 |
O embuste de B.M.Bendis
Por Rafael Lima — Quinta, 6 de julho de 2006
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Eu já tinha perdido a conta de há quantos anos eu ouvia elogios a Brian Michael Bendis quando decidi comprar seu primeiro álbum. Encontrei-o por acaso, meio escondido entre os livros de humor; chamava-se Fortune and Glory. Era o relato de sua experiência tentando vender roteiros para Hollywood, e me atraiu por 3 motivos: ser uma história pessoal (o que costuma render bons quadrinhos, vide Crumb ou Joe Sacco), ser desenhada pelo autor (assim dava para julgar se ele também era bom artista) e ser realista (já que não leio os super-heróis que lhe fizeram a fama, regularmente, há uns 15 anos).
Os avisos da contra-capa eram promissores: se BMB ficou conhecido como roteirista de quadrinhos, era de se esperar que sua experiência com cinema tivesse sido frustrante, e quem sabe o álbum fosse um vingador ajuste de contas com um mercado que, no fim, não soube aproveitar seu talento. Podia ser também um balde de ressentimento, mas isso não me preocupava; a verdade também frutifica na árvore do rancor.
A impressão que uma primeira folheada causou, se não de desapontamento, pelo menos também não foi de grandes empolgações: Bendis, no traço, se vale de um estilo cartunizado, cheio de linhas firmes e arredondadas – com algo semelhante, Antonio Éder fez um dos melhores álbuns do ano passado, O Chalaça – mas com limitações evidentes. Não demonstrava, de forma alguma, o talento que um Jeff Smith mostrou com expressões visuais em Bone, muito menos o de Schulz, em Peanuts. Pior: o uso de cenas exaustivamente repetidas evidenciava essa limitação.
Dois grandes problemas saltaram aos olhos durante a leitura: diagramação e narrativa. Talvez o primeiro seja o grande problema de Brian Michael Bendis, que confessa ter ido parar nos quadrinhos por culpa do trabalho de Frank Miller no Demolidor, título, aliás, que lhe deu mais notoriedade. Se eu também não tivesse uma história pessoal com aquela série, não estaria escrevendo esta coluna.
Bendis parece que mastigou cada um dos brilhantes truques de câmera e diagramação bolados por Miller para enfatizar a dramaticidade das cenas e aumentar o suspense da narrativa e cuspiu um repertório de cacoetes visuais repetidos sem a menor sem cerimônia, como que para provar que ele sabe manipular esses elementos (“agora, só com quadros verticais! Agora, só com closes!”), comprometendo o andamento do roteiro.
O mais banal e o mais típico de seu estilo são os diálogos coalhados de balões que
ocupam páginas e mais páginas. Aqui dou um desconto, até porque não era de se esperar muita ação num roteiro cuja premissa é um escritor tentando vender seu peixe, mas o fato é que a leitura fica excessivamente cansativa, com tanto texto pelas páginas. Falta a Bendis aquele toque de sutileza que elimina os excessos deixando apenas o essencial, e permite ao leitor compreender o que está se passando com uma rápida vista d’olhos na página. Exatamente como Frank Miller fazia em seus bons tempos (Sin City já é outro barato, é a apologia do curto e grosso). Ele dá bandeira dessa prolixidade estilísitica em um dos episódios.
Seu consultor de texto liga para avisar que o esboço do roteiro tinha ficado muito grosso; o comum era terem entre 100 e 120 páginas e o dele tinha... 280. Pode ser engraçado a posteriori, mas evidencia um problema grave de BMB: encantar-se pelo próprio texto, deixando-o pesado, e o que é pior, lento, apesar das frases curtas. Isso acontece porque, aparentemente, ele está incluindo sempre uma linha a mais apenas para esticar o troca-troca, normalmente uma que não acrescenta informação nenhuma ao diálogo: quando sua esposa informa que um agente desconhecido tinha deixado um recado telefônico, ele pergunta, “desconhecido?”, ao que ela responde, “desconhecido”, e lá se vão dois quadros. Coisas assim se repetem de forma muito cansativa pelo álbum todo.
Outro erro básico em que a diagramação acaba comprotendo a narrativa ocorre quando Bendis força a leitura de balões em sentido anti-horário, completamente anti-intuitivo para a leitura da página – não chega a ser exceção, esse ele comete umas 2 ou 3 vezes. Mas nada supera o abuso de um recurso utilizado com maestria na última história que Miller fez para o Demolidor, o zoom progressivo de um detalhe da cena, até que ele se transforme num borrão sem sentido, fazendo a imaginação do leitor viajar enquanto ele “ouve” o texto. BMB mostra que sabe como empregar esse recurso, mas não tem pudor de esvaziá-lo desavergonhadamente ao repeti-lo por 4 páginas seguidas. Lamentável.
Se a diagramação e a escolha dos planos é o pior problema de Bendis, ao enjaular, truncar e complicar o bom curso narrativo, me surpreendeu ver que seu texto também não é dos mais inspirados. Para alguém que se rotula como autor alternativo e se dá ao trabalho de produzir um álbum gozando as idiossincrasias do mundo corporativo, ele aparece abanando demais o rabinho para Hollywood: fica deslumbrado com a presença de Uma Thurman ao fundo de uma conversa, comemora cada almoço grátis como se fosse um gol, adora o merchandising que recebe dos estúdios – sim, é um mundo estúpido e acerebrado, mas quanto esforço para fazer parte dele! Não existe aquela crítica mais ácida que aflora, sim, do ressentimento em não fazer parte de tudo, mas tem o mérito de revelar engrenagens podres do sistema. Bendis parece se conformar em seu papel de coadjuvante.
Até quando recebe a primeira bolada e responde como gastaria seu dinheiro, a resposta é desapontadora: meias. Nem seu único exagero consumista salva-lhe a reputação – então ele estava dando aquele duro todo por causa de... meias?
Pode ser que ele seja um brilhante autor de histórias policiais, pode ser que renda muito mais na mão de outros desenhistas, pode ser que eu tenha escolhido exatamente a pior obra para travar contato com ele. Mas até prova do contrário –alguém me emprestar um volume encadernado do Demolidor ou de Powers que me faça mudar de idéia, porque eu não estou disposto a investir mais dinheiro nele – Brian Michael Bendis, na minha humilde opinião, vai ocupar o posto do maior embuste nos quadrinhos desde Todd McFarlane.
E eu que achei que o cara do Comics Journal tinha pegado pesado...
|
 |