Confissões, jazz e pé na estrada.
Jack Kerouac foi um escritor, novelista, poeta, artista norte-americano. E um dos mais proeminentes membros da Geração Beat. Seus textos, majoritariamente autobiográficos, circundam geralmente em torno de suas próprias aventuras pelo mundo, e também em torno de alguns de suas próprias reflexões que surgiram durante o curso de sua vida.
Sua prosa espontânea e confessional inspirou muitos, entre eles Tom Robbins, Richard Brautigan, Hunter S. Thompson, Ken Kesey, Tom Waits e Bob Dylan.
Kerouac foi um romântico extremado e radical. Sua vida, um percurso em busca do impossível: a concretização de seus ideais, de uma ética da pureza, a ressurreição de seus personagens queridos, a recuperação do tempo perdido, da infância idílica, da inocência original do ser humano, da vitória sobre a morte.
Nesse percurso, viajou por seu país e por outros lugares do mundo, viveu e atuou intensamente, buscando sua individualidade perdida, e tudo que isso implica: sexo livre, drogas e muito jazz, ao mesmo tempo em que sonhava com país que estava se perdendo, uma América mais ingênua e genuína. Assim sua obra é a o reflexo dessa tentativa de reencontrar seus entes queridos, sua língua natal, seus amigos e seus laços comunitários, vencendo o tempo e o destino.
Uma coisa é certa. A vida de Kerouac transcorreu sob o signo da perda e da solidão. Entre as mais marcantes estavam a de seu irmão Gérard, morto aos quatro anos de idade, a de seu melhor amigo de infância, George Sampas, irmão de sua mulher Stella, morto na 2ª GGM e de seu pai. Mas outra perda que ele sempre pranteou foi a de sua língua natal, o dialeto franco-canadense, Kerouac só começaria a aprender o a falar inglês com seis anos, pois em sua casa só se fala o dialeto franco-canadense.
Onde tudo começou

Jean-Louis Lebris de Kerouac nasceu a 12 de março de 1922, em Lowell, Massachusetts. Filho de Leo-Alcide Kerouac e Gabrielle-Ange Lévesque, ambos nativos da província de Quebec no Cánada. Como muitos de sua geração, os Lévesques e os Kerouacs faziam parte de canadenses que imigraram para a região americana da Nova Inglaterra a procura de emprego. . De ascendência franco-canadense e formação católica, numa América protestante, Jack Kerouac teve seu quinhão trágico na vida real e dele fez a sua escrita.
Graças a sua desenvoltura com os esportes, tornou-se a estrela no time local de futebol americano. E assim conseguiu remediar a situação financeira da família conquistando ao conquistar bolsa de estudo para o Boston College e, logo em seguida, na Columbia University em Nova Iorque. Ainda calouro, Kerouac teve problemas que custaram sua bolsa de estudo. Discutia muito com o treinador, por deixa-lo no banco e se não bastasse quebrou a perna.
Durante sua estadia na Columbia University,
William S. Burroughs e Kerouac tiveram problemas com a lei, graças a uma falsa denuncia de assassinato. Esse incidente seria a base de um romance policial que escreveriam a quatro mãos em 1945, intitulado
And the Hippos Were Boiled in Their Tanks, mas ele nunca seria publicado, a não ser uma parte do manuscrito em uma compilação sobre Burroughs chamada
Word Virus.
Após a saída da faculdade Keroauc foi morar com sua antiga namorada, Edie Parker, em Nova Iorque. Alias a vida amorosa de Kerouac é um caso a parte. Freqüentemente apaixonado, mas tendo uma personalidade dividida, sua relação com as mulheres era um reflexo disso. Só conseguia ter dois tipos de relação. Um deles, breve, intenso, sensual, com figuras atípicas, excêntricas, marginalizadas, discriminadas, como Mardou, Tristessa e a mexicana Terry, com alguém que fosse um prolongamento de sua mãe e de sua família, como Stella Sampas, que foi sua namorada de juventude em Lowell, com quem se casou em 1962 e viveu até o fim. Seus dois casamentos anteriores não duraram, juntos, mais que um ano; o primeiro, de 1945, com a própria Edie Parker, dois meses.
Textos e amigos desajustados

