E por falar em saudade...

Produção argentina dirigida pela cineasta estreante
Paula Hernández,
Herencia é uma realização de 2001, que apenas agora, cinco anos depois, chega aos cinemas brasileiros. É curioso observar como, neste caso, o atraso no lançamento, de certa forma, acabou auxiliando ainda mais o público a saborear esse belo filme:
Herencia é uma realização que fala exatamente sobre as perdas e ganhos da vida, fazendo, através de sua protagonista Olinda (em brilhante desempenho de
Rita
Cortese), uma análise sobre o que cada um de nós herda da existência e do caminho que optamos por criar para nós mesmos.
Olinda é uma italiana que vive há anos em Buenos Aires. Está tão integrada à capital portenha que nem sotaque tem mais (auxilia e muito a identificação do público com essa integração da personagem a escolha da diretora em optar por uma atriz argentina, e não
italiana). Contudo, as saudades da terra natal continuam, eternas, perenes - porém, de certa forma, cristalizadas no fundo do coração.
Dona de um bar que já viveu momentos melhores (como o
Clube da Lua do homônimo filme de
Juan José Campanella
que, por sinal, também é uma produção argentina), Olinda não tem tempo sequer para si mesma. Até que bate à sua porta um rapaz alemão, ou seja, um estrangeiro, como ela também o é (ou como fora um dia?) - Peter, interpretado por um talentoso
Adrián Witzke, aqui em seu segundo filme. Peter veio de sua terra natal com o objetivo de encontrar uma jovem que conhecera através da Internet. E, logo em seu segundo dia em Buenos Aires, é assaltado. Sem um centavo no bolso, pede emprego no bar de Olinda, que recusa. Ao vê-lo, porém, dormindo na calçada em frente, ela se arrepende e o contrata.
Surge entre a senhora (ex?) italiana e o jovem alemão uma relação de amizade que desperta na dona do bar a saudade adormecida de sua terra natal. E Olinda finalmente decide por em prática seu sonho de retornar a sua terra natal.
Com 32 anos à época das filmagens, Paula Hernández conduz a narrativa de
Herencia como uma boa crônica, maturando a trama com uma sensibilidade inata
e transformando seu filme em uma realização absolutamente cativante:
Herencia é um filme sobre a saudade, sobre as heranças que a vida nos permite acumular e sobre tudo aquilo que, conscientemente ou não, guardamos no coração. E, justamente por ser um filme sobre o que guardamos no coração, talvez seja um filme sobre si mesmo.