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Zidane, o cadilac francês
Por Pedro Alencastro — Segunda, 10 de julho de 2006
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Depois de anunciar meu retorno ao SoBReCarGa e me ausentar por alguns dias – setenta, para ser mais exato – dessa vez garanto que voltei para ficar. Com o encerramento da Copa do Mundo, já consigo raciocinar sobre outra coisa que não seja futebol. Aliás, nem tanto. Semana passada fui assistir Carros e, no ato, lembrei da trajetória da Seleção Brasileira rumo ao Hexa. Reparem na sinopse do filme:
Relâmpago McQueen (voz de Owen Wilson) é um carro de corrida ambicioso. Apontado pela mídia como a sensação da temporada automobilística, ele poderá ser o primeiro estreante a se tornar campeão da Copa Pistão.
Durante a prova decisiva, Relâmpago despreza o auxílio de sua equipe e, na última volta, estoura os pneus traseiros. Ao perder velocidade, dois adversários se aproximam e todos cruzam a linha de chegada juntos. A organização do torneio resolve então marcar uma corrida de desempate na Califórnia.
Se substituirmos uma que outra palavra no trecho acima, teremos um perfeito prelúdio da eliminação brasileira na Copa. A forma como o protagonista do filme é apresentado, exibindo-se para os flashs das máquinas fotográficas, lembra muito a badalação feita em cima dos nossos jogadores.
Na fase de preparação, os treinos da Seleção foram transformados em verdadeiros espetáculos. Milhares de pessoas pagaram (e caro) para se aglomerar histericamente nas arquibancadas e ver seus ídolos fazerem exibições com a bola. Como não poderia deixar de ser, a imprensa contribuiu com o oba-oba, rasgando elogios à equipe dirigida por Carlos Alberto Parreira, considerada praticamente imbatível.
Como se não bastasse o Hexa, havia no grupo atletas prestes a realizar façanhas pessoais. Ronaldo, por exemplo, precisava marcar três gols para virar o maior artilheiro da história das Copas. E conseguiu (além de atingir outra marca, a de jogador mais gordo do torneio). Já o capitão Cafu almejava duas metas. A primeira, superar o número de atuações com a camisa do Brasil, e a segunda, erguer a taça de campeão por duas vezes consecutivas, um feito (ainda) inédito.
Embora não tão implícita, essa cobiça por recordes individuais remete ao egocentrismo de Relâmpago. Cafu, inclusive, ficou no banco de reservas contra o Japão, nitidamente a contragosto, pois pretendia somar partidas no currículo para quebrar o tal tabu.
A prepotência, outro característica marcante do personagem, também encontra arquétipos na Seleção. Vejamos o exemplo de Zagallo. Com suas bravatas ufanistas do tipo “todos tremem com a amarelinha”, o auxiliar técnico servia como porta-voz tupiniquim do descaso com os adversários. E pior que ele não foi o único.
Na véspera do confronto contra os franceses, um repórter perguntou para Parreira se a equipe faria marcação especial em Zidane, consagrado meio-campista da França. O treinador, com sua arrogância típica, respondeu que o Brasil jamais faria isso e que nem mesmo Maradona (considerado um dos maiores jogadores da história) havia recebido tamanha atenção da defesa brasileira.
Parreira talvez não lembre, mas esse mesmo Maradona foi responsável por armar a jogada que eliminou os brasileiros na Copa de 90. E como a história se repete, coube a Zidane, justamente ele, o papel de carrasco da Seleção. Mais do que isso, Zizou (para os íntimos) contrariou a expectativa de que faria diante do Brasil a última partida de sua carreira. E com um humilhante chapéu sobre o rival Ronaldo, provou que as aparências enganam. Apesar da idade, ele ainda é, para todos efeitos, o melhor do mundo.
Guardada as proporções, um episódio similar ocorre em Carros. Durante a viagem para a Califórnia, Relâmpago chega acidentalmente numa pequena cidade da Rota 66 e acaba provocando alguns estragos. Lá, é desafiado por Doc Hudson, um cadilac antigo dublado por Paul Newman, em seu derradeiro trabalho.
Vencendo o duelo, Relâmpago poderá deixar a cidade imediatamente, sem precisar reparar os destroços. Diante de um adversário aparentemente inferior, o jovem dá a vitória como certa. No fim, acaba derrotado e aprende uma valorosa lição sobre humildade – ao melhor estilo clichesão, afinal de contas, estamos falando de um desenho da Disney.
Retomando as devidas coincidências, podemos dizer que Doc Hudson está para as pistas, como Zidane para os gramados. Só que ao contrário de Relâmpago, Parreira não aprendeu absolutamente nada com o fracasso brasileiro na Copa. Após a eliminação, o treinador negou sua falha na estratégia para vigiar Zidane.
Cafu foi além. Campeão em 1994 e 2002, ele esqueceu que até mesmo os heróis tem seus dias de vilão, como Zidane, que na final contra a Itália, saiu de campo após agredir um adversário. Questionado sobre as vaias da torcida, Cafu respondeu, como quem se julga intocável: “Vaias? Não ouvi... E certamente não foram para mim.”.
A propósito, já que estamos falando em vaias, Carros é um daqueles filmes que merecem aplausos. Muito bem produzido, inteligente e espirituoso – como costumam ser os trabalhos da Pixar – o desenho é diversão garantida. Recomendo a fita para todos, inclusive para Parreira usar durante suas palestras motivacionais.
Que nota eu daria? Bem. Para Carros, quatro raios. E para a Seleção Brasileira, um zero bem redondo... ou seria quadrado?
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