Foi em Nova Iorque que ele conheceu as pessoas que chamaria de amigo e aqueles que povoariam seus romances: a chamada Geração Beat, que incluíam os escritores e poetas como
Allen Ginsberg, Neal Cassady e
Lucien Carr.
Em 1942 entraria para a Marinha Mercante, onde ficou algum tempo, onde provavelmente adquiriu o gosto pela vida errante e pela aventura.Em 1943 se alistaria a Marinha dos Estados Unidos, porém seria dispensando em meio a Segunda Guerra graças à avaliação psiquiátrica.
Entre suas viagens marítimas e estadias em casas de amigos, começou seu primeiro romance,
Town and City, que seria publicado em 1950 sob o nome de ”John Kerouac”. A obra era uma cartase dos tormentos que sofria para equilibrar a vida selvagem da cidade com os seus valores do velho mundo. Diferentemente de seu trabalhos posteriores, a obra ainda não possuía o que seria conhecido como estilo Beat. No caso de Town and City livro é claramente influenciado pelo modo de escrever de
Thomas Wolfe. E apesar do livro ter lhe rendido e lhe renderia prestígio os críticos, passaria muito tempo para que ele publicasse novamente
Abandonando o mar, resolveu explorar seu país. Tomando o rumo da costa oeste, inventou uma América nova que ficava no meio de uma estrada, no nada. E assim em uma de suas viagens escreveu uma das novelas que definitivamente mudariam sua vida e a cara do mundo em que vivemos hoje
Pé na Estrada – On the Road.
A obra era a tentativa de descrever as surpreendentes viagens que vinha fazendo com o amigo de Neal Cassady. Kerouac experimentou formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido, sem parar para pensar ou formular frases, influenciadas pela cadência beats do jazz e pela escrita automática dos surrealistas. O manuscrito resultante sofreria 7 anos de rejeição até ser publicado.
Jack escrevia vários romances, que ia guardando em sua mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país. Dela sairiam outras obras “de estrada”, tais como, Os Subterrâneos, Tristessa, Os vagabundos iluminados (The Dharma Bums), Big Sur, Desolation Angels e
Viajante solitário' (Lonesome Traveller) .
Principalmente nestes textos fica impresso sua vitalidade literária, resultado de sua vontade de viver e de estar na estrada, em movimento. Ele queria que seu texto capturasse o pensamento em movimento com o máximo de fidelidade à sua ocorrência (“first thought, best thought”), com uma atenção mais dirigida ao som da linguagem. É um modo de viver e de escrever que se baseava no movimento, no não se estagnar, no buscar algo novo sempre, mesmo não sabendo exatamente o que se está procurando. Simplesmente indo.
O próprio Kerouac explicava que seu método de composição, que tomava como base a respiração e a improvisação de artistas do bebop, como
Charlie Parker, Dizzy Gillespie e
Thelonious Monk: “Jazz e bop, no sentido de um saxofonista tomando fôlego e soprando uma frase em seu sax, até ficar sem ar novamente e, quando isso acontece, sua frase, sua declaração foi feita... É assim que separo minhas frases, como separações respirantes da mente.”
Sucesso e declínio.

Mas os estereótipos criados ao redor dos beats pela imprensa e pela crítica da época, enfatizando mais seus estilos de vida “porra-louca” do que suas obras, acabaram prejudicando a recepção crítica da contribuição beat. Críticos se recusavam a encará-los com seriedade enquanto criadores de uma nova poética, esquecendo-se de que os principais beats eram figuras com uma bagagem literária respeitável.
A partir dessa súbita celebridade, ele passa por um declínio moral e espiritual. Tentando viver a imagem selvagem que tinha apresentado em On the Road, entregou-se ao alcoolismo, o que apagou o seu brilho natural e lhe envelheceu prematuramente. Ele, a esposa e a mãe mudam para St. Petersburg, na Flórida, onde ele morre em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, destruído pela bebida.
É inegável atribuir à sua escrita um caráter confessional, inclusive é ela que desperta tanto fascínio e identificação entre os leitores. Ao apresentar um jovem cheio de dúvidas e medos, o qual oscila entre a responsabilidade familiar e a curtição do momento e que ora se preocupa com uma nova grande revolução da alma e da sociedade e outras em arranjar uma namorada que Kerouac nos aproxima.
Mas afinal o que é Geração Beat?
Foi um movimento de contracultura que teve destaque quase que total na literatura. O movimento nasceu em meados da década de 50 em São Francisco a partir um grupo de universitários da faculdade norte-americana de Colúmbia, ou seja, de Kerouac e seus amigos, entre eles, os já citados, Ginsberg, Cassady e Burroughs. Alguns atribuem o famoso recital de poesia na Six Gallery realizado em 1955.
O termo Beat, usado para classificar essa geração, é de origem controversa. Jack Kerouac queria que o termo fosse uma abreviação de beatitude, enquanto outros, principalmente os críticos e estudiosos, atribuíram tal denominação à influência direta do jazz, principal fonte de gírias e novos termos da contracultura da época.
Estar em movimento. Eis o principal objetivo da Geração Beat. Melhor ainda se estiver entre amigos. Pode-se dizer que esse prazer é essa espécie de prolongamento do sentimento colegial de fazer parte de uma turma.
Os textos abordavam o cansaço gerado pela monotonia da vida ordenada e da idolatria à vida suburbana na América do pós-guerra. Resolveram fazer sua própria revolução cultural através da literatura.
Se você curtiu o Keroauc e quiser dar uma sacada nos textos dele, saiba que a editora
L&PM lançou os seguintes títulos em preços bem acessíveis:
On the Road – Pé na Estrada, O Livro dos Sonhos, Os Vagabundos Iluminados, Viajante Solitário e Diários de Jack Kerouac 1947-1954 .
E que venham mais traduções.
Dicas
Para aqueles que curtem ler ouvindo um bom som. O texto do Kerouac obviamente combina jazzista do bebop e do hard bop, entre eles,
Bud Powell, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Milles Davis, Chet Baker, Art Blakey, John Coltrane, Sonny Rollins e
Wynton Marsalis.
Agora para aqueles que querem algo mais “moderno” procurem os cds da banda
Morphine, lançados no Brasil pela gravadora
Trama, são eles:
The Night, Yes, Good, Bootleg Detroit, Like Swimming, B Sides And Otherwise (neste tem uma música em homenagem a Kerouac) e
Cure For Pain.
O Morphine surgiu em 1990, na cidade americana de Boston, com a proposta de tocar rock com uma formação inusitada: baixo (de duas cordas), bateria e saxofone. Durante os anos 90, o grupo fez grande sucesso nas rádios universitárias dos Estados Unidos e seus discos foram aclamados pela crítica, graças a seu estilo musical que fundia rock, blues, jazz e funk, bem como as letras de do vocalista
Mark Sandman, cujo estilo irônico é inspirado nos escritores beat.