosse um X-Men, isso seria bem diferente.
Mas, e isso é o melhor de tudo, ao acabar o filme, ficamos contentes porque Superman voltou.