Um filme que já nasce clássico

Em 1978,
Richard Donner fez
Superman - O Filme, considerado por muitos a melhor adaptação de uma revista em quadrinhos para o cinema. Com esse longa-metragem, Donner fez as pessoas acreditarem que um homem podia voar. Agora, em 2006,
Bryan Singer nos faz acreditar que um homem pode não só voar, como fazer coisas muito maiores. Como, por exemplo, transformar um projeto arrastado por mais de uma década num dos maiores filmes do ano, ou fazer de uma produção milionária um filme autoral.
Assistindo
Superman - O Retorno, chega-se à conclusão de que o último filho de Krypton não é o único sujeito digno da alcunha de "Superman". Bryan Singer também o é. O diretor de
Os Suspeitos e
X-Men pega a estrutura dos longas da década de 70, com seu visual atemporal e clima romântico, anaboliza a ação e usa os efeitos especiais que um orçamento de mais de 200 milhões de dólares podem lhe dar para entregar um filme para ficar na História do cinema.
Singer acerta desde os créditos iniciais, homenageando os filmes originais e fazendo a ligação com o novo, deixando claro que trata-se de uma seqüência, e não uma releitura ou repaginação (como o também ótimo
Batman Begins). O elo que une os longas antigos e o atual aparece ainda com a presença do finado
Marlon Brando como
Jor-El, o pai do Homem de Aço (papel que interpretou no primeiro filme e para o qual recebeu uma bagatela de quase US$ 4 milhões), o tema musical clássico de
John Williams e a interpretação de
Brandon Routh, parecidíssima com a do também já falecido
Christopher Reeve, no filme de 1978.
Vamos à trama: depois de uma viagem de cinco anos para conferir se seu planeta natal estava, de fato, destruído, o Homem de Aço volta à Metropolis para encontrar
Lois Lane quase casada e com filho, e seu maior inimigo,
Lex Luthor, livre da prisão e de volta à ativa. Além de ter de se readaptar às mudanças ocorridas em cinco anos, Superman tem que fazer reviver a esperança de um mundo que viu seu maior herói desaparecer sem mais nem menos, e teve de aprender a viver sem as suas intervenções milagrosas.
Depois de descobrir
Hugh Jackman em
X-Men, Singer nos apresenta Routh, um ilustre desconhecido que tinha feito apenas pequenas aparições em séries de tv, mas que traduz perfeitamente a nobreza de Superman e a timidez/paspalhice de
Clark Kent.
Kevin Spacey, que ganhou um de seus Oscars sob a tutela do diretor (coadjuvante por Os Suspeitos), está mais do que à vontade no papel de Lex Luthor e briga de igual para igual com a interpretação de
Gene Hackman nos filmes originais. A gracinha
Kate Bosworth está apaixonante como Lois Lane, enquanto
Sam Huntinton (
Jimmy Olsen) e
Frank Langella (
Perry White) aparecem bem no pouco tempo de tela que têm.
James Mardsen e o jovem
Tristan Lake Leabu também seguram as pontas como os respectivos noivo e filho da eterna namoradinha do Superman.
A
DC Comics, editora de propriedade do grupo Warner que publica as histórias do Azulão desde 1950, parece ter aprendido com a concorrente Marvel (de heróis como
Homem-Aranha,
Quarteto Fantástico e
X-Men) que o mais emocionante de seus personagens é serem humanos como aqueles que os veneram. Assim, seguindo a mesma linha realista que o já citado
Batman Begins,
Superman - O Retorno humaniza e moderniza o mito, ao pegar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX e transformá-lo no alienígena mais humano que poderia existir. Um herói superpoderoso sim, mas com defeitos e fraquezas, capaz de cometer equívocos e atos falhos e, acima de tudo, um sujeito que sofre ao ver a mulher amada com outro. Pois essa é uma das linhas narrativas predominantes no longa, a relação entre Superman e Lois Lane, abalada depois dos cinco anos em que ele esteve longe.
Durante todos seus 154 minutos de projeção,
Superman - O Retorno provoca no espectador não a sensação de que está vendo um produto de um grande estúdio que tem em vista o lucro da arrecadação, mas sim o sentimento de que se trata de pouco mais de duas horas do mais puro entretenimento, cheio de ação, romance e humor. É uma declaração de amor a um personagem que representa a luta pela bondade que ainda espera-se que exista no coração dos homens. Trata-se de um filme que já nasce clássico. Olhe para o céu, pois lá está o limite para a nova franquia que Bryan Singer acaba de criar.