Pescar referências é uma tarefa das mais complexas

Talvez você, leitor, vá se deparar por aí com muitas críticas negativas a
X-Men 3: O Confronto Final, o novo filme dos mutantes da Marvel, dizendo que o filme é confuso, os personagens são rasos, que o diretor é isso ou aquilo, que o cabelo do
Wolverine é ridículo, ou que é uma bobagem pirotécnica típica do cinemão americano atual. Podem até xingar o filme dizendo que "é um filme para adolescentes", "uma mostra da infantilização da sétima arte" ou outros pedantismos do gênero. Estas críticas poderiam até estar certas, se fosse justo julgar um filme como este pelos mesmos parâmetros que julgamos um filme qualquer. Mas isso, eu já adianto, seria cometer uma grande covardia e injustiça com o novo capítulo da série, que, se não é uma grande obra do cinema, é um ótimo filme baseado em quadrinhos. Talvez, inclusive, um dos melhores.
Não quero dizer com isso que os filmes baseados em quadrinhos devem ser julgados por padrões inferiores, mas sim, com padrões um tanto diferentes. Quando passamos uma história em quadrinhos para as telas, de certa forma, não estamos criando uma obra autônoma, estamos adicionando uma nova face a um produto multimídia maior. Os valores mudam, o público-alvo muda. Ao fazer um filme baseado em uma franquia já estabelecida em outra mídia, você não estará sujeito às mesmas regras do cinema convencional, estará assumindo compromissos adicionais, e deverá dançar de acordo com duas ou mais músicas, às vezes, bastante diferentes.
No caso específico das adaptações de quadrinhos, são outras coisas que importam. Quando você vai ao cinema assistir um filme baseado na sua história em quadrinhos favorita, está disposto a relevar certas coisas em nome de outras. Aceita trocar, por exemplo, um pouco de qualidade na interpretação por fidelidade, um pouco de coerência e estrutura de roteiro por ação, ou um pouco de profundidade pelo simples prazer de ver um personagem familiar finalmente caracterizado em carne-e-osso. É como um acordo feito entre um público específico (que deseja coisas específicas) e o estúdio. As cláusulas deste acordo podem não ser exatamente as mesmas com as quais o público e a crítica (que teima em não reconhecer isso) em geral estão acostumados, mas para os envolvidos, para o consumidor final para o qual o produto foi planejado, é o que mais traz satisfação.
E, levando tudo isso em conta, para o público a que se destina,
X-Men 3 traz satisfação de sobra. É bastante respeitoso ao material original, generoso na ação e traz direto dos quadrinhos zilhões de personagens e situações que, embora só façam algum sentido para quem já possui certa familiaridade com o universo dos X-Men, agradarão bastante os fãs. É, acima de tudo, uma experiência nerd – e uma das mais legais que já apareceram no cinema. Uma obra assumidamente pop.
O filme é bem mais ambicioso do que as duas partes anteriores: em
X-Men 2, descontando os “pontas”, tivemos apenas a adição de um personagem do lado dos heróis (
Noturno) e dois do lado dos vilões (
Coronel Stryker e
Lady Letal). Já neste, o time dos heróis ganha 3 personagens novos (
Fera, Colossus e
Kitty Pryde) e os vilões... bem, estes ganham um exército (
Homem-Múltiplo, Fanático, Callisto, e mais uma pá de personagens). Fica até difícil enquadrar quais destes são coadjuvantes e quais são apenas extras.
Por isso mesmo, o tempo de tela fica concorrido e alguns personagens são muito mal aproveitados. É um crime, por exemplo, a falta de atenção aos personagens novos, como Colossus e Kitty Pryde. Colossus, aliás, no filme inteiro não deve dizer nem dez palavras. Vários mutantes da Irmandade não têm nem seus nomes citados. Não há nenhuma explicação, ainda, sobre como o
Dr. Hank McCoy,

