Comédia sentimental bebe na fonte (e honra) Altman

As artes, de certa forma, estão todas relacionadas entre si, mas não deixa de ser interessante observar que uma artista plástica consagrada (embora não muito famosa no Brasil) como
Miranda July tenha decidido abandonar um pouquinho seu universo de qaudros, painéis e instalações para incursionar pela arte cinematográfica. Mas foi o que aconteceu, e o resultado é esse filme de estréia da diretora,
Eu, você e todos nós, uma agradável comédia de costumes que bebe na fonte de Robert Altman e honra dignamente o estilo do cineasta de
Assassinato em Gosford Park.
É possível que July - que além de diretora do filme é a autora do roteiro e protagoniza a trama no papel de Christine - sequer tenha tido a intenção de homenagear Altman ou quem que seja. Provavelmente, tudo o que a diretora quis foi fazer um bom filme, e a semelhança de estilos seria apenas mera
coincidência. Bem, fazer um bom filme foi exatamente o que a cineasta conseguiu. Mas não deixa de ser curioso - e agradável - ingressar na brincadeira de Miranda July e seu microcosmos social de uma classe média artisticamente culta mas emocionalmente atrapalhada, e verificarmos que a realização é tão Altman. Ou tão July.
July, Julho,

é verão no hemisfério norte, e o filme da diretora transmite exatamente a sensação de se estar nessa estação do ano. Há um calor aprazível na fotografia, na forma como os personagens se vestem, como se comportam, que fogem um pouco ao estereótipo outonal que filmes que abordam microcosmos semelhantes - principalmente os de Woody Allen - trazem. A erudição de vários personagens de
Eu, você e todos nós não é pedante, mesmo porque os persongens não são ricos, viram-se como podem para sobreviver: Christine, a personagem da diretora luta para ganhar a vida cuidando de idosos, enquanto sonha tornar-se uma... artista plástica.
E Richard, o protagonista varão que se envolve afetivamente com Christine, luta para administrar sua vida e cuidar dos dois filhos: um quase adolescente que está começando a descobrir o amor e um menino prestes a cair em armadilhas sexuais através da Internet.
São basicamente esses dois personagens, Christine e Richard, que mantêm a narrativa do filme, embora, de todas as tramas, a mais engraçada e divertida seja exatamente aquela que, em outras mãos, corria o risco de ser a mais pesadona de todas: o envolvimento do filho caçula de Richard com encontros sexuais através de
chat-rooms na rede. Muito do sucesso dessa subtrama, que de tão bem realizada acaba por superar - em vivacidade, graça e interesse do público - todas as outras (que também são extremamente bem narradas) deve-se ao extraordinário desempenho do menino
Brandon Ratcliff, de seis anos, que interpreta Robbie de forma que poderia servir como uma aula de interpretação a muitos adultos.
Reside aí, no desempenho do menino, talvez o maior talento de todos os observados no filme. E que torna
Eu, você e todos nós um filme que transcende ainda mais sua proposta de ser uma realização simples para se converter em um filme que não apenas vale a pena, mas sim que deve ser assistido.