
A boa notícia de
Superman Returns é que
Bryan Singer conseguiu não só manter tudo que havia de bom nos bons filmes do Super-Homem – os dois primeiros, com
Christopher Reeve – e ainda adicionou elementos novos, sem deixar desandar. A má notícia é que o resultado final não é aquela epopéia de grudar espectador na cadeira que sempre se espera de uma adaptação de quadrinhos para a tela.
Praticamente tudo o que você gostou no filme de
Richard Donner está lá: Christopher Reeve, ou pelo menos um clone mais jovem e menos carismático; Nova Iorque e o Planeta Diário; a Fortaleza da Solidão, no meio do gelo; Lex Luthor como o vilão magnífico que rouba todas as cenas em que aparece; Super-Homem e Lois Lane voando sobre os céus de Manhattan; Super-Homem parando balas no peito. E ainda descolaram um jeito de encaixar cenas antigas de Marlon Brando como pai do Super-Homem: nessas horas é que se acredita que só não utilizam atores mortos em filmes novos por falta de tecnologia.
Mas o filme é bem mais do que isso, com Bryan Singer repetindo a fórmula de sucesso do primeiro
X-Men ao selecionar o que houve de mais relevante em quase 70 anos de histórias em quadrinhos ao transpôr para as telas. Como o Super-Homem é um personagem muito mais icônico e tradicional do que os mutantes, seus roteiristas não se furtavam a seguir fórmulas e pouco sobrou na peneira: os fabulosos feitos físicos imaginados pelos criadores Siegel e Shuster, a concepção de John Byrne da década de 1980 e pouco mais.
Tanto melhor; menos trabalho para encaixar no tom pretensamente realista (
X-Men é quase uma ficção científica) os notórios desrespeitos à física newtoniana e à inteligência do leitor, sem os quais não haveria gibi de super-herói. Em outras palavras, quem foi ao cinema esperando ver o Super-Homem parar um avião com as próprias mãos vai sair feliz, e nesse embalo nem vai estranhar que um sujeito instruído como Lex Luthor, que ouve
Primavera de Vivaldi e cita filósofos gregos enquanto bola seus planos de dominação do mundo, cerque-se de capangas da mais baixa extração, do tipo que mal faz a barba, e tenha por namorada uma perua estúpida. Mas o filme é mais do que isso.
É o Clark Kent adolescente deslumbrado com a descoberta de seus poderes na fazenda, dando saltos gigantescos sobre a pradaria, em cenas de fazer inveja ao Tobey Maguire em
Homem-Aranha. É o Super-Homem pairando na estratosfera como um anjo da guarda de todo o planeta. É o espetacular resgate da nave espacial desgovernada, talvez a melhor cena de ação do filme. É
Kevin Spacey interpretando Lex Luthor, e não Kevin Spacey interpretando Kevin Spacey, como
Jack Nicholson fez com o Curinga. É
Frank Langella, o vampiro mais famoso do cinema, interpretando Perry White.
Além de sua dose de cenas magníficas, o roteiro supreende ao valorizar os personagens, trazendo uma Lois Lane redesenhada e mais interessante do que o estereótipo feminista banal de Teri Hatcher em
Lois & Clark e, especialmente na primeira meia-hora, uma bela exploração dos conflitos internos do Super-Homem na sua volta à terra, particularmente no que toca ao sentido de família, afinal, ele havia desaparecido em busca de vestígios de seu planeta-natal Kripton e, ao voltar, reencontra Lois Lane casada e com um filho: aqui está a maior ousadia do roteiro e a maior supresa do filme, diga-se de passagem, uma hipótese nunca antes considerada à sério nos quadrinhos, e que justifica por si só a ida ao cinema.

E de aperitivo, aqui e ali há referências para fãs identificarem: a frase
it’s a bird, it’s a plane, it’s Superman; o lema
to defend truth and justice (agora, sem
american way of life); a capa da
Action Comics 1 e a agulha entortando na pele do homem de aço estão todos espalhados ao longo do filme.
Não vai ficar para a história como o filme de Richard Donner (comparação injusta levando-se em conta o grau de interferência dos estúdios hoje e então), mas Bryan Singer fez o melhor que pôde: é superior a qualquer filme do Batman, desde 1989.