Buy the ticket, take the ride.
Hunter S. Thompson
Há muito tempo ensaio minha volta ao
SoBReCarGa. Parei minha colaboração de notas diárias sobre quadrinhos por vários motivos. Porém, cá estou de volta em uma coluna. "E qual o tema que será abordado?", vocês perguntam. E eu lhes digo:
Hunter Thompson.

Hunter S. Thompson é o pai do
jornalismo-gonzo, que ele criou e popularizou através de sua produção para a revista
Rolling Stone e livros-reportagem. Mas vamos explicar o que é esse jornalismo-gonzo.
Gonzo é um estilo de narrativa em jornalismo (no chamado "novo jornalismo"), cinematografia ou qualquer outra produção de mídia em que o narrador abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura profundamente com a ação. Consiste no envolvimento altamente pessoal e irreverente do repórter nos temas sobre os quais escreve, traduzido em forma narrativa excêntrica.
O termo foi cunhado por
Bill Cardoso, repórter do
Boston Sunday Globe, para se referir a um artigo de Thompson. Segundo Cardoso, "gonzo" seria uma gíria irlandesa do sul de Boston para designar o último homem de pé após uma maratona de bebedeira.
O jornalismo-gonzo é por muitos nem considerado uma forma de jornalismo, devido à total parcialidade, falta de objetividade e pela não seriedade com que a notícia é tratada, fugindo a todas as regras básicas do jornalismo. O estilo vigora até os dias de hoje e ganha maior número de adeptos entre jovens, que se interessam pela narrativa literária de fatos verídicos. Se o jornalismo-gonzo é ou não um modelo jornalístico, se é pessoal demais ou se não é digno de crédito, são questões que permeiam o ambiente acadêmico.
A inspiração desse tipo de jornalismo é baseada na idéia de
William Faulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo.
Um nome de destaque no Brasil que escreve uns textos bem gonzo é
Arthur Veríssimo, repórter da
Trip, o qual vocês podem curtir no
site da revista.
Mas voltemos a Thomspon

Nativo de Louisville, Kentucky, Thompson cresceu no bairro de Cherokke Triangle e estudou em Louisville Male High School. Seus pais, Jack e Virginia, se casaram em 1935. Em 1952 seu pai morria deixando seus três filhos – Hunter, Davison e James – aos cuidados da mãe, a qual era uma notória alcoólatra.
Após uma série de problemas com a lei, incluindo uma prisão por roubo em 1956, ele se alistou na Força Aérea. Na base de Eglin, Flórida, começou a trabalhar como jornalista esportivo, escrevendo não só par ao periódico da base, como também para alguns jornais locais, apesar das proibições e regulamentos militares. Assim, em 1958, ele foi expulso do serviço militar, seguindo para Nova Iorque onde estudaria na Columbia University's School of General Studies.
O começo

Durante esse tempo, ele trabalhou na parte editorial da revista
Time, ganhando US$50,00 por semana como “copiador”, ou seja, o cara que tira xerox. Aí ele aproveitou e tirou cópias de dois livros inteiros:
O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e
Adeus às Armas, de
Ernest Hemingway. E por isso foi demitido por insubordinação em 1959. No mesmo ano trabalharia como repórter no jornal
Middletown Daily Record e seria novamente demitido por danificar uma máquina de doces e ainda discutir com o dono de um restaurante que por azar era um anunciante do periódico.
Em 1960, Thompson se mudaria para San Juan, Porto Rico e trabalharia na revista esportiva
El Sportivo que logo faliu. Porém ele aproveitou sua estadia e tempo para andar por toda a América Central chegando a ir até a América do Sul, escrevendo vários artigos para diferentes jornais norte-americanos como
freelancer. Especialmente na América do Sul, foi correspondente do
National Observer. Nesse período escreveu reportagens principalmente sobre a Colômbia, Peru e Brasil – onde fixou residência no Rio de Janeiro de 1963, ficando até poucos meses antes do golpe de 1964. Thompson em uma reportagem já apontava o clima tenso que levaria a toma do poder pelos militares em uma reportagem sobre um atentado que as Forças Armadas promoveram contra uma boate, matando e ferindo vários civis.
Thompson e a Rolling Stone

Thompson então foi contratado pela revista
Rolling Stone, e seu artigo de estréia foi sobre sua campanha para se eleger xerife da cidade de Aspen, no Colorado, famosa pelas pistas de esqui e freqüentada pelos ricos e famosos. Ele concorreu pelo partido
Freak Party e entre suas propostas estava a descriminalização do uso de drogas na cidade e a transformação de todas as ruas da cidade em ciclovias. Ele perdeu a eleição por poucos votos.
Nesse meio tempo escreveu dois romances,
Prince Jellyfish e
Diário do Rum, além de diversos contos, que não foram publicados. Em 1963, casou-se com sua namorada Sandra Dawn Conklin, e com ela teve seu único filho, Juan. Sua mulher engravidou outras cinco vezes, mas três foram abortados e dois morreram logo após o parto. Eles se divorciaram em 1980.
É verdade que ele já cobria pautas incomuns, porém nada extraordinárias. Transformando brigas, consumo excessivo de drogas e alcoolismo no tema central de seu trabalho, o jornalista desafiava as então regras pré-estabelecidas do jornalismo norte-americano, que ele achava quadradas demais.
Motoqueiros, Las Vegas e gonzo

