Servidão humana

Apaixonado pela novela do escritor americano
John Fante desde a primeira vez que a leu, o roteirista
Robert Towne - vencedor do Oscar pelo roteiro original de
Chinatown, em 1974 - lutou durante várias décadas para conseguir filmar a obra. O tempo passou, Fante faleceu, Towne realizou outros filmes como roteirista, estreou e fez alguns filmes como diretor (sendo o mais famoso o policial
Conspiração Tequila, de 1988), e, finalmente, conseguiu realizar seu sonho de filmar
Pergunte ao Pó. Agora, o filme estréia.
E esse sonho tão intenso, feito com tanta obstinação e paixão e que demorou mais de 30 anos para ser feito, é uma obra-prima da Arte Cinematográfica? Não, não é. É um bom filme, mas não uma obra-prima. O que não significa que a paixão de Towne pelo projeto não esteja impressa em cada fotograma.
Em
Pergunte ao Pó, o escritor
Arturo Bandini, americano de origem italiana, vive em um pensionato em Los Angeles disposto a realizar seu grande sonho: tornar-se um grande escritor. Mais que Bandini, porém, é a cidade dos sonhos (como definiu David Lynch), a cidade proibida (como o fez Curtis Hanson) o grande personagem da trama.

Cada ação dos personagens, cada sentimento, se dá pela influência que a deslumbrante cidade da California exerce sobre eles: tanto sobre Bandini, um homem soturno, fechado, que se pudesse passaria toda a sua vida debruçado sobre a máquina de escrever, quanto sobre Hellfrick, seu vizinho de porta, vivido por
Donald Sutherland em absoluto estado de graça, e a quem a humilhação de depender de dinheiro emprestado dos colegas de pensão já se tornou algo forçadamente natural.
Essa influência da cidade sobre os personagens também atinge Camilla Lopez, a garçonete que Bandini conhece quando sai para se alimentar (a realidade do estômago faz com que o soturno ítalo-americano abandone a máquina de escrever, às vezes), e que sonha em se tornar uma super-star, embora nem ler e escrever saiba. Ao menos, não em inglês.
É no relacionamento afetivo que surge entre Bandini e Lopez que repousa a força e beleza da película - e que evidencia as fortes semelhanças da obra com
Servidão Humana, realizado por John Cromwell em 1934 com Bette Davis e Leslie Howard, e cujos personagens têm fortes semelhanças com a dupla vivida, neste
Pergunte ao Pó, por
Salma Hayek e
Colin Farrell. Hayek, por sinal, deve ter se inspirado e muito na caracterização criada por Davis há 72 anos atrás: a atriz está simplesmente esplêndida como a garçonete desbocada, sem modos, vulgar (não no sentido chulo da palavra, mas de alguem que não teve oportunidades na vida), mas carente de amor (e
respeito) e com a mente recheada de sonhos.
Inspirando-se ou não em Bette Davis, a atriz engole Colin Farrell em rigorosamente todas as cenas do filme, mesmo porque o ator irlandês, mais uma vez, demonstra toda a sua fragilidade dramática e reduz um personagem tão rico quanto Arturo Bandini em mais um rapazinho de fisionomia pétrea e cara de insatisfeito.
A escalação de Farrell é, talvez, o único equívoco do filme, que tem outro grande mérito na excepcional fotografia de
Caleb Deschanel, que ousou no tratamento visual de
Pergunte ao Pó e criou belíssimas imagens escuras, como se Los Angeles fosse uma eterna noite, mesmo durante os dias que o casal passa na praia. Outro pequeno deslize de Towne, aí como roteirista, foi a pouca importância que ele deu à personagem Vera Rivkin, vivida por
Idina Menzel, uma milionária deformada que divide as atenções de Baldini com Camilla.
Nada, porém, que diminua o encantamento de
Pergunte ao Pó, uma realização cuja discreta força reside na suavidade e ternura com que Robert Towne registra a luta e a coragem de dois jovens aspirantes ao sucesso na cidade dos anjos.