Remake com estilo

Na onda de
remakes que tem invadido o cinema nos últimos dois anos - vide o caso de
Os produtores e
Os seus, os meus & os nossos, para só citar dois exemplos - este
A profecia permite, mais que os outros, um
comparativo bem interessante em relação a seu original, realizado há exatos 30 anos: assim como o filme de 1976, também esta atualização pode ser definida como uma perfeita utilização dos ingredientes do cinema de terror de sua época, garantindo um entretenimento de qualidade e que, em ambos os casos, merecem posicionar-se na linha de frente dos filmes do gênero em suas respectivas décadas.
Se o modorrento cinema de terror dos anos 70 não tinha por hábito inserir algum tipo de grandeza subliminar em seus filmes, nem tampouco investir com muito vigor nas categorias técnicas das realizações, era, por outro lado, comum que se contratassem grandes estrelas para protagonizar os filmes do gênero - como se, de certa forma, o
star power de seus protagonistas inserisse a grandeza que os filmes de terror da época - modestos, comedidos, de pouco orçamento (involuntariamente com um pé no cinema B, embora produzidos por grandes estúdios) - careciam em outras áreas.

Nesse novo milênio, por sua vez, o cinema de terror em nada fica a dever aos filmes dos gêneros preconceituosamente definidos como mais nobres: percebe-se nitidamente que não há mais inibição em se investir em cenários grandiosos, em se realizar grandes trabalhos artísticos nos setores técnicos para que o resultado final atinja um nível de primeiríssima linha. É curioso observar como, da mesma forma que o cinema brasileiro, o cinema de terror cansou de ser o primo pobre e exige a sua inserção entre os grandes.
Comparando-se
A profecia, a presente refilmagem, com o filme original, salta aos olhos acima de tudo a diferença de mentalidade que os realizadores do cinema de terror alcançaram. Ser
classe B é bom (ao menos, não é motivo para crítica ou condenação), mas ser classe A é ainda melhor. Claro que não se está criticando, aqui, o
filme de 1976 - uma rápida revisão comprova que o excelente trabalho de Richard Donner resistiu ao tempo e, sob qualquer balanço, confirma-se como um dos melhores filmes de terror dos anos 70.
Mas, justamente por ser um
remake quase literal e, ao mesmo tempo, repleto de coisas novas, é que esse novo
A profecia permite que o espectador constate o quanto o cinema de terror evoluiu em sua mentalidade - apesar de bons filmes desse gênero ainda hoje subestimado (mas que já vem deixando de o ser) sempre terem existido. O fato de ambos os filmes terem sido escritos pelo mesmo roteirista,
David Seltzer, criando a mesma trama duas vezes, sob a luz de duas diferentes décadas, intensifica a possibilidade dessa avaliação.
No remake em questão, logo na primeira cena, onde, numa sala de reuniões no Vaticano, cardeais revelam ao Papa que, provavelmente, um emissário do mal estaria prestes a vir ao mundo, já fica claro que este novo
A profecia não quer ser um filme simples, no sentido pequeno da palavra. Claro, sua proposta é ser apenas uma diversão. Mas uma diversão com grandeza, com grandiosidade, que emprega a realidade de seu tempo para compor a trama apresentada e não abre mão de ter (muita) beleza plástica, cenários que trabalhem contando a estória tanto quanto o roteiro e a direção e que, ao contratar grandes atores para papéis coadjuvantes, não o faz para que sejam
a exceção
que ofusca a regra (da pobreza).
A profecia o faz porque é um filme de primeiro nível. Um filme de terror, extremamente competente em sua proposta e realização, e exatamente por isso, um filme que não é classe B, é classe A.