Mas a fama chegaria em 1966 graças à publicação de uma grande reportagem sobre os
Hell’s Angels, gangue de motoqueiros baderneiros e fora-da-lei que na época aterrorizava os Estados Unidos e era sinônimo de tudo que ia contra o
american way e tudo que Thompson curtia.
O editor da publicação esquerdista
The Nation pediu a Thompson para fazer uma matéria sobre o fenômeno das gangues de motociclistas, e o resultado foi o livro
Hell’s Angels – Medo e Delírio Sobre Duas Rodas, lançado em 1966.
Assim ele fez amizade com os motoqueiros e conviveu na estrada por cerca de um ano. Thompson vai revelando que aqueles encrenqueiros, irresponsáveis, brigões eram também muitas vezes trabalhadores sem qualificação e sem condições de subir no mercado de trabalho, que normalmente fazia bicos para sobreviver. Sua proximidade possibilitou um retrato completo, sociológico, antropológico, psicológico e político do fenômeno das gangues de motociclistas, seus problemas com a polícia, seu envolvimento com a contracultura da época e seu tratamento na grande mídia americana.
Mas seu primeiro artigo genuinamente gonzo foi
O Kentucky Derby é Decadente e Degenerado, publicado em 1970 na revista
Scanlan's Monthly. Escalado para cobrir a tradicional corrida de cavalos que acontece há mais de cem anos na sua cidade natal de Louisville, Thompson se afundou em um torpor alcoólico de quatro dias junto com o artista
Ralph Steadman, que a partir de então ilustraria a maioria de seus artigos. Ao final da aventura, Thompson não sabia quem tinha ganho a corrida, mas produziu um artigo altamente ácido e crítico sobre a sociedade do sul dos Estados Unidos, repleto de digressões, e interferência do autor no curso dos acontecimentos, botando por terra a objetividade jornalística e a distinção entre autor e sujeito da narrativa. Nenhum jornalista tinha ido tão longe.
Em 1971, acompanhado do advogado
Oscar Acosta, Thompson transformou o que seria uma matéria comum sobre uma tradicional corrida de motos de Las Vegas, a Mint 400, em um registro fantástico e jamais inigualável no qual descortinou a fragilidade do
american way of life.

Assim o que deveria ser uma simples matéria de 250 palavras transformou-se em um marco da contracultura, publicado inicialmente pela
Rolling Stone – “a única revista dos Estados Unidos na qual eu poderia ter publicado o livro”, declarou Thompson.
Através de uma série de artigos com narrativa em primeira pessoa de seu alter ego, Raoul Duke, conta sua viaja até a famosa cidade do jogo para cobrir a tal corrida de motocross e uma convenção de promotores públicos sobre drogas. Vale citar que ele e Oscar encheram o porta malas de seu conversível vermelho com os mais diversos tipos de drogas (maconha, cocaína, LSD, éter, mescalina e muitas outras). O resultado foi uma busca esotérica do Sonho Americano, e o livro, também ilustrado por Ralph Steadman, se tornou o maior sucesso de Thompson.
Dos artigos reunidos, nasceu o livro
Las Vegas na Cabeça, e dele saiu o filme
Medo e Delírio em Las Vegas, de 1998, dirigido por
Terry Gilliam, com
Johnny Deep no papel principal e
Benicio del Toro como Acosta.
No ano seguinte, Thompson cobriu as eleições presidenciais americanas, entre o democrata
George McGovern e o presidente republicano
Richard Nixon. As críticas ácidas aos oponentes de McGovern, que se tornou seu amigo, dentro do Partido Democrata e principalmente ao presidente Nixon tornaram o livro
Fear and Loathing on the Campaign Trail 1972 um clássico da sátira política. Thompson se tornou um dos mais ferozes críticos de Nixon, e ao escrever o seu obtuário na
Rolling Stone em 1994, o descreveu como "um homem que pode apertar sua mão e o apunhalar nas costas ao mesmo tempo".
Saindo de cena

Nessa época, Thompson se tornou recluso, vivendo em um sítio fortificado nas imediações de Aspen, de onde escrevia diversos artigos para jornais e revistas sobre seus temas favoritos: política, futebol americano, drogas e comportamento violento, sempre com duras críticas ao estilo de vida americano. Em 1991, após uma busca em sua casa provocada pela acusação de assédio sexual por uma assistente, Thompson foi preso por porte de drogas.
Nos últimos anos, Thompson – que era aficionado por armas e fez campanha contra a reeleição de
W. Bush – trabalhava como comentarista esportivo para a
ESPN.
E sua morte não poderia ser mais imprevisível e louca que sua vida. Assim enquanto conversava ao telefone com sua segunda esposa, Anita Beymunk, o jornalista disparou um tiro contra sua própria cabeça em casa em Woody Creek.
O trabalho de Thompson pode ser apreciado graças à Editora Conrad, que lançou
Hell's Angels - Medo e Delírio Sobre Duas Rodas,
A Grande Caçada aos Tubarões,
Rum e
Screw Jack.
Entrem no site
www.gonzo.org e divirtam-se.
Curiosidades
* Thompson era fã do escritor
Ernest Hemingway, que em 1961 também se matou com um tiro de fuzil.
* Era amigo de Johnny Depp, Bill Murray, Sean Penn e do músico Warren Zevon.
* Inspirou Spider Jerusalem, protagonista da HQ
Transmetropolitan, de
Warren Ellis.
* Era viciado em escrever e ler cartas.