Nós Vimos: Bubble

Por Carlos Dunham — Quarta, 5 de julho de 2006

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Um primor de estrutura narrativa

Steven Soderbergh é um dos cineastas de carreira mais peculiar no cinema contemporâneo: amigo pessoal de George Clooney, a quem dirigiu em vários filmes, o cineasta é sócio deste em uma produtora, a Section Eight, através da qual produzem filmes de sucesso, como a franquia Onze homens e um segredo - cujo terceiro filme da série já está em pré-produção. Com o dinheiro arrecadado, Soderbergh e Clooney investem nos filmes que realmente gostam de fazer - e um exemplo desses filmes é Traffic, que deu a Soderbergh o Oscar de melhor diretor de 2000. Traffic, para mim, não chega a ser um bom filme: no meio caminho entre o cinemão e os filmes independentes, a realização peca, entre outros motivos, exatamente pela indefinição de sua linha narrativa.

Pois é exatamente a qualidade da narrativa o que mais chama a atenção em Bubble, o novo filme do cineasta: definido como uma outra experiência de Soderbergh, Bubble é um filme independente, pessoal, mas tão bem narrado que está apto a dialogar - e bem - com todos os seus espectadores. Há rasgos de John Cassavetes e Jim Jarmusch na forma como o diretor conduz a realização, que transita sem transtornos do drama humano ao suspense policial.

Inteiramente filmado no interior do Ohio e contendo apenas atores não-profissionais em seu elenco, o filme penetra, de forma mínima, minimalista, no cotidiando de três operários de uma fábrica de bonecas: Martha, uma mulher de meia-idade, feiosa, obesa, que cuida do pai idoso; Kyle, um garotão bonito, e de uma beleza verdadeira, não cultivada nas academias das grandes cidades; e a recém-chegada Rose, uma jovem mãe-solteira e aparentemente cleptomaníaca.

Na trama, Martha nutre uma paixão não correspondida por Kyle, que, por sua vez, se envolve com a graciosa Rose. Contudo, não é a estória em si o que realmente conta em Bubble - embora o roteiro enxuto funcione muito bem. O que realmente se destaca na realização é o desprendimento com que Soderbergh filmou: em cada fotograma, fica a sensação de que o diretor quis meramente contar uma boa estória, sem compromisso algum com nada que não fosse isso, sem pressão alguma da parte de estúdios ou produtores. A montagem, que, caracteristicamente nos filmes do cineasta é tão brilhante quanto agitada, composta por rupturas bruscas e ágeis, aqui flui com uma discrição que, por mais que mudem os planos, ambientações e sequências, dá a impressão que tudo foi filmado sem cortes, de tão sensível que é. E a fotografia, límpida, digital, tem como única pretensão registrar as cenas, jamais se candidatando a ser um espetáculo visual que destoasse do filme.

Bubble está sendo lançado de forma discreta, tão discreta como o cineasta o fez. É possível que não lote salas e até mesmo que fique pouco tempo em cartaz. Mas fica a sensação de que, enquanto a maioria dos cineastas ditos independentes gostam de filmar sexo, violência e consumo de drogas, Soderbergh, um vitorioso do Cinema, aproveitou o seu imenso talento para criar um filme que exala uma deliciosa sensação de paz, oriunda da leveza e graciosidade com que o diretor impregnou esse seu momento de entrega e dedicação à Arte que ama, e que certamente irá encantar o público talvez com a mesma doce firmeza com que o Cinema encanta Soderbergh.




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