que no segundo filme era perfeitamente humano, virou um monstro azul peludo, nem é dita uma palavra sequer sobre o que aconteceu a Noturno.
Ciclope e
Vampira estão no filme somente para cumprir função dramática e não participam da ação. O
Anjo, então, só tem função decorativa.
Mas o quanto este descaso é importante? Bem, é bastante importante para quem não conhece anteriormente tais personagens. Toda esta multidão de gente na tela, que aparece e desaparece sem maiores explicações, com certeza frustrará um espectador incauto. Talvez pare este tipo de público, assistir ao desfile de nomes, caras e poderes seja como assistir a um capítulo isolado de uma novela da Globo com pretensões de querer entender o que está acontecendo. Mas o fã, garanto, se sentirá em casa!
Parece que
Brett Ratner, que substitui Bryan Singer com hesitação (como se estivesse tentando manter a “casa arrumada” para a volta do ex-manda-chuva da franquia, sem mexer muito no estilo ou no tom da série), ao inserir um trilhão de referências ao universo dos mutantes, está dirigindo seu filme aos que já acompanham os heróis a bastante tempo. Parece que o filme é um revival de bons momentos dos X-Men entre amigos: “Lembra da saga da Fênix? Foi legal, não? E daquela história em que inventaram uma cura para o gene X?”. Quem está de fora, no entanto, exatamente como nestas conversas entre dois fãs inveterados de quadrinhos, ficará “boiando” no assunto.
A ação, por outro lado, não desaponta. Ratner é um competente diretor de ação, e a pancadaria aqui toma ares épicos. Se os poderes dos personagens pareciam ter sofrido “downgrade” nos dois primeiros filmes, neste capítulo cresceram exponencialmente.
Magneto, por exemplo, que nas duas partes anteriores se limitava a arremessar automóveis, aqui muda a Golden Gate de lugar sem muito esforço. E, mesmo assim, não é o vilão mais poderoso: os X-Men, desfalcados, ainda são forçados a encarar a Fênix, entidade onipotente da mitologia Marvel. Tudo isso rende uma sequência final de combate magnífica, envolvendo dezenas e dezenas de personagens, em um desafio muito mais adequado ao espírito das histórias dos X-Men nos quadrinhos do que os enfrentamentos decisivos dos filmes anteriores.
Aparentemente, outros detalhes além da intensidade da ação também começaram a mudar para aproximar mais a série cinematográfica do material dos quadrinhos. Um exemplo é a função no grupo de
Tempestade, que, embora ainda não tenha o destaque merecido (e exigido por
Halle Berry), ensaia assumir a liderança dos X-Men. No entanto, é impossível tirar os holofotes de
Hugh Jackman, tanto pelo carisma do ator quanto pela força de Wolverine, um dos personagens mais amados pelos fãs. Personagens secundários conhecidos dos leitores também começam a dar as caras (como a
Dra. Moira MacTaggert, Psylocke e pelo menos uma dúzia de outros mutantes), e talvez estejam sendo posicionados para uma possível aparição em um próximo filme.
Os fãs reconhecerão outras toneladas de citações, como o “Arremesso Especial”,
Stan Lee e
Chris Claremont fazendo pontas (lado a lado), Sentinelas e muito mais. Pescar referências neste filme é uma tarefa das mais complexas!
Mas nem tudo são flores. Às vezes Ratner desliza, principalmente no que diz respeito ao ritmo, tornando algumas partes do filme bastante arrastadas e irregulares. E embora sempre exista algo importante acontecendo, em algumas horas a sensação é de que uma ou outra sequência está um tanto deslocada, principalmente na parte dramática. Muito do filme poderia muito bem ser “cortado”,

para simplificar a história e dar oportunidade para o melhor desenvolvimento de outras sequências. A trilha sonora, por sua vez, é extremamente genérica e não empolga em momento algum, sendo a maior perda em relação às duas partes anteriores.
Mesmo assim, como já dissemos, nada disso abala muito o resultado final. Ratner não pode ser comparado a Bryan Singer, e isso fica evidente. Mas existem muitos mais pontos positivos no filme a serem apreciados do que defeitos, que, embora existam em quantidade, não saltam aos olhos tão agressivamente para quem está imerso na experiência.
Se você nunca ouviu falar dos X-Men ou não gosta de histórias em quadrinhos, talvez saia bastante frustrado do cinema. Se você procura um bom filme de ação, talvez fique meio perdido com a história e a multidão de personagens, mas ainda assim aproveitará bastante. Agora, se você é fã dos personagens, vá sem medo assistir “X-Men 3”. Minha opinião pessoal, de leitor de quadrinhos? Com certeza não é, e nem de longe, o melhor filme da série, mas paradoxalmente é o no qual eu mais me diverti. E como me diverti!