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Crítica? Que crítica?
Por Douglas Donin — Segunda, 3 de julho de 2006
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O leitor mais atento pode ter notado que, ao contrário do que acontece regularmente – quando trazemos a vocês nossas impressões e opiniões antes das estréias, para ajudá-lo a decidir se vale a pena assistir ou não determinado filme - nós aqui do SoBReCarGa, excepcionalmente, não exibimos resenhas de O Código da Vinci.
Ora, justo no maior lançamento do ano até agora! Por que será que, logo no filme mais esperado do primeiro semestre, fomos tão negligentes? Resolvemos boicotar o filme?
Longe disso. Não resenhamos o filme porque, simplesmente, não fomos convidados para vê-lo. Aliás, ninguém foi convidado. Não houve pré-estréia ou sessão de imprensa. Com exceção de um único e tímido micro-evento em São Paulo, a ninguém foi permitido falar sobre o filme antes da sua sexta-feira de estréia. Os espectadores tiveram de comparecer ao cinema às cegas.
Por que isso ocorreu? Ora, preocupação em não revelar o final da história não era, já que praticamente todo mundo leu o tal livro. Seria a mesma coisa que não permitir pré-estréia de A Paixão de Cristo para evitar que alguém saísse por aí revelando que o personagem principal morre no final (aliás, o próprio trailer de O Código da Vinci já entrega a grande surpresa do final). E se nem George Lucas, cheio de frescuras com suas obras que é, nega o acesso a seus filmes à imprensa, por que isso?
Simples. O Código da Vinci é uma bomba. É um desperdício de celulóide, dinheiro e talento. Todos sabiam disso, desde Cannes, onde ele foi recebido de maneira desastrosa. A distribuição simplesmente quis evitar que nós, a imprensa, espalhássemos este desagradável fato por aí, o que certamente faríamos.
Milhares de pessoas planejavam ver "aquele filme do qual estavam todos falando" logo na estréia, as filas estavam grandes (às vezes para simplesmente reservar ingressos para próximas sessões) e notas pouco elogiosas em jornais e sites sobre os inúmeros defeitos do filme poderiam dissuadir uma parcela destes curiosos a abandonar seus planos para sexta-feira. Claro que a imprensa iria resenhar o filme como ele merecia no sábado ou no domingo, mas, na cabeça dos espertalhões responsáveis pela tática, eles teriam um dia de vantagem sobre nós e o público.
Ora, trata-se de tapar o sol com a peneira, pois os jornais de sábado foram cruéis do mesmo jeito. Não sei o quanto esta "estratégia" de chutar o inevitável para o dia seguinte surtiu efeito em termos monetários. Talvez mesmo se os jornais e sites estampassem na própria sexta-feira de estréia os grandes, enormes, gigantescos deméritos da obra a disposição do público ainda assim não mudaria, em razão da forte polêmica que cercava o filme. E grande parte do público não liga para críticas negativas, de qualquer forma.
Não reivindico o direito da imprensa ter acesso prévio a todas as estréias, porque, para começar, nem temos este direito. Se podemos escrever com antecedência, é por uma gentil cortesia das distribuidoras. O fato disso já ter se transformado em hábito não o torna direito adquirido. No entanto, ainda fica um gosto amargo de picaretagem e desonestidade por trás da decisão. A convivência, até então pacífica e amistosa, da imprensa com as distribuidoras pareceu dar passos em uma direção que ninguém gostaria.
O Código da Vinci não foi a primeira "bomba surpresa" que atingiu o público enquanto os críticos estavam de mãos atadas. Nem, possivelmente, será a última. A prática de cancelar sessões de imprensa, que arrecém começa a aflorar por aqui, nos Estados Unidos já preocupa bastante os profissionais da área. O crítico Stephen Humphries alertou que, ano passado, apenas três filmes não foram mostrados à imprensa nos EUA. Neste primeiro semestre, o número já passa de 12. Parece que os estúdios estão começando a adotar práticas agressivas para garantir bilheteria a qualquer custo.
Impedir que a imprensa especializada indique quais filmes são e quais não são dignos do seu ingresso, no entanto, parece a mais inocente destas técnicas, se compararmos o fato com a baixeza de outros recursos bem mais revoltantes. Um deles, existente há bastante tempo, é o que chamamos de "marketing invisível", prática de propaganda para alguns válida, para outros (eu incluso) imoral.
Trata-se de fazer propaganda sem que o consumidor perceba. Por exemplo, inundar sites de cinema onde o público pode dar sua opinião com um mar de reviews falsos emitidos por usuários fantasmas, destinados a ludibriar o leitor e fazê-lo acreditar que, sim, um monte de gente viu determinado filme e adorou. Façam uma experiência: na véspera do lançamento americano de algum filme, dêem uma olhada nas críticas publicadas no site Rotten Tomatoes. Lá podemos ver o que a imprensa especializada, em geral, acha de um filme em específico. Todas as notas são retiradas de sites e jornais, e mesmo grandes lançamentos freqüentemente são esquartejados pela crítica, sem dó ou piedade.
E, quando lá acharem um filme que ainda não estreou e do qual todos parecem falar deselogiosamente, então comparem com os "reviews" do site International Movie Database (IMDB), o mais consultado guia de cinema da Internet. Não se espantem se aqui as notas foram muito - surpreendentemente – melhores. O fato é que no IMDB qualquer um pode se cadastrar e enviar uma avaliação do filme. E, em "qualquer um", inclua alguém pago pela distribuição do filme. Em quase todos, senão todos, os filmes em que há uma grande espera pelo lançamento, pipocam reviews do tipo "eu tive a sorte de ver este filme ontem, e é espetacular, o melhor filme que eu vi na vida". Muitas vezes, em grande número. As notas estão lá em cima. Depois que o filme estréia, às vezes a história muda completamente em poucas horas.
Às vezes a prática beira o absurdo. Na época de lançamento de Cowboy Bebop: o Filme, por exemplo, a distribuidora do desenho animado nos Estados Unidos resolveu "contratar" agentes de marketing pouco comuns: encontraram meia-dúzia de rapazolas fãs da série, e os convenceram a passar a maior parte dos dias que antecederam a estréia entrando no maior número de salas de bate-papo, fóruns e sites de animação japonesa para dizer que "já viram o filme e é espetacular". O pagamento? Camisetas, bonés e outras quinquilharias com a marca do desenho que sobraram da campanha de promoção.
O anonimato garantido pela Internet é perfeito para o marketing invisível. Comentários em blogs pessoais, criação de blogs falsos, participação anônima em listas de discussão, envio de e-mails em massa simulando ser de uma pessoa real, vale tudo. Eu, pelo menos, não imaginava que, na primeira oportunidade, as empresas responsáveis pela promoção de um produto iriam aderir a este tipo de desonestidade.
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