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Crônica de um sonho anunciado
Por Márcia Lima — Quinta, 25 de maio de 2006
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Foi em um sonho que o disco Inside In Inside Out, dos Kooks, apareceu para mim. Sobrenatural? Coisíssima nenhuma. Mania, mesmo. Geralmente sonho com as últimas coisas do meu dia - neste caso, uma materiazinha da NME.
Porque eu não sou hipócrita, nem anti-hype para dizer que não gosto da revistinha. Gosto, amo, e se tivesse dez anos a menos faria uma tatuagem das três letrinhas ao lado da sugarplum fairy que carrego em homenagem a Lou Reed. Felizmente, estou dez anos mais esperta, mas, ainda assim, espero pela revista como uma criança espera pelo Papai Noel. O melhor de tudo é que o meu papai noel vem todas as semanas...
E cria ídolos, cria moda, cria polêmicas, esquece, é volúvel, confusa, mas é lindinha e, na maioria das vezes, pensa como eu. Poderíamos até namorar se ela não fosse uma revista e se o artigo não fosse feminino. Mas gosto de chamar também de semanário. Artigo masculino, o semanário é mais sério e, na maioria das vezes, carrega aquela fleuma inglesa que dispensa comentários...
E, claro, eu adoro as últimas páginas, aquelas que muitos consideram perda de tempo e excesso de marketing. Em outras épocas, eu teria cortado todos aqueles anúncios de sonho e colado em caderninhos, agendas, diários. Naquelas páginas, estão a síntese do meu desejo indie-consumista: Cocorosie, Little Man Tate, Primal Scream, Give It A Name, Oxegen, Reading, Panic!, Pippetes, Milburn, Weller...
Claro que há Rolling Stone, Spin, Melody Maker, Q, Bizz, Outra Coisa, enfim, revistas de música não faltam. Mas é como quando você é (muito) apaixonado pela(o) menininha(o) da facul. Você sabe que tem outras tantas pessoas bacanas, mas tem olhos apenas para ela(e).
Agora, se quiser arrumar briga feia comigo, basta falar mal da NME, o que é típico daquele povo tão cool que sofre a síndrome do underground, coitados. Quando determinada banda aparece nos classificados do semanário, eles correm atrás de informações dela e a adoram por umas 15 semanas. Quando a banda chegar à capa, pode apostar, eles vão odiar. Odiar não, desprezar, porque é mais cult.
Fui eu que envelheci muito rápido e me tornei sentimental demais ou esta gurizadinha é que perdeu os critérios com essa postura "se-a-NME-gosta-eu-detesto"? Bem feito pra eles. Nestes últimos 54 anos, TODAS as bandas bacanas passaram por lá. Todas. Quero ver síndrome que resista...
Aí, alguma daquelas frases ironicamente ótimas (ou seriam otimamente irônicas?) da seção de cartas ficou na minha cabeça e eu fui dormir e sonhei com The Kooks. Detalhe: eu nem conhecia a banda, muito menos a cara dos caras da banda. Por isso, não posso jurar que os quatro malucos que estavam no palco eram genuinamente os Kooks. De qualquer forma, no meu sonho eram. E não espere nada de extravagante, porque o sonho ficou por aí mesmo: eu num show dos caras.
E então, em um tempo não muito distante, meu computador explode. No mp3 player, apenas o disco Inside In Inside Out, porque, é claro, fui pega desprevenida. Se houvesse alguma bola de cristal para casos como este, certamente eles não estariam no meu top 5, você pode imaginar: Little Man Tate, Mando Diao, Viana Moog, Honorary Title e Dirty Pretty Things.
Eis que o disco acabou se tornando meu favorito, senão de todos os tempos, pelo menos o favorito do mês de maio. Junto com o novo do Primal Scream.
E, na mesma semana, Johnny 'Quero-ser-Liam-Gallagher' Borrel falou tri-mal do Kooks. E alguns pseudo-intelectuais arrogantes falaram tri-mal da NME. E eu continuo sem internet, sem mp3 e sem computador. Apenas com revistas e o disco. Por isso este texto.
Semana que vem, ó Deus, espero ter algo novo para contar sobre o mundinho pop.
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