Cura para quê?

Imagine que você tem um poder extraordinário. Você faz coisas que outras pessoas não fazem. Por isso, ao invés de ser admirado, ou respeitado, você simplesmente é agredido, discriminado, tratado como uma anomalia. Então, depois de boa parte da sua vida ter sido um tormento, as pessoas normais descobrem uma vacina que cura você. “Cura”, pois elas acham que você é doente. O que você faz? Aceita tornar-se uma pessoa comum ou acha que não é doente e não precisa de nada para se adequar aos padrões?
Este é um dos pontos de partida de
X-Men – O Confronto Final: um laboratório desenvolve a cura para o gene que transforma o humano em mutante. Alguns aceitam ser “curados”, outros acham que não há doença, outros revoltam-se contra a possibilidade de cura. Entre estes últimos está Magneto (
Ian McKellen), que recruta um exército de outros revoltados para acabar com a vacina, e, se sobrar tempo, dominar a raça humana.
Desenvolve-se assim o tema do preconceito contra as minorias, já tratado antes nos filmes, especialmente no segundo, e que é parte integrante de boa parte das histórias homens X. Podemos realmente sentir o quão horrível deve ser para alguém ser um mutante numa sociedade preconceituosa e ignorante, quando, na segunda cena, vemos Warren Worthington III ainda criança,
podando dolorosamente suas asas.
Outro ponto de partida é Jean Grey (
Famke Janssen). Ela morreu no final do outro filme, mas volta agora, com todos seus poderes liberados. Transforma-se, pois, em Fênix, o ser mais poderoso do universo. Essa é uma das principais sagas dos X-Men mas, infelizmente, não foi tratada com a consideração que merecia. Adaptada para ser coadjuvante da trama sobre a vacina, não funciona tão bem. Fênix, que poderia mudar a rota da Terra, explodir o sol, transformar a lua num sorvete de baunilha, contenta-se apenas em matar umas pessoas aqui, uns mutantes ali, e levantar as águas do rio. No começo funciona muito bem, principalmente seu confronto com o Professor Xavier (
Patrick Stewart). Nesse momento, podemos antever quantas coisas fantásticas ela fará. Mas não faz.
O diretor
Brett Ratner não fica devendo muito a seu antecessor,
Bryan Singer. Resolve com desenvoltura cenas de luta, consegue mostrar a profundidade possível dos personagens e comanda bem toda a loucura de certas seqüências. Realmente, o filme é fabuloso em vários aspectos. Acerta no ritmo, nas doses de tensão, não tenta se impor pela força, vai com calma desenrolando sua trama até chegar num ápice que, apesar de algumas coisas, é um bom desfecho.
Mas Ratner não consegue disfarçar uma certa inexpressividade ao deixar, por exemplo, mutantes parados quando deviam estar fazendo alguma coisa. Fênix, estática sobre um monte de entulho, com uma fogueira atrás, enquanto desmancha pessoas no ar é um tanto sem graça e não dá a impressão de força e poder que deveria dar. Aliás, ela não deveria nem estar bagunçando a Ilha de Alcatraz, deveria estar querendo derreter a galáxia.
Em matéria de personagens, estamos relativamente bem. É sentida a falta do mutante com melhor efeito especial: Noturno, mas em compensação temos o Fera (
Kelsey Grammer, protagonista da extinta série
Frasier e um dos maiores cachês pagos na produção), Anjo (
Ben Foster), Fanático (
Vinnie Jones) e Arco Voltaico (
Omahyra), entre outros, além de maior destaque para Homem de Gelo (
Shawn Ashmore), Colossus(
Daniel Cudmore) e Kitty Pride (
Ellen Page). E Mística (
Rebecca Romijn), como sempre, interessantíssima.
Há que se notar uma coisa: todos os que se juntam a Magneto têm um visual punk: vestem-se de preto, usam penteados esquisitos, tatuagens, piercings. Será que mutantes mais comportados não poderiam se revoltar também? Ou os bonitinhos e cheirosos se identificam só com os X-Men?
Pela terceira vez mudam o corte de cabelo da Tempestade (
Halle Berry). Ficou bonito, inclusive. Poderiam também ter mudado o capacete do Magneto, que fica um tanto ridículo em Ian McKellen.