Fantasia e FC no Incal

Por Rafael Lima — Terça, 16 de maio de 2006

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Durante um curto período no final do século XX, quadrinho adulto, nos EUA, era sinônimo de uma única revista: Heavy Metal, cujo tratamento gráfico estava incontáveis furos acima de qualquer opção – fora dali, só se fosse atrás dos alternativos. Até meados dos anos 1980 ainda não surgiria periódico capaz de destroná-la, o mais próxima disso sendo a Epic Magazine, da Marvel.

O elenco de colaboradores era um dream team da vanguarda autoral: Howard Chaykin, Paul Kirschner, Richard Corben, Berni Whrigthson, Jeff Jones, Arthur Suydam, Druillet, Caza, Moebius – gente que justificava com sobras o subtítulo "a revista de fantasia e ficção científica". Se todo trono tem um rei, qual seria a história que melhor traduziu e explorou a linha editorial da Heavy Metal?

Qualquer resposta é arriscada, mas se as chances apontam uma particular e extensa obra-prima a quatro mãos, duas delas pertencentes a um ilustrador já então consagrado e idolatrado: Moebius, enquanto as outras duas caberiam ao chileno doidaço Alejandro Jodorowsky, roteirista da saga chamada simplesmente de Incal, que enfim é publicada no Brasil pela Devir, com luxuoso colorido novo – até então as únicas edições disponíveis na nossa língua eram as portuguesas, da Meribérica.

Incal tem o clima de história de fantasia, emulando aventuras clássicas, capa-e-espada, bruxaria, caçadores de recompensas e guerra, porém com ambientação futurista, tal como o filme Guerra nas Estrelas, contemporâneo seu. O roteiro começa como uma típica história policial noir, ainda que passada num tempo e local distante (futuro?) onde carros flutuam no espaço e as cidades são tomadas por imensas construções verticais, mas logo em seguida evolui quase como num improviso, de maneira absolutamente imprevisível, onírica, inconsciente até, ainda que preservando o rigor da narrativa seriada, ou seja, incorporando elementos novos que capturem a atenção quase a cada página e deixando ganchos cada vez mais irresistíveis para atiçar a curiosidade do que vem em seguida.

Tudo isso é protagonizado por seres com cabeça de cachorro, pássaros que falam, robôs médicos e monstros mutantes, além de invenções que só dariam certo nas páginas de uma história em quadrinhos como os tecnopapas, o metabarão ou a holoputa; é delirante e ao mesmo tempo incrivelmente coerente dentro de sua própria lógica. Já se disse que a história é cínica e niilista por não ter um personagem principal ou curso discernível (outra interpretação enxerga nela um rito de passagem, metáfora para o auto-conhecimento), deslocando-se entre vários protagonistas, todos eles teoricamente moldados em cartas do tarô.

Assim, o personagem principal, John Difool, seria o Bobo, denunciado até pelo nome: “the fool”, e sua participação mais como vítima do que leme de seu próprio destino lembra antes a de um arlequim da Commedia del’Arte ou de herói picaresco como João Grilo ou Tom Jones do que um romântico. Claro que Jodorowsky tira proveito disso para extrair os melhores momentos de humor, muitos deles capitaneados pelo pássaro Deepo, cujo intelecto é invariavelmente mais desenvolvido do que o de seu dono...

Trazer à vida tais delírios, sem transformar numa barafunda incompreensível – como é comum acontecer na ficção científica ou mesmo na fantasia – e sem deixar cair a bola da imaginação não seria tarefa para qualquer artista, a quem caberia ainda incorporar sua dose de elementos visuais. A escolha de Moebius não poderia ter sido mais perfeita, nesse sentido.

Também não seria exagero afirmar que ele estava no auge de sua forma para ilustração, jogando com toda a habilidade acumulada nos trabalhos anteriores: ali estão as hachuras de Le Detour (ou de Tenente Blueberry), as paisagens e os alienígenas de Arzach, o despojamento de The Long Tomorrow, num todo bem equilibrado e preciso, definido em poucas linhas, ainda que não se furte em coalhar uma página com detalhes, como na obra-prima que é a queda livre na segunda página.

Por toda a história há uma elegância e clareza de composição raríssimas de se encontrar em qualquer história de ficção científica, onde a sujeira e a poluição visual são regra.

Talvez só tenha atingido igual excelência na graphic novel do Surfista Prateado - enquanto o Incal é obra de fôlego, mais de 300 páginas se contarmos os 4 álbuns principais: O Incal Negro, O Incal Luz (reunidos nessa edição), O que Está em Cima e O que Está em Baixo.

Por conta do impacto e do sucesso, Jodorowsky expandiu o universo ficcional do Incal, primeiro contando as histórias de John Difool antes de encontrar o Incal e, em seguida, depois, com arte de Juan Gimenez na saga dos metabarões, campeã de vendagem nos anos 90 na França, publicada no Brasil pela efêmera edição nacional da Heavy Metal.

Junto com os álbuns de Corto Maltese que a editora Pixel está lançando, uma chance rara do leitor brasileiro se familiarizar com obras-primas definitivas dos quadrinhos e nunca antes publicadas decentemente no Brasil.

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